Será que todas as desigualdades são iguais? Penso que não. Mas certas narrativas nos empurram justamente para essa falsa equivalência.
Duas semanas atrás, aqui no Entre Prateleiras, escrevi sobre desigualdade a partir do desafio de ser mulher em um ambiente predominantemente masculinizado. Depois da publicação, leitores me enviaram vídeos, posts, argumentos e contrapontos.
Dois, em especial, prenderam minha atenção pelo alcance, por quem os enunciava e pela estrutura do argumento.
Um deles dizia que o feminismo esmagaria o próprio feminismo caso as mulheres feministas não aumentassem sua taxa de reprodução, como se ideias e ideologias fossem herdadas geneticamente.
O outro defendia um deslocamento linguístico, trocando “mulher é agredida” por “um homem agrediu”, como se essa troca, por si, produzisse transformação social.
Os dois discursos compartilham algo relevante: grande alcance, reivindicação de autoridade e viés de confirmação explícito, tudo isso abrigado sob o arco mais amplo da desigualdade social.
A desigualdade que persiste no cotidiano já não depende apenas de coerção explícita. Ela também se sustenta na forma como pensamos, decidimos e interpretamos aquilo que chamamos de escolha.
Nesse tipo de construção, a forma passa a importar mais do que o próprio conteúdo. E é aí que surge a necessidade de reivindicar autoridade.
Toda sociedade se organiza em meio à incerteza, à ambivalência e à complexidade. Reduzi-la a narrativas lineares não simplifica o problema. O deforma.
Quando esse tipo de leitura ganha escala, deixa de ser apenas interpretação e passa a orientar como temas sensíveis são compreendidos, absorvidos e reproduzidos socialmente.
Indivíduos passam a agir em desacordo com aquilo que, isoladamente, sustentariam. Nesse ambiente, narrativas simplificadas deixam de ser apenas inadequadas. Tornam-se disfuncionais.
Deslocar a ênfase linguística da agredida para o agressor não basta. Sustentar posicionamentos ideológicos a partir de interpretações apressadas ou distorcidas também não. Deslocar a carga emocional não amplia a compreensão.
Discursos de extremos amplificam ruídos, simplificam o que exigiria elaboração, polarizam o debate, enfraquecem causas legítimas e estreitam o espaço de discussão propositiva. Ao tentar impor uma lição de moral e prescrever comportamentos, tornam-se caricatos.
Se há alguma transformação possível, ela passa pela forma como percepções coletivas são moldadas no ambiente político, econômico e social. Não existe desigualdade social isolada. E ética não se resolve por lição de moral.
Leitura fora de contexto, ao ganhar escala, deixa de ser leitura. Passa a organizar o que muitos chamam de realidade, mas que, no final do dia, não passa da tão famigerada desinformação.
Vídeos, autores, feminismo ou linguística são periféricos aqui. Importa o que esse tipo de construção evidencia, constrói, destrói, aproxima e afasta.
O mesmo cimento que faz a ponte também ergue o muro.