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Mulheres assumem cargos de liderança e ampliam presença no cooperativismo capixaba

Renata Eller, presidente da Cooptac, e outras cooperativistas mostram como persistência e participação têm ampliado a presença feminina no setor

Mulheres assumem cargos de liderança e ampliam presença no cooperativismo capixaba
- Renata Eller é presidente da Cooperativa de Transporte da Região Sudoeste Serrana - Cooptac
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Atilio Esperandio

Jornalista formado pela FAESA é apaixonado por esportes e especialista em esportes capixaba. Atualmente é repórter multimídia no portal Tribuna Online onde cobre o Brasil e o mundo, além de apresentar o podcast Apita Aí na TV Tribuna Band, sempre falando do melhor do esporte!

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Acreditar no próprio potencial e ter perseverança são as chaves para que mulheres conquistem o seu lugar no setor cooperativista capixaba. A afirmação é de Renata Eller Lima Dela Costa, que, aos 45 anos, é presidente da Cooperativa de Transporte da Região Sudoeste Serrana (Cooptac) e conselheira fiscal da Organização das Cooperativas Brasileiras do Estado do Espírito Santo (OCB/ES).

A história de Renata com o ramo do transporte começou quando ela tinha 8 anos. Na época, a mãe e o irmão dela trabalhavam com transportes escolares públicos. Contudo, eles encontravam muitas dificuldades diante dos baixos repasses de empresas contratadas e da falta de regulamentação.

Por isso, motivados a trabalhar com mais liberdade e segurança financeira, a família e outros 45 trabalhadores fundaram a Cooptac, em Afonso Cláudio, na região Serrana do Espírito Santo.

Renata Eller é presidente da Cooperativa de Transporte da Região Sudoeste Serrana - Cooptac
Renata Eller é presidente da Cooperativa de Transporte da Região Sudoeste Serrana – Cooptac Foto: Acervo Pessoal

Mesmo já trabalhando com transporte escolar, Renata disse que ainda não tinha certeza se realmente queria seguir no ramo, uma vez que o trabalho envolvia muitas dificuldades. No entanto, em 2006, após a mãe sofrer um acidente e o irmão ficar doente, ela precisou tomar uma decisão: assumir seu lugar na cooperativa.

“Mamãe sempre foi liderança também. E aí, na época, tinham duas pessoas lá que ela sempre ajudou nos estudos, até mesmo a fazer faculdade. E quando ela caiu, foi uma dessas pessoas que quis ‘puxar o tapete’ dela. Eu estava em Vitória, com ela no hospital, e tinha uma reunião a respeito deles quererem tirar o transporte da minha família. Aí eu vim, participei da reunião, me posicionei e falei que não era assim que as coisas funcionavam, e que, a partir daquele momento, eles iriam tratar comigo”.

A partir daí, a cooperativista adquiriu um novo veículo para realizar os transportes da família, se especializou por meio de cursos ofertados pela OCB/ES e, em 2007, passou a ser conselheira fiscal da Organização. Sua trajetória foi ainda mais além, quando foi eleita diretora secretária da Cooptac e, logo em seguida, vice-presidente. Por fim, assumiu a presidência da cooperativa.

Apesar das conquistas, Renata afirma que, como mulher, precisou enfrentar diversos desafios para garantir seu espaço no ramo. Entre eles, a falta de confiança no seu trabalho.

“Ouvia muito: ‘ah, você não é capaz disso’, ‘você não sabe fazer isso’, ‘você não vai conseguir’, ‘isso aí não é pra você’. Sempre duvidando do potencial da gente. E isso foi um gás para mim. Foi quando eu mostrei toda a minha força e dedicação para sempre fazer o melhor. E mostrar que nós, mulheres, podemos estar em qualquer lugar, onde a gente quiser estar”.

