Empresários do Estado estão investindo na plantação de árvores, em busca de lucro, associado à sustentabilidade. Eles veem diversas formas de ganhar dinheiro com a floresta viva e, em alguns casos, também com a extração da madeira, quando a árvore chega à condição ideal de corte.
Entre as possibilidades estão: crédito de carbono, restauração da floresta nativa para a valorização de áreas degradadas para ganhos com atividades de turísticas, além de extração de produtos florestais não madeireiros, por exemplo.
O engenheiro de produção Edson Eduardo Cruz Del’Esposti, de 56 anos, e o administrador José Eduardo Cruz Del’Esposti, de 59 anos, são irmãos e juntos investem em áreas degradadas para recuperar e plantar, principalmente, mogno africano.
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Eles são donos da fazenda Tabatinga, no distrito Ponte do Itabapoana, em Mimoso do Sul. A ideia inicial dos irmãos era plantar, cultivar e, no futuro, a partir dos 15 anos, cortar a floresta.
“Hoje essa não parece a melhor alternativa de retorno econômico. Devido à interação com a Academia passamos a enxergar outras possibilidades, como crédito de carbono, vender a madeira em contrato futuro, usá-la como fonte de energia”, explicou José Eduardo.
Além disso, no futuro, poderão vender a madeira certificada, cultivada em mais de 70 hectares, com práticas sustentáveis.
Eles têm parceria com a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). “Poder ter uma atividade econômica aliada à geração de conhecimento é ter a oportunidade de deixar um legado. Produzir informação para que aqueles que no sucederem possam aproveitar”.
O mogno africano tem grande atratividade no mercado, sobretudo o internacional, conforme o engenheiro industrial madeireiro e pesquisador do Desenvolvimento Científico Regional Fapes/CNPQ no Programa do Desenvolvimento da Cultura e qualidade da Madeira do Mogno Africano no Estado, João Gabriel Missia da Silva.
“É uma madeira bonita, de cor que chama a atenção do mercado para fabricação de móveis de alto padrão, muito usada também na arquitetura de interiores, peças de design e instrumentos musicais”.
Em termos financeiros, pode valer mais de R$ 4 mil o m da madeira serrada e seca. “A soma de características a torna cara. A densidade é mediana, o que dá resistência para usar o mogno sem quebra; a durabilidade natural é boa e permite que o cupim não danifique”.
Hospedagem
O engenheiro florestal Renato Moraes de Jesus, de 70 anos, comprou uma propriedade de 18 hectares em Domingos Martins, há mais de 20 anos. A área era totalmente degradada.
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Dedicando-se a plantar árvores, ele a reflorestou . Hoje, 92% dela são de floresta, 4% bosque e 4% infraestrutura hoteleira. Para o reflorestamento foram usadas 180 espécies diferentes.
“O meu objetivo é ganhar dinheiro com a floresta em pé. Quando os hóspedes chegam aqui e olham as fotos de como era antes, não acreditam que é o mesmo lugar”, contou.
Valorização econômica e produção de conhecimento
Em 2011 começaram a ser desenvolvidas pesquisas sobre a qualidade da madeira de mogno africano na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), campus de Alegre. Elas são feitas por membros do Núcleo de Pesquisa em Qualidade da Madeira (NUQMAD).
A professora Graziela Baptista Vidaurre do Departamento de Ciências Florestais e da Madeira da Ufes é uma das envolvidas. Ela explicou que o mogno africano é uma madeira nobre e que a parceria com produtores como os da fazenda Tabatinga, em Mimoso do Sul, é benéfica para ambas as partes.
O time da Academia, que envolve professores, estudantes e pesquisador tem como objetivo fazer a análise da qualidade da madeira. Por meio dela eles vão avaliar densidade, estabilidade dimensional, propriedades mecânicas, cor e produção de cerne, por exemplo.
