Os gestos animalescos, o figurino exótico e a interpretação potente de Ney Matogrosso alçaram “Homem com H” ao patamar de joia da MPB. Agora, quase quatro décadas depois, Samantha Schmütz lança a sua versão da canção, junto com a Nação Zumbi.
Perguntada sobre o desafio de dar uma nova roupagem a uma música tão célebre, a carioca de 41 anos dá vários motivos: o pai a gravando ainda criança, em uma fita K7, cantando os versos de Antônio Barros; a admiração por Ney Matogrosso e, claro, a oportunidade de ousar. “Acho que, para viver, precisamos ser ousados, no sentido de se jogar, de tentar”, diz ao AT2.

A cantora e atriz aproveita para dizer que o mundo atual precisa de homens de verdade, ou com H. “É preciso ser homem com H neste momento para ter coragem de falhar, de falar, de se expor. Afinal, não temos escolha: ‘Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come’”.
“Tem muita gente cafona de alma”, Samantha Schmütz – atriz e cantora
AT2: Está lançando “Homem com H”. A música causou alvoroço nos anos 1980. Ela continua atual?
Samantha Schmütz: Sim. Esta música é justamente uma sátira ao comportamento que é exigido do homem na sociedade que massacra o ser humano masculino e programa o indivíduo a ter comportamentos machistas, não chorar, ser comedor, ser provedor e ser todos esses papéis e funções clichês que se aplicam ao macho viril.

Samantha Schmütz: Respeito muito o palco e o público. Eu comparo a minha profissão à gastronomia, pois a arte também alimenta e eu jamais abriria um restaurante se eu cozinhasse mais ou menos. E, às vezes, vejo gente que não sabe fazer nem arroz sendo dona do buffet! (Risos)
AT2: O que te faz tão bem-sucedida em sua carreira?
Samantha Schmütz: O que me faz bem-sucedida é ter tido bons professores, que me ensinaram a respeitar, mais do que tudo, o tablado do palco. Ali, não se sobe para brincar, se sobe para jogar. Tem que ter respeito e acho que o respeito e a dedicação que dou para o palco me voltam como a admiração do público. E o palco ainda me dá a possibilidade de me encontrar com ídolos, como Nação Zumbi!
AT2: Como espera que esse trabalho seja recebido pelo público?
Samantha Schmütz: Espero que gostem, mas acho que a música tem vida própria, não dá para prever. Ney Matogrosso me disse que essa música trouxe muita sorte para ele. Bom, a minha está lançada!
AT2: Está em “Alta Sociedade Baixa”. Acredita que a série reflete parte de nossa elite?
Infelizmente, tem muita gente cafona de alma, sim.

Samantha Schmütz: Nessa temporada, a galera da pensão se muda para o Leblon! Então, imagino que a Jéssica vai ser a mais deslumbrada. (Risos)
AT2: Como vê a contribuição da arte, especialmente do humor, neste momento?
Samantha Schmütz: Ela serve para desafogar, mas também é fundamental para alertar, contestar, questionar!
AT2: Tem se posicionado em suas redes sociais contra o fascismo e o racismo. Acredita que é preciso se posicionar?
Samantha Schmütz: Acredito que me posiciono na vida em todos os setores, então, seria incoerente não me posicionar politicamente nas redes. E não acho nem que é uma questão de escolha. O artista é questionador e reflete o seu tempo. Um não existe sem o outro.
Meus ídolos – os artistas que eu sigo a linha de trabalho, a postura e o pensamento – sempre se posicionaram. Não tenho ídolos mudos neste momento, e em nenhum tempo da história!
AT2: A pandemia mexeu com suas prioridades?
Samantha Schmütz: Mais do que mudar, minhas prioridades se reafirmaram: como ser sempre transparente, seguir a minha intuição; rever o consumismo e repensar o consumo de carne.
AT2: Tem mais de dois milhões de seguidores no Instagram, é admirada por seus colegas. O que todo esse sucesso significa para você? Sente falta dos aplausos?
Samantha Schmütz: Ter fãs e poder inspirar pessoas é maravilhoso e traz muita responsabilidade. E ser admirada por colegas de profissão é uma fortuna, a maior riqueza! Estou sentindo muita falta do palco e das pessoas – através delas nascem os aplausos.
O QUE ELA DIZ
“Desmaiei”
“Tenho um carinho enorme por essa música, pelo Ney. Ela me lembra do meu pai e me faz pensar que meu pai, de alguma maneira, me preparou para a minha profissão junto com minha mãe, que é bailarina! Tive a ideia de gravar essa música para o Filme ‘Cine Hollywood 2’. Convidei o Jorge Du Peixe para fazer a versão com a Nação Zumbi. Ele aceitou e eu desmaiei!”, diz Samantha, aos risos.
Lado masculino
“Acho que tenho esse lado masculino bem forte em mim. Não por acaso meu personagem mais famoso é um menino. Tenho uma referência de pai muito forte, mas que também se permite ter suas fraquezas, que chora, que não banca o macho. É um homem no sentido de ser íntegro. E não esse estereótipo de homem que a sociedade criou, que castra o homem na exigência de uma masculinidade deturpada. E é com isso que a letra da canção brinca”, salienta Samantha sobre o significado da canção.