Conhecido no futebol capixaba, Wagner Nascimento está vivendo uma verdadeira “aventura” na África, como ele mesmo classifica. O técnico deixou o Espírito Santo em janeiro deste ano para trabalhar e ajudar a desenvolver o futebol de Ruanda, no Rayon Sports, como auxiliar técnico de Robertinho, que também já atuou no futebol capixaba.
Ex-preparador físico, Wagner virou treinador no Espírito Santo F.C., onde foi campeão da Copa Espírito Santo de 2015, vice-campeão capixaba em 2016 e campeão da Seletiva para a Série D do Brasileiro, também em 2016. Depois, comandou Vitória, em 2017, e Tupy, em 2018. Em busca de novas experiências, entretanto, o carioca topou o desafio no país africano, aos 49 anos.
“Está sendo uma aventura muito grande. Todo dia a gente aprende alguma coisa. Vou sair daqui com uma experiência enorme e um apanhado de vida muito maior do que quando eu saí do Brasil”, afirma ele, que tem a companhia de quem também conhece bastante o futebol capixaba e brasileiro”.
Roberto Oliveira Gonçalves do Carmo, o Robertinho, era atacante e foi campeão brasileiro com o Flamengo, em 1983, e campeão carioca duas vezes: com o time rubro-negro, em 1982, e com o Fluminense, em 1980. Depois, virou treinador e comandou o Rio Branco, em 2004, quando deixou o Brasil para trabalhar no futebol africano. Lá, antes do Rayon Sports, Robertinho comandou quatro times na Tunísia, além do ASA, de Angola.
No futebol de Ruanda, Robertinho e Wagner Nascimento vivem um bom momento no clube. E os números reforçam isso. O Rayon Sports está invicto há nove jogos, sendo oito vitórias e um empate. O time briga pelo título, ocupando a vice-liderança da primeira divisão nacional, com 44 pontos, quatro atrás do APR (Armée Patriotique Rwandaise Football Club). Os dois primeiros colocados ainda vão se enfrentar no returno do campeonato.
O Rayon Sports é o time de maior torcida do país e tem oito títulos do campeonato ruandês e nove da Copa de Ruanda. A equipe chega a atrair um público de até 15 mil pessoas em suas principais partidas. O clube foi fundado em 1968, apenas seis anos depois da independência do país, que ocorreu em 1962.
Ruanda se localiza na região centro-oriental da África e faz fronteira com Uganda, Burundi, Congo e Tanzânia. Em 1994, o país sofreu com um genocídio provocado por extremistas do grupo étnico hutus contra tutsis e hutus moderados, que ficou mundialmente conhecido e vitimou cerca de 800 mil pessoas. O genocídio aconteceu um ano antes do Rayon Sports conquistar seu sexto título da Copa de Ruanda e três anos antes do time levantar o troféu da liga pela quarta vez.
“Aqui o povo dá o seu jeito para poder sobreviver e viver feliz e é um povo muito festivo, gosta muito de dança, de música. E é um povo muito alegre, porque é a alegria que faz com que eles ultrapassem toda a tristeza que viveram e que eles ainda passam em alguns momentos”, comentou Wagner, que tem contrato até junho deste ano e pretende renovar ou trabalhar em outro clube no exterior.
De Kigali, capital de Ruanda, onde reside em um hotel, Wagner concedeu entrevista ao Tribuna Online.

Wagner Nascimento – No fim do ano passado, trocamos mensagens, e o Robertinho me perguntou se eu estava trabalhando e fez o convite. Quando ingressei no futebol, logo após trabalhar com divisões de base no Madureira/RJ, minha primeira oportunidade de trabalhar no nível profissional foi com ele. Trabalhamos juntos no Rio Branco/SP, depois no Fluminense, e agora poder retornar a trabalhar com ele, no âmbito internacional, é muito gratificante por ele ser um grande amigo e um ótimo profissional. O lado financeiro não é muito acima do que os clubes capixabas pagam, ao ponto de dizer que a minha saída foi pelo lado financeiro, mas sim pela perspectiva de novos horizontes.
