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Entre Prateleiras

Guerra: o Fracasso do Poder

Ultrapassamos o limite entre autoridade e violência

Guerra: o Fracasso do Poder
- Jaques Paes
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Jaques Paes

Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV. Autor da coluna Entre Prateleiras, publicada no jornal A Tribuna e disponível também no portal Tribuna Online.

Última atualização

Guerra não é expressão de poder, mas evidência de sua insuficiência. Ela surge quando o poder já não consegue sustentar a ordem por coordenação e passa a apoiar-se na força. Guerra marca esse limite: o ponto em que o poder deixa de produzir coordenação, abandona a persuasão e recorre à violência como instrumento de coerção.

Quando uma guerra começa, ela evidencia ao menos duas coisas: alguém ainda dispõe de força e ninguém mais controla plenamente a situação. Recorre-se à força como instrumento de imposição — uma forma de exercício do poder, não o poder em si.

O recurso à força costuma ser confundido com demonstração de poder. A expressão naturalizada “poder bélico” reforça uma falsa equivalência entre capacidade de destruição e autoridade política. Armas produzem obediência pelo medo; não produzem poder. A capacidade de ferir não é a mesma coisa que a capacidade de governar.

Um míssil iraniano atingiu a embaixada dos Estados Unidos. Em comunicado oficial, o Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã informou que as forças armadas do país iniciaram uma resposta decisiva aos atos hostis dos EUA e de Israel. O gesto busca dissuadir o adversário, preservar credibilidade e reafirmar capacidade de ação. Comparar a força bélica entre Irã e Estados Unidos é inútil e desnecessário: a questão não é a aritmética dos arsenais, mas o significado político do gesto.

A resposta opera no campo da reputação estratégica e da sinalização de limites. Ao reagir, o Irã não enfrenta os Estados Unidos em termos simétricos; busca reorganizar expectativas. A tensão geopolítica cresce não apenas pela destruição material, mas pela necessidade de sustentar uma narrativa de força sem perder o controle da escalada. A guerra é linguagem política em estado extremo: uma mensagem dirigida ao adversário, aos aliados, à própria população e à ordem internacional.

O que está em jogo não é apenas território ou infraestrutura, mas a manutenção de posições relativas de poder e a preservação de margens de manobra futuras. A racionalidade não desaparece; assume a forma de cálculo estratégico, no qual risco, honra nacional e capacidade de dissuasão compõem uma equação cujos efeitos colaterais já estão embutidos no resultado, mesmo que à custa das vidas que se afirma proteger.

O anúncio da morte de Ali Khamenei desloca o conflito para outro patamar simbólico e estratégico. Não se trata apenas da eliminação de um líder, mas da remoção do centro de gravidade político-religioso da República Islâmica. Khamenei não era apenas chefe de Estado; era a instância última de arbitragem entre facções, o eixo de legitimidade de um regime e o guardião de sua continuidade ideológica. Sua morte não encerra o conflito; abre um período de incerteza no qual a disputa pela sucessão pode levar à radicalização. A história recente mostra que, em sistemas altamente centralizados, a ausência do vértice não produz vazio; produz rearranjo – e rearranjos, em contextos de guerra, raramente são estáveis.

Conflitos são permanentes. A sociedade sempre foi atravessada por disputas de poder, recursos e ideias. A guerra é a fase armada de um confronto que já vinha sendo travado por outros meios, o momento em que a disputa abandona a política e assume sua forma mais explícita. Um capítulo visível de uma disputa que nunca se resolve.

Guerra é colapso sistêmico em que falham os mecanismos de coordenação, esgotam-se os canais de negociação e a violência ocupa o espaço deixado pela política.

Quando a guerra começa, não é o poder que se afirma, mas sua falha.

Continuo o assunto nas redes: Instagram: @jaquespaes; LinkedIn: in/jaquespaes

Jaques Paes é executivo, mestre em gestão empresarial, palestrante, consultor, pesquisador e professor de MBA na Fundação Getulio Vargas

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