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Desde que começou uma disputa com a mineradora Vale para ser reconhecido e remunerado pela invenção de um equipamento na década de 1980, o mecânico industrial José Carlos Olindino, de 67 anos, pede todos os dias, em suas orações, para que consiga ver a vitória de sua busca.
Ele disse ainda que está disposto a conversar com a empresa sobre a possibilidade de um acordo.
“A Vale nunca me procurou para conversar. Se me procurasse hoje para tentar um acordo, eu conversaria com eles na hora. É tudo o que eu espero. Isso não é uma briga. O que eu quero é o reconhecimento de um invento que está funcionando. Eu quero ser reconhecido como inventor e receber por isso”, disse ele.
Olindino prestou serviços para a mineradora de 1977 a 1991.
Durante o período, ele criou uma comporta que fez diminuir o tempo de passagem de minério de ferro para o forno de pelotização na troca de carros grelha.
Ele afirmou que, com isso, o tempo de operação na empresa foi reduzido. Ele saiu da empresa e quando voltou, anos depois, descobriu que o seu invento estava sendo utilizado em todas as usinas.
Hoje, Olindino luta na Justiça para ver o seu dinheiro reconhecido. A perícia judicial do processo que está movendo apontou que a criação já teria dado cerca de R$ 26 bilhões em lucros para a empresa.
“Só fui saber que esse invento estava funcionando 12 anos depois, quando fui contratado para prestar serviços. Para quem é inventor, é uma alegria. Não tem como ficar decepcionado porque meu invento estava funcionando. Mas fiquei surpreso porque ninguém me pediu autorização, ninguém me falou nada. Não esperavam que eu fosse voltar.”
Olindino disse ainda que tem fé que vai ver sua vitória, mesmo que ela demore alguns anos.
“Não penso nessa possibilidade de não acontecer. Isso não existe no meu dicionário. Eu tenho fé em Deus, os meus joelhos estão esfolados de oração. Eu creio que Deus não permitirá que eu não veja essa vitória”, salientou o mecânico.
Vale
A Vale informou que trata-se de uma ação cautelar de provas que tem por objeto exclusivamente a elaboração de laudo pericial, ainda em fase de recurso e sem decisão definitiva. Esclareceu que não há mérito nas alegações feitas pelo autor e que se manifestará sobre o tema em juízo.
Ideia é investir para criar novos equipamentos
Caso ganhe o processo na Justiça e receba a indenização referente aos direitos de sua invenção, o mecânico industrial José Carlos Olindino não pensa em parar de trabalhar. Muito pelo contrário. Ele quer empreender e continuar criando equipamentos e formas de ajudar o setor industrial.
Ele ressaltou que tem o pé no chão quando o assunto é dinheiro. “Ainda vou voltar a ser empreendedor. Eu já tive uma empresa antes e quero voltar a ter. Esse valor que está no processo, é surreal pensar nele. Mas eu tenho sonhos, pois enquanto o homem tiver sonhos, ele não envelhece”.
O mecânico revelou que já tem alguns projetos traçados, e que quer investir neles para poder oferecer à empresas. “Tenho umas ideias boas para o porto, projetos de melhorias. Não vou parar por aqui. Não vou ficar sem saber para onde ir. Eu quero continuar criando”.
Ele lembrou ainda das dificuldades que enfrentou para criar o equipamento na usina.
“A usina foi inaugurada em 1970. De lá até 1982 porque nenhum engenheiro inventou? Foram três anos de dedicação. Quando eu fiz, não existiam as ferramentas de hoje. Antes era prancheta, tabela de ângulos, compasso e calculadora. Nisso está o meu reconhecimento. É fazer um invento criado quando não existia tecnologia, funcionar em 2022. Esse é o merecimento.”
ENTENDA
Tempo de operação menor
- O técnico mecânico industrial José Carlos Olindino prestou serviços para a mineradora Vale de 1977 a 1991.
- Durante o período, Olindino criou uma comporta que fez diminuir o tempo de passagem de minério de ferro para o forno de pelotização na troca de carros grelha (invento chamado “acionamento pneumático de travamento de giro da comporta de troca de carros grelha”).
- Antes disso, a troca era feita manualmente, com a necessidade de quatro funcionários e em até 16 minutos. Após a criação de Olindino, o tempo do trabalho diminuiu para três minutos, com a necessidade de apenas dois funcionários.
- Com isso, o tempo de operação nas usinas da empresa foi reduzido.
- O sistema foi registrado no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) em 1991, e o nome de Olindino consta como inventor.
- Neste mesmo ano, Olindino decidiu deixar a empresa. Ele afirmou que ainda tentou negociar um valor pela invenção, mas que nunca chegou a receber nada.
- Depois de alguns anos, Olindino voltou a trabalhar na Vale e descobriu que a sua invenção estava sendo usada em todas as usinas da mineradora.
- Foi então que ele decidiu ingressar na Justiça reivindicando 50% dos lucros que a empresa obteve com o equipamento.
Processo
- Atualmente, o que está tramitando na Justiça não é a ação que julgará o mérito da causa, e sim uma ação de Produção Antecipada de Provas.
- Ela está em fase de recursos no Tribunal de Justiça do Estado (TJ-ES) e tramita há 15 anos.
- A perícia judicial da ação apontou que o valor chega a R$ 26 bilhões.
- No dia 14 de março, a desembargadora Marianne Judice de Mattos decidiu pela necessidade de uma nova perícia. Já o desembargador Arthur Neiva votou para que a perícia seja mantida.
- Agora, o voto do desembargador Manoel Alves Rabelo vai decidir a manutenção ou não da perícia.