E como está sendo esse trabalho com Robertinho? Tem aprendido algo com ele?
Como auxiliar técnico, você adquire uma vivência maior, e estar com um profissional como Robertinho, que tem dentro do continente africano um prestígio muito grande, está sendo de grande valia dentro desse projeto do clube Rayon, além de estar ampliando novos horizontes, aumentando network e conhecendo um mercado de futebol fora do País, o que vai me acrescentar muito para que eu possa, em oportunidades futuras, voltar a trabalhar como treinador. É uma vivência maior dentro de um patamar acima do que a gente pensa que é o do futebol capixaba. É uma oportunidade de aprender novas condutas com atletas, com diretores e como lidar com grandes públicos.
Você trabalhou muitos anos no futebol capixaba. O que há de semelhanças entre o futebol de Ruanda e o daqui?
Comparando com o futebol capixaba, o futebol daqui também é de muita força, muito contato, – o atleta tem que estar muito bem condicionado -, com intensidade boa e dinâmica muito alta. A qualidade técnica hoje está um pouco mais abaixo do futebol capixaba, porque são jogadores que não têm muita qualidade técnica, mas que demonstram interesse em estar evoluindo, e eu e Robertinho estamos aplicando trabalhos que priorizam essa parte técnica. Robertinho também foi feliz nas escolhas para formação do grupo, com jogadores com boa qualidade, para o time ter um padrão de jogo de trabalhar bem a bola e não trabalhar só com bolas longas, que alguns clubes daqui utilizam muito. O estádio vai ao delírio quando vê um time que toca bem a bola, e o jogador gosta de dar um drible, fazer um lance diferente, mas não é muito das características do futebol daqui. Outra semelhança é que temos estádios bons e estádios ruins. Os clubes aqui utilizam muito o (esquema tático) 4-3-3 e algumas variações para o 4-4-2. Nós estamos trabalhando o 3-4-3, variando para o 4-3-3.
E as diferenças?
A cultura de vestiário deles é um pouco diferente da nossa. Aqui não existe essa coisa do clube conduzir material. O atleta quando chega recebe todo o material e fica como responsabilidade dele (inclusive a lavagem). A gente só informa a cor que vai usar no treino ou no jogo. Depois dos jogos, os atletas também não têm o costume de tomar banho no vestiário, eles preferem se vestir e tomar banho em casa. A conduta de pré-jogo é a mesma, mas depois do aquecimento os times têm que sair do campo ao mesmo tempo.
Vi uma foto com um campo todo careca. Como é a estrutura do Rayon Sports, dos demais clubes e dos estádios?
Onde é a fábrica do nosso patrocinador tem um campo de grama natural muito bem cuidado, com uma área para os torcedores assistirem ao treino em um bar. A gente tem esse local à disposição e já está sendo desenvolvido um projeto para construção neste local de um alojamento e de um outro campo, e também estamos pedindo uma academia. Alguns jogadores aqui fazem musculação por conta própria, mas não é hábito deles aqui ter academia, mas tenho pedido isso depois da minha chegada. Quando tudo isso estiver pronto, o Rayon vai ser um dos clubes com melhores estruturas para treinamento. Já tivemos jogo contra um time que tinha subido para a primeira divisão, em um campo muito ruim, muito desnivelado, com falhas no gramado, mas isso não é o normal daqui. Em sua maioria, os campos dos estádios são bons, boa parte é de grama sintética, mas muitos de grama natural. Nós jogamos em um estádio de grama sintética, de qualidade muito boa. Existe também um outro estádio aqui com grama natural padrão Fifa.
A seleção de Ruanda nunca participou de uma Copa do Mundo. Acredita na evolução da liga nacional e do futebol de Ruanda? O Rayon Sports tem jogadores de seleção?
