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“Ninguém podia saber que eu dançava”, diz o ator e bailarino Marcos Oli

O paulista Marcos Oli precisou driblar o preconceito para exercer seu talento artístico. Aos 24 anos e com 14 de carreira, o ator e bailarino, que ...

“Quando meus pais ficaram sabendo, meu pai, por muito tempo, não permitiu que eu dançasse por puro preconceito. Até que ele foi ver minha primeira apresentação e chorou muito”, conta Marcos Oli

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“Quando meus pais ficaram sabendo, meu pai, por muito tempo, não permitiu que eu dançasse por puro preconceito. Até que ele foi ver minha primeira  apresentação e chorou muito”, conta Marcos Oli (Foto: Divulgação/Vitor Azevedo)

O paulista Marcos Oli precisou driblar o preconceito para exercer seu talento artístico. Aos 24 anos e com 14 de carreira, o ator e bailarino, que começou a se interessar pela arte ao cantar e dançar na igreja, lembra da resistência que enfrentou por parte de seus pais ao descobrirem que ele fazia balé.

“Eu escondia as sapatilhas na gaveta quando chegava em casa, porque ninguém podia saber que eu dançava. Era a avó de um amigo que me levava. Quando meus pais ficaram sabendo, meu pai, por muito tempo, não permitiu que eu dançasse por puro preconceito. Até que ele foi ver minha primeira apresentação e chorou muito. Foi através do reconhecimento dele que senti que nunca mais deixaria a arte”, revela o artista ao AT2.

Após lidar com todo esse processo, Marcos pode dizer que hoje tem seu talento reconhecido também por um grande público. Na internet, ele alcança milhares de pessoas com vídeos que tratam com humor de temas importantes como o racismo.

Mas ele, que já participou das novelas “Malhação – Viva a Diferença” e “Dance Dance Dance”, também tem chamado a atenção ao viver o bailarino Miguel e Michelle, a drag queen do personagem, na série “As Fives”, disponível no Globoplay.

“Logo que fiquei sabendo que faria esses personagens, fiquei muito feliz, mas muito apreensivo, porque nunca havia andado de salto nem feito uma maquiagem bem carregada. Mas estava tão animado, sabia que seria um processo incrível e super importante para minha carreira. E foi!”, afirma.

AT2 – Percebeu sozinho o seu talento artístico?

Marcos Oli – Percebi porque diziam que eu era um garoto engraçado, que adorava imitar os meus amigos, professores… Comecei na igreja, participando das atividades artísticas e foi nessa fase que passei a ter um interesse maior pela arte.

Em “As Five”, dá vida ao bailarino Miguel e Michelle, sua drag queen. Como se preparou?

Para chegar à segurança e à autenticidade da Michelle, fiz aulas de stiletto e estudei drags pretas internacionais, como RuPaul e Jaida Essence. Mas gosto muito de estudar o que está próximo a mim e da minha cultura.

Minha maior referência foi a Gloria Groove, que durante anos também trabalhou com teatro musical e viveu essa mesma jornada dupla de Michelle/Miguel – e hoje é considerada uma das principais drags do País, e não deixa de ser uma referência na vida real. Já fui a três shows dela! (Risos)

Foram muitos os desafios?

Um novo personagem é sempre um grande desafio. Dar vida à Michelle foi um desafio, mas foi encantador. Entender cada fala, olhar e mexida no cabelo e sorriso foi libertador. Uma lição muito importante que vou carregar desse universo é sobre a resistência. Mesmo que esteja maquiado, esplendoroso e cheio de vida, para chegar até ali, é preciso renunciar, assumir e resistir a muitas coisas da vida que não são fáceis – e nunca serão.

Em quais pontos você se vê no Miguel? Existe a questão dos perrengues em ser recém-formado em teatro musical?

Ser recém-formado para mim é sinônimo de desespero. No universo do teatro musical, não é diferente, ainda é um meio meritocrático e, para furar essa bolha, é preciso muita insistência. E é isso que carrego do Miguel: um amor pela arte que fala mais alto do que qualquer medo de fracassar.

Teve receio de como a personagem seria recebida?

O medo de como o público vai receber é super natural e até importante, mas, graças a Deus, fui muito bem recebido. Os fãs da série adoraram e fico muito feliz quando recebo mensagens nas minhas redes elogiando meu trabalho.

Não é o seu primeiro personagem LGBTQI+. Representatividade é a palavra de ordem?

Não ser meu primeiro personagem gay significa que algo esteja mudando. Talvez “igualdade” seja a palavra de ordem pela minha vivência. Precisamos lutar por isso. Considero a representatividade uma das ferramentas para se chegar a um mundo igual.

Ainda há uma visão de que pessoas negras só falam sobre suas vivências como um corpo negro?

Sim! Obrigado por essa pergunta, inclusive! Nós sempre vamos falar e lutar contra o racismo enquanto ele existir, isso é um fato. Mas nós não falamos só sobre isto. Gosto de cachorro, sou canceriano, gosto de viajar e de escutar música clássica aos finais de semana e, geralmente, as pessoas só nos enxergam como um “GoogleAfro”.

Seus vídeos têm viralizado. Como explica esse sucesso?

Tudo foi acontecendo naturalmente. As questões que passei a trazer nos meus vídeos precisam ser discutidas o mais urgente possível. Eu encontrei o humor como uma ferramenta para escrever os roteiros e fazer com que chegasse ao público de uma forma mais leve. Mas não tem jeito, o “rindo de nervoso” é a expressão mais comentada nos meus posts, porque faz a galera refletir e se questionar o que podemos fazer para mudar.

Viu na internet a oportunidade de conquistar espaços que, talvez, lhe foram negados?

Sim. Sempre quis interpretar um médico, juiz, advogado. Mas, por muito tempo, só chegou, para mim, o papel do bandido. Na internet, pude criar meus personagens, minhas ideias, meus figurinos, tudo que eu ainda não fiz lá fora. Ou seja, construir a minha própria porta.

Qual discurso racista mais te tira do sério?

“Não sou racista, tenho até amigos negros” e “todas as vidas importam”.

Quais os futuros projetos?

Estou estudando projetos de teatro e audiovisual. Por conta da pandemia, está tudo muito imprevisível, mas espero trabalhar bastante.

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