“Os produtores vão conhecer a fundo o material que eles têm. É um diferencial do mercado. Quem compra a madeira precisa saber as propriedades. Muita gente não sabe e vende o material com preço mais baixo do que ele vale”.
Ela detalhou que, se por um lado a informação valoriza a madeira, por outro, a experiência contribui para formação de estudantes que vão a campo, possibilita a pesquisa e geração de informações, que divulgadas ajudam a outros produtores.
Saiba mais
Florestas plantadas
- No Brasil não existe uma cultura de valorização da floresta plantada. É um segmento para o qual muitos empresários ainda não se atentaram. Contudo, há uma demanda mundial crescente pelos serviços florestais e bens originários de plantações. As florestas plantadas substituem os produtos das naturais, contribuindo para sua preservação. Além disso, oferecem serviços ecológicos como proteção do solo e água, estocagem de carbono.
Como obter recursos com floresta plantada
Crédito de carbono
- As árvores, ao longo do próprio crescimento, “sequestram” carbono livre presente na atmosfera, prejudicial ao meio ambiente, e estocam na madeira. Hoje já existem empresas que mensuram e compram esse carbono.
- Se um empresário europeu, por exemplo, quiser aumentar a sua produção industrial, ele vai despejar mais carbono na atmosfera. Se no Brasil alguém tiver floresta plantada, pode retirar a mesma quantidade de carbono lançada, gerando o crédito de carbono para esse empresário. Dessa forma, o empresário consegue provar que está tirando de um lado e colocando de outro. O europeu vai pagar por esse crédito.
- A tendência é de que todos os estados tenham um plano de descarbonização. Existe um projeto de lei para regulamentar esse mercado.
- O Rio de Janeiro terá uma bolsa de valores especializada no assunto “compra e venda de créditos de carbono”.
Produtos florestais não madeireiros
- Outra forma de investir é apostar em plantações para fazer dinheiro com os produtos florestais não madeireiros. Do pinus, é possível obter a goma resina; da seringueira, a borracha natural; das palmáceas, frutos e palmito, por exemplo.
Energia
- Por meio do plantio de florestas é possível usar a biomassa florestal (daquilo que sobra) como fonte de energia renovável. Composta por casca, ramos ou até mesmo a casca de frutos como cacau, essa biomassa também pode incluir outros componentes.
- Entre eles, está a matéria orgânica de espécies invasoras, após controle de árvores e arbustos prejudiciais à floresta. Somam se a isso, as árvores atacadas por pragas e doenças que não podem ser aproveitadas de outras formas, entre outras possibilidades.
- A utilização dessa biomassa é um recurso relevante para aumentar a produção de energia de fontes renováveis. Também ajuda na redução das emissões de gases com efeito estufa.
- Além de tudo isso, a remoção da biomassa residual da floresta plantada contribui para reduzir o risco de incêndio. Mas é indispensável manter no solo a biomassa essencial para garantir o equilíbrio do ecossistema.
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Dica de milhões
Com uma leitura de mundo de quem tem experiência, o engenheiro e ex-presidente da Vale, Eliezer Batista, destacou em entrevista ao jornal A Tribuna de 2009 que, se fosse recomeçar como empresário, investiria em florestas.
“Plante florestas. O melhor negócio do mundo hoje é a economia florestal”, destacou.
Eliezer morreu em 2018. Ao longo de sua trajetória também foi ministro de Minas e Energia e secretário de assuntos estratégicos do governo Fernando Collor de Mello, em (1990-1992).
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Produção mais barata de alimentos
Combinar agricultura, pecuária e floresta no mesmo espaço traz vantagens tanto para os produtores, quanto para os consumidores. Se por um lado os produtores conseguem aumentar a produtividade e reduzir custos, para os consumidores os produtos chegam com menos pesticidas.
A mistura é chamada de Sistemas Agroflorestais. Mas é importante saber que não é qualquer árvore ou qualquer animal que podem ser colocados juntos. Para dar certo, é preciso ter espécies adequadas para que não tenha competição por nutrientes, água e luz, além do manejo correto.
