Não está fácil atravessar 2020. Devido à crise provocada pela Covid-19, a vida das pessoas mudou. Mas, para muitos, na bagagem não há só tristezas, mas realizações que simbolizam vitórias.
Empatia e solidariedade passaram a acompanhar a determinação, a coragem e a superação, desanuviando as tensões e incertezas e transformando medos em impulsos. E em garantias de que o ano pode, sim, ser bom. E até o melhor de suas vidas!
O especialista em comportamento humano e life trainer Douglas Maluf afirma, ao AT2, que a crise sempre trará uma oportunidade de mudança.
“Basta revisitarmos certos acontecimentos históricos, como as guerras e as maiores crises do século passado. Tudo isso trouxe uma série de avanços tecnológicos e aprendizados à humanidade”.
Douglas vai além: “Sem esses aprendizados, estaríamos menos preparados para lidar com a pandemia. A crise é uma mola propulsora para a mudança”.
Olhar para o próximo e caminhar junto estão entre essas revoluções humanas provocadas pelo caos. Para a psicóloga com especialização em Avaliação Neuropsicológica pela PUC/RJ Sandra Morais, neste momento, é necessário deixar egoísmo e individualidade de lado.
“As pessoas estão se reinventando. Em vez de lamentar, estão aprendendo a se ressignificar e usando a crise existencial para ensinamentos e novas conquistas”.
“É bênção!”
“Estou com 18 semanas de gravidez de gêmeos. São filhos da pandemia! (Risos) Jamais imaginava engravidar, muito menos de gêmeos. Sou viúva, já tenho dois filhos. Depois do susto, estou feliz com a chegada da Giovanna e do Guilherme, com minha família completa. Eles aceleraram os planos de casamento, os investimentos nos negócios. Ganhei, em 2020, um marido, mais dois filhos e duas funcionárias comprometidas. É bênção de tudo quanto é lado! Surpresa que veio para somar”, se emociona a empresária Fernanda Lourenço, 36 anos, ao lado do noivo, João Cláudio Castro, 35, e dos filhos Cauan, 12, e Gabriel, 5.
“Um super ano para mim”
“Está sendo um super ano para mim. Como fiquei durante todo este período em casa com minha bebê, é quase como se não tivesse a pandemia. Penso: em tempos normais, estaria de licença-maternidade de qualquer forma. Na verdade, o nascimento da minha filha está me ajudando a passar este período complicado. Ela nasceu quando todo mundo estava fechando tudo. Claro que fui tensa para o hospital… Estávamos no auge da maior incerteza”, conta a tatuadora Kessy Borges, 41 anos, que sorri para a foto, segurando sua primeira filha, Martina, de 4 meses.
“Extraordinário!”
“Para mim, 2020 está sendo extraordinário, por incrível que pareça. Depois de ficar 15 dias em casa, nervosa, voltei a trabalhar para colocar em prática meu plano de expandir negócios. Pensei: não posso deixar a pandemia me abater! Fui me adaptando. A nossa história, nós escrevemos. Devemos contornar os obstáculos e seguir. O medo faz parte. Enquanto escrevo minha história, pude ajudar muita gente a se capacitar para trabalhar”, conta Juliana Brasil, 35, proprietária de um salão de beleza.
“É hora de ajudar”
“Com toda esta situação pela qual estamos passando, um período muito difícil, é hora de ajudar. A solidariedade é fundamental. Acabamos de abrir uma loja na Praia do Morro, em um local que até então era inatingível. Antes disso tudo, ninguém passava o ponto. Geramos empregos, compramos de distribuidores da região, fortalecendo o mercado local. Está sendo um ano importante”, diz Fernando Miguel, 48, dono de uma rotisseria.
