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Economia

“Estudo é obrigação para vida toda”, afirma consultor

A discussão sobre a reforma da Previdência ligou um sinal de alerta para os brasileiros: será preciso trabalhar por mais tempo para se aposentar.Para ...

Fausto disse que há cursos superiores que “já não servem mais para nada”, e destacou que toda a área de informática e de relações humanas ainda terão espaço

Última atualização

Fausto disse que há cursos superiores que “já não servem mais para nada”, e destacou que toda a área de informática e de relações humanas ainda terão espaço (Foto: Rodrigo Gavini/ AT/ 12/02/2018)A discussão sobre a reforma da Previdência ligou um sinal de alerta para os brasileiros: será preciso trabalhar por mais tempo para se aposentar.

Para o empresário e consultor Fausto Frizzera, diretor do Centro Capixaba de Desenvolvimento Metalmecânico (CDMEC) e do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas e de Material Elétrico do Estado (Sindifer), isso não é problema, já que, hoje, quem tem 60 anos é “uma criança”.

Com 66 anos e formado em Engenharia Mecânica, ele avisa: não há limite de idade para se qualificar e buscar um lugar ao sol no mercado de trabalho.

A Tribuna — O brasileiro, de forma geral, é acostumado a se aposentar cedo?
Fausto Frizzera — Sim, e precisamos, urgentemente, mudar essa cultura, dos dois lados: o do empregado e o do empregador.

O empregado precisa entender que não há mais espaço para se aposentar com 45, 50 anos de idade; e o empregador precisa se atentar que ter profissionais mais experientes em suas equipes pode trazer grandes benefícios.

Na Suécia, na Finlândia e na Noruega, você vê um monte de “cabeça branca” trabalhando. Isso é normal nesses países. E o cabeça branca faz a diferença. Mas você tem de se qualificar, entendeu?

Buscar qualificação é fazer faculdade?
Temos de aprender também que nem todo mundo tem de fazer curso superior. Isso é besteira. Há cursos técnicos com muita demanda no mercado.

Tenho amigos que são técnicos na Finlândia e recebem quase o mesmo salário de um engenheiro. Às vezes, você não tem qualificação de mercado para engenheiro, mas tem para técnico.

Fora do Brasil, isso é muito comum. Aqui, criou-se essa cultura de tudo se resumir a cursos superiores. As escolas técnicas, por exemplo, se tornaram institutos e hoje oferecem mais cursos superiores do que técnicos.

Há espaço no mercado?
A inteligência artificial e a robótica estão dominando o mercado. Eu, por exemplo, fiz um contrato de aluguel com um colega em 15 minutos, tudo no celular. Isso era algo que se levava dois, três dias antigamente.

Quantos empregos foram tirados nesse processo, por exemplo? As coisas estão muito mais fáceis. A gente precisa focar muito em tecnologia, precisamos estudar cada vez mais, buscar qualificação.

Daqui a algum tempo, a gente não vai nem mais em médico, a consulta já será feita em casa. Isso já está acontecendo no Canadá. Os robôs advogados já têm maior índice de acerto que os advogados humanos.

Muitas profissões vão acabar, mas novas vão surgir. Fora as das áreas de tecnologia, as profissões envolvendo as relações humanas se manterão fortes. As pessoas vão precisar de profissionais para tomar conta de idosos, por exemplo.

Quais as principais competências que vão se destacar nesse novo mercado de trabalho?
Tirando, obviamente, toda a área de informática, incluindo inteligência artificial e robótica, as relações humanas sempre terão espaço no mercado. Você sempre vai precisar das relações humanas, de psicólogo, enfermeiro, cuidador de idosos…

Mas vai faltar emprego, não terá espaço para todos. A tendência é o homem viver cada vez mais. E as pessoas precisam ser sustentadas por um fundo soberano, por exemplo. Na Noruega tem.

É um fundo alimentado pelas receitas de exploração de petróleo, que é guardado para as gerações futuras. A Finlândia está tentando fazer a mesma coisa.

Nossos filhos e netos precisam ter, de herança, um fundo soberano como esse.

Dentro dessas competências, os profissionais de mais idade conseguem se encaixar?
Acho que eles têm mais competência e paciência em certas profissões do que os mais jovens.

Claro, desde que eles continuem se qualificando. Eles têm bastante competência, experiência, é preciso aliar isso à atualização.

Não é duro ter de continuar trabalhando?
Quem tem 60 anos hoje é uma criança. Está muito novo ainda. Tenho 66 anos de idade e sou uma criança, me acho uma criança. Eu trabalho enquanto precisar. Não tem outro caminho.

Quando era criança, o pai dos meus amigos tinham 40 anos e eram velhos. Hoje, quem tem 40 é um garotão. E outra coisa: não tem outro caminho.

Meus filhos, por exemplo, são profissionais liberais e trabalham 12 horas por dia. Tem de ter um plano do que será você no futuro ou trabalhar para sempre.

Pior de tudo não é trabalhar para morrer, mas é ter cada vez menos oportunidades. O que você precisa fazer? Se requalificar diariamente. E não importa a idade. A qualificação é eterna.

É preciso estabelecer uma renda mínima para a população que não trabalhar?
Exatamente. Não estou falando de Bolsa Família ou algo do tipo. Estou falando de uma renda de
R$ 2 mil, R$ 3 mil por família. Está na cara que vamos precisar disso.

O mercado de trabalho, cada vez mais tecnológico, não vai suportar bilhões de trabalhadores no mundo. Então temos de ter um projeto de subsistência de todos.

Já há muitos cursos superiores aí que não servem mais para nada.

O engenheiro de produção, por exemplo, ganhava um dinheiro legal antigamente. Hoje, um engenheiro recém-formado, para trabalhar oito horas por dia, está sendo contratado como especialista, não como engenheiro, para receber um salário de R$ 3 mil. Esse cara não vai casar, não vai ter casa, não vai ter carro, isso se ele também não tiver trabalho.

O brasileiro desempregado é “acomodado”?
É uma visão que parece meio “apocalíptica”, mas é a verdade. Você acredita que todos esses 13 milhões, 14 milhões de desempregados no País voltarão a trabalhar? Jamais! Quanto tempo alguns deles estão desempregados?

Isso também é falta de qualificação no Brasil. Na Escandinávia, quando o trabalhador está desempregado, ele busca mais qualificação para voltar melhor ao mercado. Os desempregados aqui no País fazem isso? Você vê isso aqui no Brasil? Não é nossa cultura.

Precisamos qualificar as pessoas. Se a profissão está escassa ou acabou, tem de mudar de profissão, mudar de área.

Antigamente, as pessoas investiam em telefonia fixa, porque além do telefone, tinha umas ações. Teve gente que ganhou muito dinheiro com isso. De uma hora para outra, isso acabou. As ações não valiam mais nada.

O mercado, os investimentos, mudam muito rápido. É preciso acompanhá-los na mesma velocidade.

O que acha da reforma da Previdência?
A reforma precisa ser feita. Ou faz a reforma, ou não conseguiremos mais pagar ninguém. O País está quebrado, não tem outro caminho se não esse.

Vejo com muita preocupação não a reforma da Previdência, mas sim o mercado de trabalho. De cada dia ter menos vagas disponíveis. As pessoas não percebem que estamos em um mundo diferente. As coisas mudam muito rápido.

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