O objetivo é a produção de bens atrativos economicamente como madeira e que realizem serviços ambientais como estocagem de carbono e proteção do solo e água.
O engenheiro florestal e doutor em Recursos Florestais Tiago Godinho explicou as vantagens de um sistema agroflorestal bem planejado e manejado.
“Além de diversificar a produção e a renda em uma mesma área, irá aumentar a produtividade das culturas, reduzir dos custos de produção, melhorar a qualidade de vida e garantir a sustentabilidade ambiental do sistema”.
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O doutor em Recursos Naturais acrescentou ainda que “esses sistemas garantem a sustentação da fertilidade do solo, ao impedir a ação dos agentes erosivos, manter a atividade microbiana e a decomposição da matéria orgânica”.
Entre as consequências está a conservação da umidade, a redução da compactação e o aumento da disponibilidade de nutrientes para as culturas. Consequentemente , tem-se o aumento da produtividade.
“Por ser um sistema mais equilibrado ecologicamente, quando comparado às monoculturas, reduz o custo com defensivos, como com inseticidas e herbicidas.”
No Norte do Estado, é feito o cultivo do café consorciado com fruteiras como mamoeiro e coqueiro, com espécies florestais como cedro australiano e teca e com seringueira. “O investimento em árvores tem vários benefícios que não são facilmente valorados”, conforme o professor do Departamento de Ciências Florestais e da Madeira da Ufes Gilson Fernandes da Silva.
“Há pessoas dispostas a pagar para você manter uma floresta em pé. Ela evita o aparecimento de pragas, mantem o equilíbrio ecológico”, frisou o professor.
Oportunidades pouco exploradas
No Estado existe uma série de oportunidades para quem deseja investir em árvores . O professor do Departamento de Ciências Florestais e da Madeira da Ufes de Jerônimo Monteiro Gilson Fernandes da Silva apontou algumas delas.
Ele destacou há cadeia para produção de madeiras de alta densidade para escorar carga de navio, cadeia para caixotaria que pode ser feita com Paricá, entre tantas outras oportunidades.
“O Pau-Brasil é muito apreciado para produção de arco de violino. Produz uma madeira muito interessante”, acrescentou.
Para investimento em florestas plantadas dar certo é preciso saber conduzi-la e encarar o negócio. “É preciso identificar as cadeias que têm mais espaço para gerar renda e fomentar o produtor para investir. A floresta produz coisas incríveis: resina, palmáceas, frutíferas”.
O produtor, segundo ele, deve estudar a cadeia produtiva, avaliar: quais são as características do produto? Tem gente que compra? Para quem vou vender? Identificar o mercado. Só depois de estar bem embasado é que ele deve partir para a produção.
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Saiba mais
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Madeira
- Além de utilizar os recursos da floresta plantada viva, na hora que chegar o momento ideal, o produtor também poderá cortar a madeira para vender o recurso cultivado com práticas sustentáveis. Entre as utilidades possíveis está a produção de móveis.
Integração da floresta com a pecuária
- A integração da floresta com a pecuária é uma prática relativamente nova e que está sendo realizada no Estado. Os produtores já observam que os animais criados dessa forma são muito mais dóceis.
Sistemas agroflorestais
- É um sistema sustentado de manejo combinando floresta, cultura agrícola e criação de animais simultaneamente ou sequencialmente no mesmo espaço. O sistema agroflorestal é completo por produzir em um único espaço, carne (resultado da pecuária, por exemplo), hortaliças, ervas medicinais, frutos, vegetais, leguminosas, madeiras, óleos, etc.
- Classificação: Silviagrícolas: cultivo árvores e culturas agrícolas. Silvipastoris: cultivo árvores e animais. Agrosilvipastoris: cultivo de árvores, culturas agrícolas e animais.
