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Entre Prateleiras

Me deixe pensar

Pensar virou uma forma de resistência discreta

Me deixe pensar
- Jaques Paes é executivo, mestre em gestão empresarial, palestrante, consultor, pesquisador e professor de MBA na Fundação Getulio Vargas
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Jaques Paes

Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV. Autor da coluna Entre Prateleiras, publicada no jornal A Tribuna e disponível também no portal Tribuna Online.

Última atualização


Pensar virou uma forma de resistência discreta. Há informação demais, estímulo demais, urgência demais, notificação demais, opinião demais. Em um movimento quase contraditório, o acesso ampliado à informação parece reduzir nossa capacidade de organizar mentalmente aquilo que chega até nós antes que se transforme em ruído, ansiedade ou reação automática.

Temos limites, embora a lógica da urgência tente nos convencer do contrário. Cada pequena decisão, cada mensagem pendente, cada alerta no celular e cada demanda simultânea cobra um custo cognitivo.

O resultado é uma fadiga silenciosa: seguimos funcionando com menos critério; respondendo com menos elaboração; opinando com menos pensamento. A sobrecarga cognitiva tem uma característica incômoda: ela nos faz acreditar que estamos ativos quando, muitas vezes, estamos apenas reagindo. A agenda cheia vira sinal de relevância. A velocidade da resposta vira sinal de competência. A presença em todos os assuntos vira sinal de inteligência. Aos poucos, confundimos prontidão para responder com capacidade de compreender.

A saturação informacional nos deixa cansados e defensivos. Quando um fato desafia uma crença, uma preferência ou uma identidade, raramente a primeira reação é rever a posição. O impulso é ajustar o fato à crença, e não a crença ao fato. Reorganizamos justificativas, procuramos exceções, escolhemos evidências convenientes, mudamos o peso dos argumentos. Antes de admitir a possibilidade de erro, buscamos uma forma de continuar certos.

Isso nem sempre nasce da falta de repertório. Muitas vezes, é defesa cognitiva: uma tentativa de preservar alguma coerência diante de algo que ameaça nossa estrutura de interpretação.

Talvez por isso discutir ideias tenha ficado tão difícil. A divergência deixou de ser tratada como oportunidade de exame e passou a ser percebida como ataque. A escuta virou uma triagem para descobrir de que lado aquilo parece estar, mesmo antes de entender o que foi dito. Nesse ambiente, pensar passa a importar menos do que reconhecer a tribo.

Nos cobram opinião antes da reflexão. Um fato acontece e, imediatamente, espera-se uma posição, uma indignação, uma frase pronta e alguma certeza publicável. A prudência virou fraqueza. A dúvida virou omissão. O silêncio passou a ser lido como ausência de coragem.

Pensar exige tempo, ordem e disposição para suportar desconforto. Exige separar fato de interpretação, evidência de preferência, convicção de vaidade e informação de compreensão.

Há algo de profundamente civilizatório em pedir tempo para pensar, pois isso confronta a gestão por urgência, a comunicação por impulso, a liderança por performance e a aprendizagem por acúmulo. Quando alguém diz “me deixe pensar”, essa pessoa recusa a obrigação de transformar estímulos em resposta imediata.

Pensar, hoje, talvez seja menos uma abstração e mais uma prática de higiene mental. Exige selecionar melhor o que entra, organizar melhor o que permanece e descartar aquilo que apenas ocupa espaço cognitivo. Exige reconhecer que viver em estado permanente de alerta nos torna mais vulneráveis à manipulação, ao medo, à irritação e à certeza fácil.

“Me deixe pensar” deveria ser uma frase mais respeitada. Pensar não resolve tudo. Mas, sem pensar, quase tudo vira reação.

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