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VIDA NO NAVIO

Pilotos de embarcações revelam aventuras e perrengues no alto-mar

Tempestades com ondas acima de 16 metros, saudades da família e talento para se localizar pelas estrelas são histórias em comum

Ender conheceu a profissão por meio do pai de um amigo, quando tinha 20 anos: “Eu me identifiquei de imediato”

Última atualização

Longe da terra firme e da família, pilotos de embarcações enfrentam diversas aventuras em alto-mar. A bordo, eles aprendem a conviver com a própria companhia, a se localizar pelas estrelas    e a compartilhar momentos com uma tripulação culturalmente diversa.  

A profissão desafiadora tem grandes atrativos como os salários, chances de conhecer  vários países e faz parte do sonho de muitos. Por isso, a reportagem conversou com alguns capitães de embarcações para saber mais sobre as aventuras e perrengues em alto-mar.

Capitão, com experiência no comando de navio de perfuração de poços de petróleo, Ender Almeida, 49 anos,  foi apresentado à profissão por meio do pai de um amigo.  

“Conversei com ele aos 20 anos e, de imediato, me identifiquei com a profissão. Não queria ter fronteiras”, contou. 

Ao longo da carreira ele   passou por diversos perrengues. E lembrou  que, antigamente, os tripulantes podiam levar a família a bordo e que em uma dessas viagens passou por  uma situação muito ruim no Golfo da Biscaia (entre a costa Norte da Espanha e a costa Sudoeste da França). 

“Enfrentamos uma condição horrível de navegação. Era ceia. O navio estava cheio, com famílias, mulheres e crianças. Na ida foi maravilhoso. Mas, na volta, o mar virou”, disse ele, ao contar que o mar revolto forçava todo o casco do navio, de quase 300 metros,  podendo até parti-lo a qualquer momento.

 “O navio balançava muito. A ceia saiu voando, caiu tudo no chão. Foi horroroso de se ver, ainda mais para um pai de família. Nós estávamos mais preocupados com os civis. Foi bem tenso esse período”.  

 Já o capitão Fábio Gonçalves, 45,  contou que,  em 2002,  estava no navio  voltando dos Emirados Árabes. Ao chegar ao Cabo da Boa Esperança, na África do Sul, ele e a tripulação enfrentaram uma tempestade com ondas acima de 16 metros e vento de 120 km/h

 “A previsão de tempo  só informava que o dobro do previsto poderia ser notado, o que exigia atenção dos navegantes”. Para retornar com o navio, o risco de emborcar seria muito maior então, foram tomadas  medidas para ficar  à deriva.

“Após quase dois dias navegando nas ondas, como se fôssemos uma prancha de surfe de 280 metros e de 150 mil toneladas, conseguimos uma brecha entre as ondas para fazermos o giro e nos abrigarmos na Ilha de Madagascar até a condição do mar melhorar”.

 













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Pirataria e problemas com alimentos entre as dificuldades

O empresário Diógenes Gomes, 48 anos, trabalhou embarcado e revelou as experiências que teve com comandantes diferentes ao longo de sua carreira. Ele chegou ao posto de primeiro oficial de náutica, quando foi convidado para trabalhar gerenciando navios e depois acabou abrindo a própria empresa de treinamentos corporativos para área marítima.

Ele contou que conviveu com comandantes ímpares, desde um que resolveu economizar na compra de comida, pedindo para que não fossem comprados novos ingredientes, deixando a tripulação em uma situação delicada. 

“Faltando poucos dias para chegar ao destino, o cozinheiro teve que improvisar. Ele criou uma lasanha de dobradinha”. Lembrou também que a profissão deu a ele a oportunidade de conviver com profissionais muito qualificados. 

“Tinha um comandante que era um lorde. Falava de vinhos, estudava idiomas. Era um cara muito diferenciado”. Perto do nascer do Sol, esse comandante o chamava para uma competição: o objetivo era conferir,  com base nas estrelas, usando o sextante (instrumento de navegação),  a localização do navio e ocupar a mente. 

“É um trabalho apaixonante. Vi muita coisa bonita. Trabalhar embarcado te dá tempo para ter contato com você mesmo. O teu melhor ou teu pior vêm à tona. Tem que ver qual deles você vai alimentar”. 

Capitão com experiência no comando de navio de perfuração de poços de petróleo, Ender Almeida contou que, entre as situações mais marcantes que já enfrentou, está o período logo após os ataques terroristas de  11 de setembro de 2001, ocorridos nos EUA. Segundo ele, os profissionais que trabalhavam embarcados ficaram  em um estado de tensão. 

“Havia o medo de ataques terroristas ou, no nosso caso, o ataque de piratas. Já passei por situação de ter uma embarcação nos seguindo”, contou.   Ele pontuou que, apesar dos perrengues, a profissão tem vários pontos positivos.


Saiba mais


Profissão

Prós

  • Entre os pontos favoráveis da profissão estão o salário atrativo, além de diversos outros benefícios, a oportunidade de conhecer diversos países, o convívio com uma tripulação diversa. 
  •  A oportunidade de ficar só consigo próprio, de aprender a usufruir da própria companhia.
  • O desenvolvimento do respeito à natureza, no convívio com o mar.
  •  A valorização dos momentos em terra, com a família e também com os amigos. 

Contras

  • Ficar longe da família e dos amigos, por dias ou meses.
  • Enfrentar sentimentos de ausência, saudade, solidão.
  • Ter de usar a criatividade para manter a saúde mental, em viagens muito longas. 

Facilidades

  • Antigamente, trabalhar embarcado era mais difícil. Sem internet, a comunicação com a família ficava mais restrita. Hoje, com a possibilidade de acessar a internet, dependendo de onde esteja a embarcação, esse contato é extremamente facilitado, possibilitando ver o outro por chamada de vídeo, por exemplo.
  • Antes, ao atracar, era comum quem já estava embarcado pedir para os amigos que fossem embarcar para levar jornais, revistas, fitas VHS com jornais e novelas, por exemplo.

Capitão x Comandante 

  • O capitão de navio é um profissional preparado para comandar a embarcação. Ele passa a ser chamado de comandante no momento em que está à frente do  comando de alguma embarcação. Se ele não estiver comandando no momento, pode ser chamado de capitão.

Comunicação

  • Para se comunicar, durante a preparação para o posto, os profissionais têm aulas de Inglês. Embora possam ter  pessoas de diferentes países nas embarcações, o Inglês é o utilizado nesses casos. 
  • Já para se localizar em alto-mar, eles aprendem técnicas que utilizam recursos tecnológicos e também a se guiar quando não houver a possibilidade do uso da tecnologia, por exemplo, a se orientar  pelas estrelas.   

Fonte: Entrevistados na reportagem

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