- Ele traz inúmeras vantagens para a propriedade e para o produtor. Em termos econômicos, aumenta a produtividade reduzindo custos.
- Já ao consumidor proporciona produtos com menos pesticidas, entre outras vantagens.
Turismo
- Outro investimento que vem sendo feito no estado é a aposta na recuperação de áreas degradadas para investimento em turismo. Com a floresta restaurada para atrair turistas para pousadas, entre outros empreendimentos.
Recuperação de áreas degradadas
- As áreas degradadas normalmente são vendidas por preços menores. Produtores com visão de longo prazo têm apostado na compra desse tipo de imóvel para poder plantar árvores e obter retorno de diversas formas.
Produção de conhecimento
- Em 2011 teve início o desenvolvimento das pesquisas com a qualidade da madeira de mogno africano na Ufes/Alegre pelos membros do Núcleo de Pesquisa em Qualidade da Madeira (NUQMAD).
- Desde então foram feitas expedições a campo para a coleta de amostras de madeira. As avaliações realizadas são publicadas em periódicos e livros e estão acessíveis aos produtores e interessados.
- Os produtores que fazem parceria com a universidade contribuem para produção de conhecimento, formação de profissionais, desenvolvimento da ciência, entre outros. Por outro lado, passam a ter mais conhecimento em relação ao material que possuem, o que valoriza o produto.
Iniciativas no Estado
- Há um programa de fomento de empresas consumidoras de madeira (Suzano e Placas do Brasil) com regras próprias.
- Os bancos oferecem financiamentos direcionados para florestas plantadas com juros e prazos atrativos.
- O Incaper atua na Política de Incentivo à Cadeia Produtiva de Base Florestal do Espírito Santo, por meio do Mais Floresta Produtiva. O propósito é construir uma nova política da cadeia produtiva de base florestal, de forma sustentável. Dentro dessa política, há programas para o fortalecimento do setor.
- Somam-se a isso iniciativas ações de extensão e pesquisa, distribuição de mudas, projetos com outros parceiros de pesquisa como o “Floresta Piloto”.
Regras
- Os plantios de espécies florestais em área superior a 100 hectares devem ser licenciados pelo Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Espírito Santo (Idaf). Esse licenciamento é pré-requisito para exploração da madeira. Na colheita, é preciso fazer a informação de corte ao Instituto. O documento é obrigatório para a exploração da madeira.
- Para o cultivo de espécies exóticas abaixo de 100 hectares, não é necessário o licenciamento do plantio. Mas a Informação de Corte continua necessária. Para exploração de madeira de espécies nativas, é preciso comprovar que elas foram plantadas.
Fonte: Seag, Incaper, Idaf e fontes citadas na reportagem.
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Análise | Rander Loss Marinot, engenheiro florestal e especialista em Engenharia Ambiental
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“No Estado, 97% de toda a floresta plantada é composta por eucalipto, voltada para produção de papel e celulose. O restante são árvores, como pinheiro (extração de resina), seringueira (extração de látex para a produção de borracha) e espécies de palmeiras, destinadas à extração de palmito e açaí.
Hoje temos grande demanda por produtos e subprodutos de origem florestal, tornando-os mais valorizados. As florestas plantadas diminuem a pressão na extração de florestas nativas, evitando o desmatamento ilegal, contribuem com a regulação do ciclo da água e ainda protegem o solo, reduzindo a erosão.
Mas, essa floresta, nos anos iniciais, demanda um custo na manutenção e um monitoramento maiores, pois podem perder até 100% do plantio com formigas cortadeiras ou até mesmo com incêndios. Vale lembrar que esse investimento é de longo prazo.
A depender da espécie, os primeiros retornos chegam após 7 anos ou até 40 anos, com a exploração do produto final. Mas há formas de amortizar os gastos. Ao longo do plantio, é possível cortar algumas árvores para ir quitando o investimento.”