O nível técnico dos jogadores não é muito alto. A gente tem países como Angola, Camarões e outros que já disputaram Copa do Mundo ou já tiveram mais destaque em nível internacional, com jogadores renomados. Uma coisa que eu percebo é que quanto mais a condição que o país tem para exportar jogadores para o continente europeu, maior vai ser a capacidade daquele país de ter uma seleção melhor. Ruanda ainda não tem essa possibilidade. Teria que ter um investimento maior para a competição, ter um nível técnico maior, até exportando atletas para a Europa. E quando eles retornarem, ajudarem a seleção a ter um nível técnico maior. No nosso elenco, temos cinco atletas da seleção de Ruanda e um da seleção de Burundi.
Quais são os principais motivos de felicidade em seu trabalho aí? Tem dificuldades para se comunicar?
Conhecer uma nova cultura do futebol. Preciso me adaptar ao modo de trabalho deles aqui. Poder fazer com que eles tenham uma percepção maior e diferente. E quando isso dá resultado, eles dão confiança. Parte daqui do país fala francês e/ou inglês, então não estamos tendo dificuldades com isso. Vim para cá com inglês básico e estou tendo que me virar para desenvolver o idioma.
Eles admiram muito os brasileiros?
Eles têm muita admiração. Acompanham o futebol europeu e a seleção e admiram muito jogadores como Marcelo, Neymar, Roberto Carlos, Ronaldinho e Ronaldo Fenômeno.
Os atletas profissionais de Ruanda conseguem sobreviver apenas do futebol?
Não são tão bem remunerados, não tem aquela coisa de ser “superstar”, mas dentro do padrão que o país possui, eles têm uma média salarial boa e conseguem viver razoavelmente bem. Não temos nenhuma informação de outro atleta com outra atividade.
Como está sendo viver em Ruanda?
Está sendo uma aventura muito grande. Todo dia a gente aprende alguma coisa. Vivo em Kigali (capital de Ruanda), uma região montanhosa. Tem o turismo das montanhas, com visita aos gorilas. A fauna e a flora são muito exploradas aqui no turismo. Fica a 1.600 metros de altitude. Tem muitos vales. Aqui começa o dia com sol, depois chove e abre o sol de novo. A temperatuda varia entre 18ºC, 23º C, e de noite se você não levar um “casaquinho” você passa frio, porque sempre tem uma queda de temperatuda para 8º C, 10º C. Em nível cultural, você imagina que a África tem um povo sofrido, mas tem os dois lados da moeda. É um país que está em pleno desenvolvimento, principalmente Kigali, onde existe uma infraestrutura na região central da cidade muito boa. É organizada, tem urbanização bem planejada, é muito limpa e arborizada. Não tem muitas diferenças em relação ao Brasil. A questão alimentar não tem muita diferença. Eles comem frutas como a nossa e outras daqui, os hábitos alimentares não são diferentes, eles se alimentam muito bem. Moro em um hotel. Mas existem também a região de pessoas de baixa renda, cidadãos que têm necessidades e que passam por dificuldades, que é próximo ao local onde treinamos.
Tem alguma história curiosa de treinos, jogos ou bastidores?
Tivemos um jogo em uma cidade vizinha, onde o clube foi fundado. A cidade toda respira Rayon. O volume de pessoas com a expectativa de ver o time e o treinador era de se assustar. Muita gente na rua, no entorno do estádio e dentro do estádio. Pensei: ‘Caraca, como o povo aqui é apaixonado por futebol’. E o mais engraçado, o estádio não tem arquibancada. Todas as pessoas, em pé, aglomeradas, respeitando o limite apenas de uma corda que foi colocada. Achamos legal que as pessoas não saíram daquela área e respeitaram isso durante todo o jogo. Mas no fim do jogo todo mundo invadiu o campo e você se assusta com aquele volume de gente, mas eles só queriam tocar, falar e estar perto daquelas pessoas que para eles são ídolos. Sempre após os jogos que ganhamos, vamos em frente à torcida e fazemos uma celebração (batendo palmas), no ritmo do bumbo da torcida (como a seleção da Islândia).


