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Fisiologista capixaba é “o cara” do Botafogo para o sucesso do time na Libertadores

Capixaba Dailson Paulúcio e o atacante Rodrigo Pimpão. Foto: Vitor Silva/SSPress/Botafogo/Divulgação O futebol sempre foi um desejo na vida do ...

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Capixaba Dailson Paulúcio e o atacante Rodrigo Pimpão. Foto: Vitor Silva/SSPress/Botafogo/Divulgação

O futebol sempre foi um desejo na vida do capixaba Dailson Paulúcio, de 28 anos. Natural de Muniz Freire, cidade do sul do Estado que teve um time homônimo campeão capixaba em 1991, o fisiologista do Botafogo tinha o sonho de ser jogador. Fez testes no Cruzeiro e chegou a defender o tradicional Jardim Limoeiro, time de futsal que foi hexacampeão do Estado.

Mas foi pelo Itaperuna Esporte Clube, equipe da cidade onde passou a cursar Educação Física por ter conseguido uma bolsa através do futebol, que Dailson encontrou seu verdadeiro caminho.

Hoje, mestre em biodinâmica do desenvolvimento humano, ele é um dos responsáveis por levar as informações mais completas possíveis, através de equipamentos e a interpretação de resultados de testes, de cada jogador da equipe profissional ao técnico Jair Ventura.

“Tinha o sonho de ser jogador de futebol, não consegui, mas decidi ir para a área acadêmica e não tinha essa dimensão de que iria trabalhar com futebol no Botafogo”.

Em entrevista ao Tribuna Online, Dailson Paulúcio falou sobre sua trajetória e o dia a dia no Botafogo, que está a um empate de chegar às quartas de final da Libertadores.

TRIBUNA ONLINE – Como você chegou à fisiologia?

DAILSON PAULÚCIO – Desde que me conheço por gente, sou fanático por futebol. Em 2006 fui para a Unig, em Itaperuna (RJ). Lá eu juntava o útil ao agradável, fazia o curso de Educação Física porque tinha uma bolsa do clube onde disputei três campeonatos cariocas na categoria sub-20, o Itaperuna Esporte Clube. Na graduação, por incentivo do meu irmão que se formou em Agronomia na Ufes e trabalhava com pesquisa, comecei a seguir essa linha. Quis seguir na área de fisiologia do exercício, que era a disciplina que eu mais me identificava. Por sorte, encontrei um professor de fisiologia do exercício que hoje é um dos maiores pesquisadores no Brasil, em relação a marcadores de microlesão muscular. No terceiro período comecei a trabalhar com ele, onde eu publiquei meu primeiro artigo, no final de 2008, em uma revista chinesa. Realizamos uma pesquisa sobre o desgaste do músculo esquelético após o treinamento de força em atletas juniores, no clube onde eu jogava lá em Itaperuna.

E o que aconteceu depois que você se formou?

Finalizei o curso em 2009, licenciatura plena e bacharelado em Educação Física, e voltei para Muniz Freire. Lá, eu não larguei os laços com as pesquisas e comecei a trabalhar nas escolas públicas. Paralelamente, realizava algumas pesquisas. Mesmo com pouca estrutura no interior, a gente começou a verificar a influência no desgaste físico das pessoas em academia, no qual fazíamos várias coletas de sangue, utilizando creatina quinase (CK), vendo se havia dor tardia muscular, e a gente começou a estudar bastante esses marcadores de microlesão mesmo sendo na academia. Algumas vezes a gente pagava as análises, outras vezes a prefeitura bancava algumas análises bioquímicas. É bem interessante que, nessa época, consegui várias publicações em vários países: Itália, Polônia, Estados Unidos, tudo com parceria de pesquisadores bem conceituados no mundo. Conseguimos produzir ciência em artigos que são citados até hoje em literatura da área. Com pouca estrutura, já começava a estudar sobre esses marcadores de microlesão muscular. Isso foi muito importante na minha entrada para o Botafogo.

Como você chegou ao Botafogo?

No final de 2011, fiz um concurso de mestrado para a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e fui aprovado. Consequentemente, vim morar no Rio de Janeiro e, no laboratório de biometria, estou vinculado até hoje e faço doutorado, conheci muita gente do futebol. Um dos fisiologistas do Botafogo entrou para o clube em 2015, Manoel Coutinho. Devido ao meu conhecimento pelas linhas de pesquisas, principalmente à reação de dano muscular pela CK, que é uma das principais ferramentas utilizadas para conferir o desgaste após os jogos, ele me pediu ajuda para analisar os dados da CK e criei uma ferramenta individualizada na qual a gente conseguia identificar os atletas que estavam mais fadigados. Passava esse retorno para ele. Consequentemente, esse conhecimento que tive de CK foi determinante para entrar no Botafogo. Comecei a adquirir um vínculo com o clube pelas análises. Ele coletava o sangue e eu mandava uma análise dos dados. Depois o Botafogo começou a adquirir novos equipamentos e o Manoel conversou com a direção para me contratar pela grande demanda com GPS, análise de termografia, etc. Então, ano passado comecei a trabalhar no clube.

Fisiologista Dailson Paulúcio em monitoramento de carga de treino. Importante para detectar intensidade dos atletas. Foto: Twitter @BotafogoOficial/Divulgação

Qual a importância da ciência para o futebol?

Um dos meus objetivos de vida é conseguir produzir ciência no futebol. Futebol não é ciência, mas a ciência pode ajudar muito o futebol. Pode melhorar a performance dos atletas, tentar retardar algumas lesões e, meu objetivo maior, é conseguir produzir ciência no futebol brasileiro. Ela precisa evoluir muito aqui. Inglaterra, Espanha, Alemanha, temos mais informações. Aqui não. A gente não sabe a demanda física do Brasileirão. Se a gente entrar no banco de dados internacional, não acha um trabalho relacionado a GPS, controle de carga de jogo, verificando a performance em diferentes posições, mas na Europa sabemos tudo. Quanto corre um lateral, quanto que um zagueiro sobe, enfim. Pretendo conseguir publicar esse artigo sobre a demanda física do Brasileirão.

