A ameaça de Donald Trump de aumentar tarifas sobre produtos chineses causou forte queda nos mercados globais, que, durante o dia, amenizaram a reação negativa ao absorver a análise de que o anúncio era apenas uma estratégia dos EUA para acelerar o acordo com Pequim.
No domingo (5), Trump surpreendeu investidores ao revelar que pretende aumentar de 10% para 25% as tarifas sobre US$ 200 bilhões (R$ 788 bilhões) em produtos chineses a partir de sexta-feira (10).
A declaração, feita em uma rede social, aconteceu às vésperas da chegada da delegação chinesa aos EUA para tentar colocar fim à guerra comercial entre os dois países. Segundo Trump, os US$ 325 bilhões de outros bens que não são taxados passarão a ter a mesma alíquota de 25%.
O impacto da retórica americana na abertura do mercado foi bastante negativo nesta segunda (6). As Bolsas da China e da Europa despencaram. O índice CSI300, que reúne as maiores companhias listadas em Xangai e Shenzhen, caiu quase 6% –maior perda desde 2016.
Já o S&P 500, que reúne gigantes americanas, recuou 1,6% durante o pregão, mas suavizou a queda e fechou em 0,45%. No Brasil, a Bolsa caiu 1%, e o dólar foi a R$ 3,96. A ameaça veio após uma visita de conselheiros de Trump a Pequim.
Eles veem como recuo a recusa dos chineses em assumir no texto do acordo o compromisso de mudar suas leis. Robert Lighthizer, representante comercial dos EUA, disse a jornalistas que houve “erosão dos comprometimentos” por parte da China.
Ao longo do dia, analistas passaram a consolidar a avaliação de que Trump tem pressa para fechar o acordo e decidiu criar um fato político. A tese de que o presidente dos EUA não quer jogar no lixo o acordo comercial foi reforçada com a confirmação do governo de Xi Jinping de que uma delegação chinesa se prepara para chegar a Washington nesta quarta (8).
Quem acompanha a guerra comercial diz que as tratativas estavam mornas desde março –após o fim da trégua de 90 dias em relação às tarifas– e que, diante da falta de iniciativa chinesa, que não tem interesse em fechar um acordo tão rápido, Trump precisou criar um senso de urgência na negociação com Pequim.
O raciocínio do americano é simples: o câmbio chinês só pode variar 2% por dia e, por isso, um aumento de mais 15 pontos percentuais na alíquota poderia ser uma barreira difícil para Pequim transpor em tão pouco tempo.
Segundo especialistas, um acordo deve sair em breve, mas dificilmente até esta sexta-feira. Como o deadline imposto pelos EUA é muito curto –até o fim desta semana–, o que deve acontecer é um aumento temporário das tarifas.
“É provável que tenhamos um aumento no curto prazo. Isso não é o fim do jogo, é uma estratégia de negociação, mas, ao adotar essa posição [de ameaça], o risco aumenta”, diz Christopher Gangnam, da consultoria Eurasia. Os riscos, no entanto, não envolveriam os pontos cruciais do acordo.
“Os principais pontos estariam mantidos: respeito à propriedade intelectual, baixar as tarifas, lista negativa de investimentos na China –para empresas americanas atuarem em solo chinês. Por outro lado, os EUA também vêm fechando o cerco contra investimentos chineses no país. Pode ser algo que os chineses queiram negociar em contrapartida”, afirma André Soares, do Atlantic Council.
Em relação ao impacto sobre os produtos do Brasil, é consenso entre os analistas que o setor agrícola, com soja, milho e trigo, é o que deve ser observado com mais atenção. Enquanto as tarifas estiverem altas, o apetite da China para comprar dos EUA é cada vez menor, o que beneficia o exportador brasileiro.
Por outro lado, os chineses devem usar esses bens como moeda de troca para conseguir mais vantagens com os americanos e, com o acordo, o Brasil poderia perder mercado para Washington.