Os irmãos Esquiva e Yamaguchi Falcão fizeram história para o boxe capixaba quando conquistaram medalhas de prata e bronze nos Jogos Olímpicos de Londres/2012, respectivamente. Cinco anos depois, o esperado impacto do feito dos filhos do ex-pugilista Touro Moreno não aconteceu.
Candidatos a sucessores do pódio olímpico surgiram, mas a maioria ficou pelo caminho. Agora, uma nova legião de boxeadores no Estado é tratada como promessa de títulos pela Federação Capixaba de Boxe.
É o caso de Kaique Machado, de 22 anos, da categoria médio (75kg). Fã do ucraniano Vasyl Lomachenko, bicampeão olímpico (2008 e 2012) e mundial (2009 e 2011), o jovem do bairro Campo Grande, em Cariacica, é apontado como a joia capixaba.

“Viver só de luta, no momento, é o que mais está dando certo”, contou Machado, que veio do kickboxing, mas em duas lutas no boxe obteve duas vitórias, uma delas por nocaute.
“Já faz quase três anos que minha renda vem das aulas de kickboxing. Mas eu aceito largar e viver apenas de boxe”, afirmou.
No feminino, Tamara Oakes, de 26 anos, de Vila Velha, já foi vice-campeã brasileira na categoria pena (57kg), em 2014, campeã em 2015 na categoria galo (54kg), e no ano passado ficou em terceiro lugar na categoria mosca (51kg).

Estudante de Educação Física com bolsa integral pelo Prouni (Programa Universidade para Todos), Tamara soma a renda com venda de roupas de crochê e aulas de boxe em academias de Vila Velha.
“Eu me sinto pronta, estou me preparando para encarar uma Olimpíada. Para poder chegar à seleção eu preciso ser vista. Eu faço crochê para vender há três anos”, afirma Tamara, que ainda enfrenta o machismo no esporte.
“O boxe é um esporte preconceituoso, porque as pessoas acham que é um esporte masculino e muitas meninas não praticam. Às vezes, as pessoas dizem que se você pratica boxe, não é menina”, disse Tamara, que ocupa o quarto lugar no ranking nacional da categoria mosca.

Já Hugo Vieira, de Cariacica, é outro pupilo da federação. Com 22 anos, oriundo do kickboxing, ele está ansioso para estrear. “Treino há quatro meses. Venho treinando duríssimo para encarar os desafios”.
Antigas promessas seguem na luta
A reportagem de A Tribuna destacou os capixabas Carlos André Rocha e Jéssica Carlini no dia 17 de abril de 2014, quando ambos foram treinar com a seleção brasileira, no distrito de Santo Amaro, em São Paulo.
Atualmente, Jéssica, de 26 anos, é vice-líder do ranking nacional da categoria meio-médio (69kg) e estuda Gastronomia.

“Comecei a faculdade este ano e recebo Bolsa Atleta estadual. Agora vou montar um projeto social junto com a igreja para crianças carentes. Quem sabe não sai um campeão?”, aposta a pugilista.
Em 2015, ela foi vice-campeã na Copa Continental, realizada na Venezuela. “Depois da seleção, continuei treinando, disputando os principais campeonatos”, completou.

Quem se manteve no páreo foi Carlos André Rocha. Hoje com 23 anos, ele está na seleção há três anos.
“Fui campeão na Polônia em 2014, em 2015 disputei os Jogos Pan-Americanos de Toronto (5º lugar), disputei outros campeonatos internacionais também. Sempre falam sobre Olimpíada. É meu sonho disputar e trazer uma medalha para o Brasil”, afirmou.
Confiança de sobra na nova geração
No dia 11 de agosto de 2012, Esquiva Falcão, filho do pugilista Touro Moreno, bateu na trave para emplacar o então inédito ouro olímpico para o Brasil no boxe – o baiano Róbson Conceição conquistou o feito no Rio de Janeiro, no ano passado.

O capixaba trouxe a medalha de prata de Londres para o Espírito Santo, em 2012, quando perdeu a decisão para o japonês Ryoto Murata.
De lá para cá, Esquiva deixou o boxe olímpico e estreou entre os profissionais no dia 16 de fevereiro de 2014. Na ocasião, venceu o americano Joshua Robertson por nocaute, no quarto round.