Renata, que hoje trabalha com o marido e duas sobrinhas, lembra ainda que chegou a ter seu papel como mãe e esposa questionado. “Às vezes comentavam: ‘mulher tem filho, tem família, às vezes não vai poder ir lá resolver o negócio, tem que tomar conta do filho’. Foi quando eu peguei essa garra. ‘Não, eu sou capaz, sim. Sou capaz de fazer, de continuar’. Às vezes, eu penso que a mulher se limita um pouco, porque tem que fazer o papel de mulher, de gestora e tudo mais. Mas a gente consegue, porque a gente consegue fazer mil e uma coisas ao mesmo tempo”, enfatizou.

Para mulheres que ainda buscam o seu lugar nas cooperativas e crescer profissionalmente no ramo, Renata deixa sua jornada como fonte de inspiração e um conselho: “Acreditar no nosso potencial e ter muita persistência. Não é para se abalar no primeiro desafio. E seguir com muita garra”.

Uma história que veio muito antes

Renata Eller e a mãe, Josephina Luzia de Lima, uma das sócias-fundadoras da Cooptac
Renata Eller e a mãe, Josephina Luzia de Lima, uma das sócias-fundadoras da Cooptac Foto: Acervo Pessoal

Antes mesmo de a Cooptac ser fundada, já havia o desejo de ajudar pessoas, que partiu de Josephina Luzia de Lima, também conhecida como dona Pina, de 77 anos, mãe de Renata e uma das sócias-fundadoras da cooperativa. Aposentada após atuar por mais de 40 anos em sala de aula, ela lembra das dificuldades que os alunos enfrentavam para ir a pé até a escola de ensino básico, localizada no interior de Afonso Cláudio.

Diante da situação, a professora teve uma conversa com uma vereadora do município, que mudou sua história.

“Ela chegou para visitar a escola e falou comigo: ‘ah dona Pina, olha que sofrimento’! Os meninos chegavam molhadinhos de suor. Aí eu falei: ‘pra você ver como que essas pessoas sofrem para chegar até aqui’. Aí ela falou: ‘e se nós formássemos uma equipe, para a gente poder formar um transporte escolar na roça?’. Aí eu falei: ‘é uma boa ideia! Vamos começar’”.

Desse modo, o sistema de transporte escolar público da cidade foi criado e passou a atender estudantes do ensino fundamental e médio. Desde então, dona Pina administrava a parte da família no setor junto com o filho, Rogério Eller.

No entanto, a aposentada diz que, por ser mulher, também enfrentou alguns desafios, e garantiu que o segredo é gostar de si mesma e confiar. “A gente tem que ser o que a gente quer. E eu falo para os meus filhos: tem que gostar de você mesmo. Se você achar que vai dar certo, você primeiro crê em Deus, e Ele abre os caminhos para nós. Então a gente tem que ter certeza de que vai dar certo e que você vai chegar lá”, ressaltou.

O impacto da Cooptac em Afonso Cláudio

Trabalhando no setor há mais de 20 anos, a presidente da Cooptac afirma que o sistema cooperativista abre portas, oferecendo apoio e viabilizando recursos com custos menores para que os cooperados exerçam seu trabalho.

“A gente tem um guincho de várias coisas para o mercado, de peças mais baratas, combustível mais barato. Então, conseguimos ofertar uma grande cadeia de coisas que a gente precisa para atuar no transporte escolar. A cooperativa dá todo esse subsídio”.

Hoje com 188 cooperados, a Cooptac, que atua no setor de transporte escolar, de turismo e por fretamento, gera serviços que impactam o município e a população, por meio de campanhas solidárias que incentivam a doação de sangue, projetos ambientais e iniciativas de doações para hospitais e datas celebrativas, como o Natal.

“É muita coisa que a cooperativa impacta no nosso município. Por meio do nosso mercado, o dinheiro circula dentro da cidade. Então, cada real que os cooperados deixam no comércio vai se multiplicando cada vez mais”, enfatiza a presidente.

