Os cerca de 110 mil consumidores de gás encanado no Estado terão que encaixar no orçamento um aumento de até 40% no preço do insumo, já a partir do mês que vem. Pelo menos até o momento, essa é a realidade, já que a Petrobras alterou a forma de calcular o preço da molécula de gás, justificando o reajuste.
No Espírito Santo, são 68.721 clientes da ES Gás que recebem o gás encanado, entre clientes residenciais, indústrias, comerciantes e postos de combustíveis que vendem o gás natural veicular (GNV).
E de acordo com o Departamento de Trânsito do Estado (Detran-ES), 41.816 veículos estão registrados para utilização de GNV como combustível. Todos serão diretamente afetados pelo aumento anunciado pela Petrobras.
O contrato entre a ES Gás e a Petrobras vence no próximo dia 31. A petroleira chegou a dizer que os novos contratos com as distribuidoras teriam aumento de quatro vezes no valor do insumo, mas, após negociações, ofereceu reajuste de 50%. Esse é o aumento para as distribuidoras. Para o consumidor final, o reajuste seria entre 35% e 40% na prática.
Como a Petrobras ainda controla os gasodutos, ela é a única opção de empresa fornecedora de gás para o Estado. Outras empresas, por questões logísticas, só poderiam enviar o gás em meados de 2022.
A Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegás) confirmou esta semana que as negociações com a Petrobras estão encerradas, e que a partir de janeiro o reajuste entra em vigor.
A Abegás afirmou que, sem opções, as distribuidoras “serão obrigadas a firmar contratos nessas bases, impedindo que os consumidores tenham seu abastecimento prejudicado”.
Para especialistas, o consumidor não tem para onde correr, já que o gás de botijão também está cada vez mais caro.
“O botijão também está caro. O aumento do gás, encanado ou não, tem um impacto grande no bolso do consumidor. Todo mundo precisa dele para sobreviver”, disse o economista Mário Vasconcelos.
No caso do Gás Natural Veicular, apesar do aumento, a expectativa é que ele continue vantajoso. “Hoje, a economia do GNV é de 60% em relação à gasolina. Com o reajuste, a vantagem ainda será de 40%”, estimou Deoclides Oliveira, dono de posto de combustível.
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Quer trabalhar de motorista em ônibus
O motorista Matheus da Silva Santos, de 25 anos, pretende abandonar os aplicativos se o preço do gás aumentar mais.
“Não está mais valendo a pena rodar com o carro. Os combustíveis estão ficando mais caros, e os aplicativos não estão aumentando o repasse para o motorista. As corridas com valor mínimo estão com preço muito baixo para a distância percorrida, o que também acaba prejudicando o passageiro, que não consegue encontrar carro”, apontou.
No ano que vem, se o aumento de 40% no GNV se concretizar, Matheus planeja tirar uma nova habilitação.
“A ideia é tirar a carteira na categoria D e me tornar motorista de ônibus”, completou.
Esperança de reverter aumento
A Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegás) já entrou com uma representação no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), órgão do governo federal responsável por fiscalizar a concorrência de mercado, por considerar “abuso de poder econômico” da Petrobras.
A ES Gás também entrou com uma representação, medida que está sendo replicada pela Procuradoria-Geral do Estado.
O objetivo é fazer com que a Petrobras use a atual forma de calcular o valor da molécula do gás, mantendo os valores contratuais que estão em vigor, até que haja uma livre concorrência com outras empresas, ou seja, até que elas também sejam capazes de enviar o gás para cá pelos gasodutos. Esses canais de distribuição também são monopolizados pela petroleira.
Se não tiver resultados, a PGE planeja entrar com uma ação judicial contra a Petrobras para garantir que esse aumento abusivo não aconteça.
A Federação das Indústrias do Estado (Findes) declarou que apoia as medidas da ES Gás e do governo do Estado.
“O aumento dos custos pode colocar em xeque a retomada do crescimento econômico, a atração de empresas para o Estado, a expansão de plantas industriais, a geração de empregos e o estímulo à utilização de uma fonte de energia que reduz a emissão de gás carbônico na atmosfera e oferece menos impacto ambiental”, alertou a Federação em nota.
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Mais tempo trabalhando
Roberto Augusto dos Santos, de 42 anos, é motorista de aplicativo e está preocupado com novos reajustes no preço do GNV.
“Estou há três anos com o kit gás, e ajudava bastante. Rodo o dia inteiro, abasteço no gás mais de uma vez por semana, e ainda vale a pena, apesar dos aumentos que já tivemos este ano. Mas a inflação está aí, o custo de vida é cada vez mais caro. Se o combustível aumentar ainda mais, vou precisar passar mais tempo trabalhando.”
Previsão de fechamento de oficinas e demissões
Oficinas e convertedoras responsáveis pela instalação e manutenção do kit gás nos veículos preveem prejuízos com o reajuste de 40% no preço do combustível para o consumidor.
“O motorista faz a conta para ver se vale a pena esse gasto de em média R$ 3.800 para instalar o kit. Se não estiver compensando, ele dificilmente vai fazer a instalação, vai preferir rodar com o combustível comum”, afirmou Diego Receputi, presidente do Sindicato da Indústria de Reparação de Veículos e Acessórios do Estado (Sindirepa).
Ele disse que existe o risco de redução de veículos nas oficinas.
“Se as pessoas rodarem menos no gás, serão menos manutenções, menos defeitos. Com os repetidos aumentos no preço da gasolina, este ano e no ano passado, muitas pessoas converteram o carro, e algumas oficinas até ampliaram suas atividades. Agora, pode ser que algumas fechem ou façam demissões”, acrescentou.
Alimentos também vão ficar mais caros
Se o preço do gás natural subir, os alimentos também tendem a ficar mais caros.
“Diversos alimentos que têm o gás no processo produtivo terão repasse integral ou parcial. Além disso, como o Brasil voltou a exportar carne para a China, o mercado interno pode ficar desabastecido, resultando no aumento de preço”, lembrou o economista Ricardo Paixão.
Para os donos de restaurante, o preço da refeição também vai aumentar, por causa do reajuste no gás, segundo o economista Mário Vasconcelos.
“Qualquer aumento tem impacto ruim para a economia e pesa na inflação. O preço do frango também deve subir com as festas de fim de ano.”