No cartel do capixaba, já são 18 lutas, com 18 vitórias, sendo três por nocaute, nove por nocaute técnico e seis por decisão unânime. O irmão, Yamaguchi Falcão, bronze em Londres/2012, também se profissionalizou e venceu 14 lutas.
Maior nome do boxe capixaba nos anos 2000, Esquiva Falcão espera brilhar em sua 19ª luta, que será realizada dia 3 de novembro, em Orlando, nos Estados Unidos.
“Sigo treinando forte aqui nos Estados Unidos e quero vencer mais uma”, afirmou o pugilista em entrevista à reportagem de A Tribuna.
A TRIBUNA – O que você sabe sobre a realidade do boxe no Espírito Santo atualmente?
ESQUIVA FALCÃO – As coisas no Espírito Santo estão muito difíceis. Patrocínio, qualquer tipo de apoio, está difícil. Se está difícil para mim, que sou medalhista olímpico, imagine para os atletas que estão começando, né? Fica mais difícil ainda!
Como isso pode mudar?
O Espírito Santo é um lugar onde tem bons atletas, mas falta apoio para esses atletas crescerem e ganharem medalhas para o Estado. Não é da noite para o dia que isso vai para mudar. Acredito muito no Espírito Santo. Os atletas são fortes e inteligentes. Acredito que eles querem conseguir uma medalha, então vão lutar para isso.

Seu irmão Estivan esteve na seleção brasileira em 2013, mas não foi convocado novamente e desistiu de disputar a Olimpíada de Tóquio/2020. O que conversou com ele a respeito?
Meu irmão já tem 22 anos e está indo para a terceira luta no profissional e está indo muito bem. Acho que agora é melhor ele seguir o caminho profissional, é o que ele quer. Ele está feliz nessa caminhada que escolheu.

Concordou com a decisão dele?
No início falei para ele disputar os Jogos Olímpicos, mas ele me disse que queria ir para o profissional. Aí eu dei apoio. Qualquer coisa que ele precisar, estarei aqui para apoiar.
Como está sua preparação para a próxima luta?
Minha próxima luta é dia 3 de novembro. Estou treinando muito forte aqui na Califórnia (EUA), fazendo sparring, preparação física e técnica, e meu adversário ainda não sei quem é. Quero buscar sempre o nocaute, ou uma luta com bastante boxe e técnica. Estou pronto para encarar qualquer um.
“Boxe amador aqui caiu muito”
Herdeiro do clã Falcão, Estivan Falcão não conseguiu repetir o feito dos irmãos Esquiva e Yamaguchi no boxe amador. Ele chegou à seleção brasileira em 2013, um ano depois das medalhas conquistadas pela dupla capixaba, mas agora calçou as luvas profissionais.
“Antes de chegar ao profissional, pensava sim na Olimpíada em 2020, mas o boxe amador no Brasil caiu muito. É o que está acontecendo”, contou.

Ele não tem mágoa pelo esquecimento na seleção brasileira, mas confessa que precisou ter peito para encarar seu novo desafio.
“Tive uma pequena passagem pela seleção brasileira em 2013. Depois disso, não fui mais convocado. Preferi passar para o profissional. Meus irmãos me orientam muito, me dão conselho para ir para o caminho certo. Sempre me ajudam antes das lutas”, revelou.
Estivan já fez duas lutas profissionais e venceu ambas. “O primeiro adversário foi o atleta mineiro Giovani Rodrigues Alves de Souza. O outro foi o paulista Gabriel Alves Pinto. Foram dois nocautes”, disse Estivan.
Recentemente, Estivan teve bons resultados. “Fiquei em terceiro lugar no Campeonato Paulista, fui campeão e terceiro colocado em dois torneios em Sorocaba (SP) também”, afirmou.

Um reflexo da afirmativa de Estivan sobre a queda do boxe amador no País é o abandono de alguns atletas. Entre eles está Gabriel Santos, que chegou a pleitear uma vaga nos Jogos do Rio de Janeiro, no ano passado.
“Ficar dando murro em ponta de faca não dá certo. Você fica com a mão cortada e não resolve nada. Estou no oitavo período de Engenharia Mecânica. Estou procurando trabalho. Já trabalhei até em loja de material de construção”, disse o ex-pugilista de Vila Velha.
Gabriel confirma que outros colegas deixaram o esporte. “Nailson Valério parou, foi para Portugal. O Josias Valentino é outro que não conseguiu e parou”.
Reportagem de Acácio Rodrigues