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Entre Prateleiras

O Conforto das Certezas Instantâneas

Quando a repetição vira evidência, a verificação perde lugar

O Conforto das Certezas Instantâneas
- Jaques Paes
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Jaques Paes

Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV. Autor da coluna Entre Prateleiras, publicada no jornal A Tribuna e disponível também no portal Tribuna Online.

Última atualização

Da Amazônia que “vai virar uma imensidão de areia em 15 anos” às previsões abstratas de que “bastam alguns bilhões para acabar com a pobreza no mundo”, passando pela destruição do “pulmão do mundo” e por chefes de redação derrubados por manipular dados, estamos falando de episódios separados por quase quarenta anos. À primeira vista, parecem desconexos. Na prática, são produtos de uma mesma lógica: a que transforma autoridade em escudo.

Há ideias que não precisam de evidência para virar verdade. Basta alguém com alcance, acesso e convicção suficientes para que o mundo aceite. Palco, autoridade, tom e repetição são o bastante para deixarmos de analisar e passarmos apenas a reconhecer.

Mesmo frágeis, quase improvisadas, essas frases ganham corpo de dogma antes de qualquer questionamento. Ditas com a postura certa, opiniões ganham o peso de verdade; repetidas à exaustão, a repetição passa a funcionar como critério de evidência. A informação em si perde relevância.

Quando uma ideia veste a roupa simbólica da autoridade, entra no debate em vantagem. A psicologia das multidões explica o resto: uma frase ouvida muitas vezes se torna familiar, e o que é familiar aceitamos sem resistência, não porque seja verdadeiro, mas porque não exige esforço.

A repetição nos poupa do trabalho de pensar, e isso, em tempos de saturação, é quase um alívio.

As estruturas de poder distorcem, reprimem ou sequestram a verdade. Escrever a verdade, dizia Bertolt Brecht em 1934, não é um ato moral abstrato, mas uma prática política que exige coragem, método, estratégia e responsabilidade social. Quase um manual antecipado daquilo que insistimos ignorar.

Vivemos a estranha era em que, no tempo em que levaríamos para pensar, a opinião já virou certeza coletiva. A repetição criou conforto. O conforto virou adesão. A adesão se transformou em certeza. A dúvida passa a parecer imprópria. O atalho cognitivo se veste de convicção e fecha a porta ao contraditório. Duvidar é enquadrado como inadequado. Em alguns casos, como negacionismo.

Aqui entram os atores com autoridade – institucional, simbólica, científica, jornalística – explorando os vieses que nos fazem acreditar rápido demais. A pressa cognitiva (“preciso ter opinião”), somada ao conforto narrativo (“está todo mundo falando”) e à influência social (“há uma autoridade falando por mim”) cria o teatro da autoridade. A fala vira verdade não porque é correta, mas porque uma opinião passou a ser tratada como urgência, dando voz a quem fala alto, de cima ou primeiro – não a quem fala certo.

A gente se acostuma, mas não devia. Quando anulamos nosso julgamento individual, deixamos que crenças, emoções e diagnósticos sejam propagados em grupos sem qualquer fundamento. Quando o desconforto finalmente aparece, costuma ser tarde para discordar ou expor um ponto de vista. A ansiedade social nos mantém em estado de alerta, enquanto aplaudimos certezas que nem sequer passaram pelo trabalho de existir.

Continuo o assunto nas redes: Instagram: @jaquespaes; LinkedIn: in/jaquespaes

Jaque Paes é executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV

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