“Eu me sinto vitoriosa”
“Vi, neste período, a chance de mostrar meu trabalho autoral na cozinha. Era um projeto que estava engavetado. Tive medo. Nem sempre ganhamos. Com tudo isso, uni ainda mais minha família. Eu me sinto vitoriosa”, frisa a chef Carolina Felizardo, 37, que, ao lado do marido Marcelo Silva, 47, e da filha, Laura, 10, comemora o sucesso de seu delivery e planeja abrir uma loja.
Entrevista: Sandra Morais é psicóloga e neuropsicóloga, com especialização em Avaliação Neuropsicológica pela PUC RJ: “Devemos aprender a controlar nossas emoções e ter mais tolerância”
Tribuna Online: Diante de um contexto caótico, é comum produzirmos gatilhos emocionais que nos levem a focar apenas no lado negativo?
Sandra Morais: Sim, esses gatilhos são criados através de experiências negativas que vivenciamos muitas vezes na infância. Na fase adulta, esses gatilhos são acionados e nos fazem reviver essas lembranças e passamos a focar no lado negativo.
Tem como melhorarmos a qualidade dos nossos pensamentos e, como consequência, das nossas atitudes?
Sim, primeiramente, precisamos ter em mente que, se quisermos um mundo melhor ou alguma mudança de vida, por exemplo, devemos primeiro de tudo começar através de nós mesmos e com mudanças importantes em nossas atitudes. Cada pessoa precisa saber que deve fazer a sua parte. Só assim para que a gente consiga parar de colocar a culpa nos outros.
Para isso, há algumas sugestões, como confiar em nós mesmos. Falamos muito de perseverança. Mas ser perseverante é aprender que, às vezes, é importante, e até necessário, “sair de cena” para repensar e analisar o que sente, as emoções, para tentar lidar com elas de forma positivas. Nós temos também de aprender sobre a tolerância. Devemos ser mais tolerantes com os outros e conosco, pois somos passíveis de erros. E, se errarmos, devemos tentar corrigir nossos erros. Assim conseguimos criar experiências positivas que nos remetem a lembranças boas e saudáveis.
Devemos, ainda, aprender a controlar nossas emoções e ter mais tolerância para superar sensações desagradáveis. Por último, devemos evitar pensar demais numa situação que trouxe incômodo, chateação…
Vale a pena fazer um tipo de “inventário” dos dias ou dos meses de isolamento?
Sim, é de suma importância criar um diário e relatar seus pensamentos, suas reflexões e o que cada um está aprendendo com esse isolamento, o que passou a valorizar nessa pandemia, o que é importante de verdade, para que, quando isso tudo passar, possa reler esse diário e valorizar de fato o que realmente tem valor, como está perto dos familiares, amigos, abraços etc.
O “novo mundo” é o desafio da vez. E vem como uma cara de passando a vida a limpo. A coragem para recomeçar, para investir em algo novo e desengavetar projetos está mais para sinal de atitude positiva ou reação diante de uma necessidade de sobrevivência?
Como psicóloga, eu percebo da seguinte forma: através de uma necessidade de sobrevivência, as pessoas estão se reinventando, buscando novas alternativas. E não deixa de ser também uma atitude positiva, pois, em vez de lamentar, o indivíduo está aprendendo a se ressignificar, usando a crise existencial para ensinamentos e novas conquistas.
Entrevista: Douglas Maluf – Life trainer, criador do Método MD e especialista em comportamento humano: “Diante de tantas notícias tristes, uma certa culpa por estar feliz pode ocorrer”
Tribuna Online: Como pensar positivo no nosso diálogo interno?
Douglas Maluf: Como eu procuro sempre reforçar: não acredito que devemos “romantizar” essa crise. Porém, ao mesmo tempo, é possível olhar para tudo isso em uma perspectiva mais positiva em dois sentidos: o primeiro é que toda crise pode funcionar como uma oportunidade de mudança e as consequências dessa pandemia podem gerar diversas reflexões.