Agricultura medicinal em Santa Maria de Jetibá

Selene Hammer Tesch atua no ramo das plantas medicinais

"Conheça e saiba usar 15 plantas medicinais"

NA foto: A agricultora Selene Hammer Tesch

Foto: Douglas Schneider
Selene Hammer Tesch atua no ramo das plantas medicinais

"Conheça e saiba usar 15 plantas medicinais"

NA foto: A agricultora Selene Hammer Tesch

Foto: Douglas Schneider Foto: Arquivo/AT

A agricultora capixaba Selene Hammer Tesch, de 63 anos, é mais um exemplo de mulher que transformou a relação com a terra em história de vida. Pomerana e produtora rural há 36 anos, ela cultiva mais de 360 espécies de plantas medicinais, além de hortaliças, temperos e especiarias, em uma propriedade no alto de Santa Maria de Jetibá, na região Serrana do Espírito Santo. Tudo isso sem o uso de agrotóxicos.

O trabalho, que começou dentro de uma pequena propriedade rural, ganhou espaço em feiras, cooperativas e projetos voltados para a agricultura familiar. A trajetória também levou Selene ao reconhecimento internacional. Em 2017, ela foi nomeada embaixadora da Organização das Nações Unidas (ONU) para a região Sudeste na iniciativa “Mulher Rural, Mulheres com Direitos”.

A mudança na forma de produzir aconteceu ainda nos anos 1990. Na época, Selene atuava como orientadora do ensino confirmatório e do culto infantil na Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB). Ao trabalhar os ensinamentos dos Dez Mandamentos, passou a refletir sobre o respeito ao próximo e, principalmente, sobre o mandamento “não matarás”.

“Entendi que não posso lecionar e falar de algo que não faço, que agrada a Deus. Eu e meu esposo decidimos mudar a atitude de trabalho. A decisão foi plantar sem matar, comer sem morrer”.

A decisão de abandonar o uso de venenos não foi simples. Nos primeiros anos, Selene enfrentou perdas de lavouras e precisou buscar conhecimento para encontrar outras formas de produzir. Ao mesmo tempo, passou a atuar diretamente com a comunidade.

Ela trabalhou como agente comunitária de saúde e, durante as visitas às famílias, começou a perguntar o que os moradores faziam quando alguém ficava doente. A resposta chamou sua atenção: antes de procurar uma farmácia ou um hospital, muitas pessoas recorriam às plantas medicinais que tinham em casa.

Foi então que Selene começou a catalogar espécies, fazer cursos e buscar especializações. Aos poucos, a horta medicinal foi crescendo e se transformou em uma das principais atividades da propriedade. 

A produção também conta com uma pequena agroindústria voltada para a desidratação e o processamento artesanal. 

“Sou uma admiradora da natureza. Sempre que penso em uma atividade, procuro a natureza para orientar e direcionar um trabalho de melhorar sempre mais e atender à satisfação dos clientes”.

Produtos nas feiras

A produção ganhou as feiras de produtos orgânicos e, com o tempo, Selene encontrou outra forma de aproveitar aquilo que era produzido na propriedade.

Em 2002, ela começou a levar plantas fitoterápicas e temperos para uma feira de produtos orgânicos em Barro Vermelho, Vitória. A variedade de produtos chamava a atenção dos consumidores, mas parte da produção acabava sendo perdida.

Cinco anos depois, em 2007, Selene começou a desidratar os temperos. No ano seguinte, comprou uma máquina desenvolvida por um engenheiro do Incaper para realizar o processo.

Novos cursos e capacitações ajudaram a melhorar a produção, que passou a ser comercializada com a marca Hammer Tesch. A propriedade também se tornou uma das primeiras do Espírito Santo com certificação de produtos orgânicos.

Além da produção, Selene passou a atuar cada vez mais na organização dos agricultores. Desde 2005, está à frente da Associação Amparo Familiar. Em 2015, assumiu a presidência da Cooperativa dos Agricultores Familiares da Região Serrana do Espírito Santo (Caf Serrana), ligada à agricultura familiar e ao fornecimento de alimentos para a alimentação escolar.