Clique aqui e leia a primeira parte da série especial multimídia “Ciência em alta no futebol”, com a participação de Dailson Paulúcio

Como é o trabalho do departamento de fisiologia do Botafogo?

Temos alguns pilares no departamento de fisiologia. Temos a função de avaliar o atleta, ver o nível de condicionamento que ele se encontra, avaliar o ponto de vista de diagnóstico, de fadiga… Temos ferramentas no clube de análise bioquímica do sangue, análise de força através do isocinético, diagnóstico através da termografia, e a gente tenta juntar isso tudo e dar uma informação objetiva ao técnico. Pelo Jair ter o curso de Educação Física, a conversa fica mais fácil. Ele entende muito bem a importância. Porque às vezes, a gente tem um atleta que está muito desgastado em vários parâmetros. Respeitando isso, a gente tenta atenuar para um problema maior. Se ele fica lesionado, fica mais tempo parado e isso não é interessante para o clube. Claro que a gente não acerta sempre, mas procuramos sempre atender essas possibilidades.

Dailson e Montillo. Foto: Arquivo pessoal

Qual é a rotina no clube?

Após uma partida, no dia seguinte, os atletas que jogaram no mínimo um tempo (45 minutos mais acréscimos), têm que fazer a seguinte rotina: chegam, informam as escalas subjetivas (Percepção Subjetiva de Esforço) de dor, de cansaço, como estão se sentindo, o quanto dormiram à noite… Em seguida vão para as avaliações de análise de sangue (CK) e da termografia, e depois vão para o médico, em uma avaliação geral. Feito isso, ou ele vai para a fisioterapia, ou um trabalho de recuperação ativa, ou seja, academia ou no campo com intensidade baixa, tentando acelerar esse processo de recuperação. É uma ferramenta para você tentar recuperar, fazendo um exercício leve. Depois disso, normalmente usa uma bota de compressão, na perna toda, de cima para baixo e de baixo para cima, tipo uma massagem. Temos também um sistema de contraste, de gelo e banheira quente, mesclando, além de uma eletroestimulação. Os atletas não atuaram ou jogaram menos de um tempo, fazem um trabalho mais forte no campo para tentar normalizar a carga semanal de trabalho, comparado aos atletas que jogaram. Do ponto de vista geral, é essa rotina. Dois dias depois do jogo, ele faz os mesmos procedimentos. O tempo de recuperação vai de 48 a 72 horas. No terceiro dia, onde normalmente é véspera de jogo, alguns atletas são reavaliados e, se liberados pelo departamento médico, fazem um treinamento leve, de bola parada, posicionamento com o técnico.

Veja a segunda parte da série especial multimídia “Ciência em alta no futebol”

E fica mais fácil com o fato do Jair Ventura ser formado em Educação Física…

Nosso trabalho fica facilitado por ter profissional técnico capaz de entender por ser da área. Em determinadas situações, um atleta que é importante para um jogo importante, não tem como tirar o atleta por ser decisão, de repente. Nesses casos, a gente entende o treinador. Pode não ter uma peça de reposição à altura e leva o atleta devido à importância da competição. A fisiologia ainda trabalha com processo de recuperação. A parte de suplementação com nutricionista é essencial, então, o trabalho em conjunto é muito importante. Com fisioterapia, departamento médico, conseguimos ter essa interação dentro do clube.

Dailson (de óculos) com outros funcionários do Botafogo em jogo do Brasileirão na Arena Corinthians. Foto: Arquivo pessoal

Como é o trabalho de recuperação em curto espaço entre um jogo e outro?

O Brasil é um país continental e o atleta pode enfrentar distâncias, diferenças de clima, não dorme em perfeitas condições, viaja, treina, e logo tem outro jogo. Essa logística dificulta muito. Quando tem dois jogos por semana, o número de lesões é seis vezes maior quando tem um jogo só. Sabemos que o futebol é de grandes fins lucrativos, mas do ponto de vista fisiológico, a gente atenua para um problema que vai ocorrer. Cada atleta enfrenta a situação de uma forma diferente pelo seu perfil biológico. É difícil lidar com um calendário tão cheio como o brasileiro. O Botafogo hoje disputa três competições ao mesmo tempo. Quem tem um elenco maior e qualificado, leva vantagem nesse ponto.

O Botafogo tem sido forte na Libertadores, dentro e fora de casa, e bateu campeões continentais ainda na fase preliminar. A pré-temporada em Domingos Martins durou menos de 10 dias. Como foi o planejamento para chegar êxitos como a vantagem no jogo da volta para avançar às quartas de final, fase atual do torneio?

A gente não teve um tempo hábil para uma pré-temporada e não tinha tempo para errar. Já pegamos jogos difíceis na Libertadores, a performance dos atletas correspondeu, eles entenderam bem nossa metodologia e ainda bem que deu tudo certo. Mas, as condições ideais a gente não tinha. Não podíamos errar a carga do treino e não tinha como errar na recuperação dos atletas. Tentamos atenuar o desgaste físico deles porque no início da temporada é maior e isso foi determinante. Nosso sistema de jogo precisa da parte física. A equipe que tem mais posse de bola corre menos. Nosso sistema de jogo tem marcação forte e consequentemente isso foi determinante para termos sucesso. Esse controle foi fundamental para o sucesso nesse período.

Reportagem de Acácio Rodrigues

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