
VINICIUS BRAVIM: Eu tinha uma vida estabilizada no Brasil, na minha área, porém não me sentia valorizado profissionalmente na minha área. Além disso, por desafio pessoal mesmo, por querer algo novo, sair da zona de conforto, e tentar aprender uma nova língua. Isso é muito difícil porque não é fácil você chegar a um país que fala uma outra língua que você não domina. Também para adquirir um crescimento pessoal. Vim com minha esposa (Thamiris Robaina), mas que na época era minha namorada ainda, e isso me deu um suporte muito bom.
Mas pensava em atuar na área de Educação Física?
Sim, não queria ficar trabalhando naqueles empregos o resto da minha vida, mas sabia que eles faziam parte de um processo para chegar a trabalhar na minha área. Já sou formado no Brasil e fiz um curso para conseguir a certificação daqui e hoje trabalho na minha área, como personal.
Você imaginava que pudesse ainda ser jogador de futebol, mesmo tardiamente?
Eu era peladeiro e joguei em times universitários, pela Ufes. Profissionalmente, nunca joguei e nunca passei por base de clubes profissionais. Esse sonho foi coisa que eu fui deixando passar. Quando tinha 14 anos, estava tudo encaminhado para eu jogar no Ituano, mas quando adolescente tive aquela coisa de não querer me afastar dos amigos e ir para São Paulo. Mas aqui, eu parei e pensei: ‘poxa, o que custa eu chegar e, mesmo na idade que estou, tentar?’. Lógico que eu sei que jogador de futebol tem carreira curta, mas pensei que não custaria nada estar fazendo o que eu gosto, mesmo com a minha idade. E aí sim eu já ir fazendo uma outra coisa pensando em ir para a área de preparação física de atletas ou de treinador, depois que eu parar de jogar.
Como surgiu o teste?
Eu procurei, na internet mesmo, clubes que não fossem longe da minha casa e achei o Beggsboro. Entrei em contato com eles, por telefone, para fazer o teste. Falei que já tinha jogado no Brasil, mas não profissionalmente. Eu me sai muito bem no teste e eles gostaram muito. Também entrei recentemente no time de futsal. O time é o atual campeão irlandês e quando eu entrei eles estavam disputando a final.
Como era a estrutura do Beggsboro?
Tem um campo, com uma arquibancada pequena, para umas 300 pessoas, e dois campos society pequenos para treinamento. Tem uma diretoria. Eu era o único brasileiro, mas tinha também três poloneses.

São culturas diferentes. O brasileiro tem um jeito mais caloroso e aqui os caras são mais frios e fechados entre eles. Isso dificulta muito e a própria língua também. Eu já falo inglês, mas os irlandeses falam muito rápido. Você não se sente tão inserido como se tivesse em um time de brasileiros.
E como é a liga?
O futebol é muito físico aqui. Se você não fizer um fortalecimento físico, você vai se quebrar, literalmente. Toda bola é carrinho, tem muitas divididas. Muita bola longa e disputa de bola. No primeiro jogo já rasgaram minha chuteira, com um carrinho (risos). Mas nesse jogo fiz um gol encobrindo o goleiro e a gente ganhou de 1 a 0.
Como foi o desempenho do Beggsboro na temporada passada?
Estávamos em terceiro até os últimos cinco jogos, brigando pela segunda divisão para subir uma liga. Mas acabou que o time perdeu a concentração, teve cinco derrotas seguidas e quase foi rebaixado (terminou em 12º lugar).
Você ainda não recebe salário. Algum jogador da liga recebe?
Alguns times pagam, mas não a todos os jogadores. Os jogadores que geralmente recebem são irlandeses que já jogaram na Inglaterra e estão retornando, mas ainda é um pagamento simbólico. O cara não tem como ainda aqui viver de futebol, nem os que estão no topo dessa liga. O treinamento aqui é muito avançado, a estrutura também, mas em termos financeiros essa liga aqui ainda está muito atrasada.
Por que acha que isso acontece?
Aqui na Irlanda, eles amam o rugby e o futebol gaélico, que é um tipo de futebol que usa as mãos. Acho que os irlandeses ainda não se atentaram ao futebol, que aqui ainda está começando.
E como são os treinamentos?
Similares ao que a gente encontra nos times profissionais. Treinos técnicos, táticos e físicos. Dentro disso, várias atividades diferentes. Nos treinamentos físicos, mais voltados ao condicionamento mesmo, como tiros, explosão e deslocamentos, como giros. O tático, já com o que o treinador quer para o jogo, de maneira objetiva. E os técnicos, como finalização para atacantes.
E por qual motivo decidiu tentar o futsal?
Um amigo, que foi goleiro de futsal profissional no Brasil, passou no teste do Blue Magic e falou que eu encaixaria bem na equipe. Ele me ofereceu para fazer um teste e eu passei. O time já estava disputando as finais da liga nacional e foi campeão. Eu não pude ser inscrito, mas continuei treinando com o time e agora estou me preparando para a próxima temporada. Como o time foi campeão, ganhou vaga para disputar a UEFA Futsal Champions League (Liga dos Campeões da Europa de Futsal).
E aonde acha que pode chegar no futsal?
Ainda tenho a expectativa de tentar fazer um teste em um clube da Itália, Portugal ou na Espanha, que é muito forte no futsal, para tentar algo remunerado mesmo.
Acha que ser brasileiro te ajudou a conseguir jogar nos clubes?
Sim, tem um pouco disso. Quando você fala que é brasileiro as atenções já se voltam para você. Mas tem o outro lado. Ao mesmo tempo que você tem mais visibilidade, eles já acham que você é habilidoso e que joga bem, a cobrança é muito maior e você será muito mais avaliado. Tem que mostrar que realmente você tem futebol.
Como faz para conciliar seu emprego com os dois times?
É difícil. Trabalho das 15h às 22h em alguns dias e em outros das 9h às 15h. Os treinos são duas vezes por semana. Neste ano, vai ser realmente o ano em que eu vou tentar conciliar mesmo os dois times, porque só fiz alguns treinos pelo Blue Magic.
O que diria para aquele peladeiro bom de bola, que ainda sonha em ser jogador de futebol? Dá para tentar alguma coisa ainda?
Com certeza, minha experiência diz um pouco disso. Para a molecada que é nova, incentivo mesmo a correr atrás e não pensar só no Brasil. Pensar um pouco mais aqui fora. É claro que às vezes é difícil para o jovem juntar um dinheiro para vir aqui para fora fazer um teste em algum time, mas algumas famílias têm essa condição. O futebol aqui na Irlanda não é valorizado, mas tem várias opções de países na Europa onde se paga bem e é possível tentar um teste.
Como é para você hoje entrar em campo, mesmo em uma liga amadora na Irlanda, depois de ter passado por duas cirurgias no cérebro, pelas quais você dificilmente sairia sem sequelas?
É mágico, cara. Penso muito naquilo tudo que passei. Foi uma superação e depois disso ainda posso jogar futebol. Graças a Deus o problema foi superado, tive um tumor no cérebro, duas vezes. Um cavernoma. A complicação é que ele estourou, que foi como se eu tivesse tido um AVC. Passei por cirurgias para remover esse líquido e os médicos me davam uma porcentagem muito pequena de sair sem uma sequela que ocasionaria uma perda motora. Eu poderia nunca mais jogar bola. Eles falaram que o fato de eu estar sempre praticando atividade física me ajudou demais na recuperação. Em uma pessoa sedentária, por exemplo, o risco teria sido muito maior.