O segundo ponto é perceber como pequenas coisas que antes poderiam passar despercebidas – como um almoço de domingo em família, por exemplo – ganharam novos contornos depois do distanciamento social imposto pelo novo coronavírus. Uma nova importância.
Acredito, que, para estabelecer esse diálogo interno positivo, seja fundamental reconhecer as situações positivas do cotidiano, por mais simples e corriqueiras que elas possam parecer. Um exercício simples que passo nos meus treinamentos é justamente nesse sentido: fazer uma lista com coisas boas que aconteceram durante o dia e compartilhar os itens dessa lista com alguém. Com o tempo, você acaba treinando seu olhar para reconhecer o lado positivo de diversas situações.
Atitudes positivas exigem um exercício diário, treino mesmo?
Sim! É um exercício diário, é treino e disciplina. É como aprender outro idioma ou um novo esporte. Ter uma atitude mais otimista não é um dom, um traço de personalidade… Não é uma dádiva disponível para poucas pessoas. Olhar as situações da vida em uma perspectiva mais positiva envolve mudar o foco e certos hábitos.
Não existe uma fórmula pronta, existe uma trajetória que é composta por dois pontos fundamentais: a decisão e o comprometimento para manter o que foi decidido.
Tem como melhorarmos a qualidade dos nossos pensamentos e, como consequência, das nossas atitudes?
Um dos pontos fundamentais é a escolha. A escolha é o primeiro passo para transformar qualquer coisa, inclusive o próprio mindset. O psicólogo Benjamin Hardy tem uma visão que eu considero muito interessante sobre esse tema, que é a seguinte: todos nós temos uma tendência em continuar pensando e agindo da mesma forma… É a famigerada zona de conforto…
Então, segundo ele, apenas a força de vontade não é suficiente. É como se ela fosse um recurso inicial, que é limitado. Mudar exige a escolha (o querer), mas também exige uma plano de ação (um método) e comprometimento (disciplina).
Outra estratégia é criar um contexto favorável para a mudança que você deseja. Um exemplo: se você decidiu se alimentar de forma mais saudável, não é muito interessante manter alimentos que não tenham esse perfil por perto, certo?
Ser solidário é fundamental nesse processo de reconstrução pelo qual estamos passando?
Acredito que esse seja um dos legados que essa crise vai nos deixar. Ser solidário é algo fundamental! É uma via de mão dupla, que beneficia todos os envolvidos.
Diante de todos esses desafios, temos a chance de aproveitar esse momento para incluir mais solidariedade na rotina e também de perceber a mudança que ela é capaz de promover em nossas vidas e na sociedade da qual fazemos parte.
Quando entramos em contato com o universo do outro e com os problemas que estão distantes da nossa realidade, somos capazes de ampliar nosso prisma. Automaticamente, isso gera uma habilidade maior para lidar com os próprios problemas de uma maneira mais madura.
Ou seja: ajudar o outro nos ajuda a lidar com os nossos próprios medos e inseguranças, que são quase que inevitáveis dentro deste cenário que estamos.
Conseguir realizar grandes sonhos em pleno período caótico é ainda mais prazeroso?
Isso depende. Depende da perspectiva de cada um. Eu vejo essa questão em dois recortes: o da culpa e o da gratidão. Diante de tantas notícias tristes, uma certa culpa por estar feliz pode ocorrer. Porém, isso não é produtivo nem para si mesmo, nem para os núcleos dos quais você faz parte – sua família, sua empresa e a sociedade
Ser capaz de entender que existem outras realidades é premissa fundamental da empatia. Mas é preciso cautela, já que essa possível “culpa” pode também agir como uma sabotadora inconsciente, e acabamos nos punindo e nos entregando a ansiedade, stresse, tensão, tristeza… e isso pode gerar um desgaste emocional tremendo.
Trata-se de encontrar o meio termo que é não ficar alheio às necessidades e desafios de outras pessoas, mas também se permitir comemorar as próprias realizações e entender que não existe nada de errado nisso.