Elas no Coop e a liderança feminina

Isabella Morais, coordenadora-geral e assessora de Cooperativismo e Sustentabilidade na Sicredi Essência RS/ES
Isabella Morais, coordenadora-geral e assessora de Cooperativismo e Sustentabilidade na Sicredi Essência RS/ES Foto: Acervo Pessoal

A presença das mulheres dentro das cooperativas é grande, mas chegar aos cargos de liderança ainda é um desafio. É nesse espaço que atua o Comitê Elas pelo Coop, criado em 2024 com o objetivo de incentivar a participação feminina nos espaços de decisão por meio de formação, troca de experiências e desenvolvimento profissional.

No Espírito Santo, o grupo reúne atualmente 23 mulheres de 15 cooperativas. À frente do comitê está Isabella Morais, coordenadora-geral e assessora de Cooperativismo e Sustentabilidade na Sicredi Essência RS/ES.

Segundo Isabella, a criação do grupo surgiu de uma discussão iniciada em 2018, durante um fórum de cooperativismo. Na época, representantes do setor identificaram a necessidade de aumentar a participação das mulheres, principalmente em cargos de liderança.

“O comitê começa justamente de uma demanda, lá em 2018, onde, num fórum de cooperativismo, entenderam que precisava-se fomentar a participação da mulher cooperativista, principalmente em cargos de liderança. Como juntar essas mulheres, como acessar essas mulheres? E aí a OCB começou, a partir daquele documento, a movimentar mulheres de diversas cooperativas a se unirem e se desenvolverem para que elas conseguissem alcançar esses lugares”.

A Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) teve papel importante na mobilização das cooperativistas e na estruturação das atividades. No Espírito Santo, os encontros contam com o apoio da OCB-ES.

As reuniões tratam de assuntos como liderança, inteligência emocional, educação financeira, planejamento, comunicação, oratória e prevenção ao assédio. A ideia é preparar as participantes para que elas possam ocupar espaços dentro das próprias cooperativas com mais segurança.

“É uma luta árdua. A gente fala muito do Comitê de Mulheres, o Elas pelo Coop, e as pessoas ainda acreditam que a gente vai para lá crochetar, falar de maquiagem, falar de filhos. Não que a gente não faça isso, porque isso é inerente de ser mulher, mas muito mais do que isso, a gente vai buscar conhecimento, transformação. A gente vai ali aprender um pouco mais sobre o que é liderar”.

Desenvolvimento

Para Isabella, os resultados começam a aparecer no comportamento das participantes. Ela cita casos de mulheres que passaram a falar em público, escrever artigos científicos e se posicionar com mais segurança depois das formações.

“Todas as nossas reuniões têm esse intuito de preparar, de desenvolver. A gente aprende até a conversar no comitê. Daqui a pouco a gente tem mulheres extremamente competentes, mas que têm vergonha de falar; daqui a pouco a gente tem mulheres que conseguem falar, mas não têm desenvoltura técnica. Então todas as nossas reuniões são feitas para potencializar esses talentos. É uma sementinha que a gente planta”.

A dificuldade para chegar aos cargos de liderança, segundo Isabella, também tem relação com fatores históricos e culturais. Ela lembra que o cooperativismo foi construído, durante muito tempo, com uma presença majoritariamente masculina. Alguns setores, como o agronegócio e o transporte, ainda possuem uma participação masculina bastante forte.

Nesse cenário, o trabalho do Elas pelo Coop busca mudar a percepção sobre o papel das mulheres dentro das cooperativas. Para Isabella, a proposta não é substituir os homens nos espaços de decisão, mas ampliar a participação feminina.

“A gente precisa quebrar esses tabus, mudar essa cultura, esse mindset de que mulher tem de estar atrás do fogão, que mulher não sabe dar opinião, que a mulher vai ser histérica e daqui a pouco ela vai atrapalhar uma reunião. Não. Ela pode contribuir”, afirma.

Ela resume a proposta do comitê como uma tentativa de ampliar os espaços de participação.

“Eu gosto de falar que o comitê trabalha da seguinte forma: nós não queremos ocupar a cadeira do homem, não é tirar o homem. É que a gente tem a oportunidade de colocar uma cadeira ali do lado e, juntos, trabalhar o que aquela coisa cooperativa se propõe a fazer”, completa.

O que dizem os dados





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