Uma das seleções com menor tradição no futebol entre as que disputam Mundial Sub-17, o Tajiquistão — país do tamanho do Amapá — foi a surpresa da primeira rodada ao vencer Camarões por 1 a 0 no Kleber Andrade.
Nesta quinta-feira (31), a equipe asiática foi goleada por 5 a 1 pela Espanha, mas segue viva na competição. Para fazer um bom papel no torneio, a seleção tajique tem o reforço de um super-herói de desenho animado que tem ligações com o Brasil.
No banco, uma das ex-repúblicas soviética conta com a experiência do auxiliar técnico japonês Musashi Mizushima, de 55 anos, ex-atacante do São Paulo entre as décadas de 1970 e 1980.
Ele serviu de inspiração para a criação do desenho animado “Captain Tsubasa”, que fez muito sucesso no Brasil nos anos 1990 com o nome de “Supercampeões”.
Mizushima é considerado o primeiro grande jogador japonês da história. E sua passagem pelo Brasil fez dele a inspiração para o ilustrador Yoichi Takahashi criar o personagem Oliver Tsubasa, protagonista da animação, um garoto que sonha em ser jogador de futebol, disputar uma Copa do Mundo pelo Japão e que vem para o Brasil jogar no São Paulo.
Mizushima chegou ao País em 1975, aos 11 anos, para atuar na escolhinha do São Paulo. Subiu para o time principal em 1985 com jovens que formariam os “Menudos do Morumbi”, como Müller, Silas, Sidney e Vizolli. Fez parte do elenco campeão paulista de 1985, mas teve pouco espaço no time que tinha Daryo Pereira, Falcão e Careca.
Do Morumbi, ele foi jogar por São Bento, Portuguesa e Santos, até voltar para o Japão em 1989, jogando no Hitachi FC (atual Kashiwa Reysol) e Yokohama Flugels, e encerrar a carreira precocemente em 1992.
Em 2010, ele voltaria ao Brasil para trabalhar como auxiliar técnico de Doriva no Ituano.
Em entrevista exclusiva para o Jornal A Tribuna, o “Capitão Tsubasa” da vida real se declarou ao Brasil e afirmou que gostaria de ficar no País após o Mundial caso recebesse um convite para treinar alguma equipe. E se interessou pelo futebol capixaba: “Adoraria ficar aqui e treinar um time capixaba”.
O Tajiquistão se tornou um país independente em 1992 e nunca disputou uma Copa do Mundo adulta. A seleção está em um Mundial Sub-17 pela segunda vez.
ENTREVISTA – Ídolo no Japão por jogar no Brasil
Musashi Mizushima Capitão Tsubasa dos Supercampeões

Musashi Mizushima — Os japoneses sempre foram fãs do futebol brasileiro. Meu pai tinha amizade com brasileiros e, através de conhecidos, a gente conseguiu vir para o Brasil. Fui indicado para a escolhinha do São Paulo porque era a base mais moderna na época. Minha família veio e acabei ficando, de 1975 até 1989. Meu primeiro time profissional foi no São Paulo.
Na base do São Paulo, o senhor atuou com muitos jogadores que se tornaram famosos…
Eu subi para o profissional junto do Silas, Müller, Vizoli. Nos juntamos a veteranos como o Oscar, que era o capitão, e tinha ainda o Falcão, Careca… era um grande time.
Com surgiu essa história do desenho Capitão Tsubasa?
O público japonês acompanhava de perto notícias da minha passagem pelo futebol brasileiro, e por isso eu era bem conhecido por lá. Quando o desenho foi lançado (primeiro em revista em quadrinhos, nos anos 80, e depois em animação, na década de 90), eu não sabia que o personagem era inspirado em mim. Só fiquei sabendo depois, quando o criador (Yoichi Takahashi) comentou. Acho que ele pegou só a história, porque o Oliver não parece comigo (risos).
Como foi o início da carreira fora dos gramados?
Parei de jogar aos 29 anos por causa de lesões. Primeiro trabalhei na televisão japonesa como comentarista da J-League (Campeonato Japonês), depois fui técnico na base do Yokohama e no time principal do Fujieda.
E como surgiu o convite para trabalhar no Tajiquistão?
Trabalho na Federação Japonesa, que tem parceria com outras federações para fazer intercâmbio de profissionais. Em 2018 fui técnico do sub-19 do Camboja. Neste ano, eu fui indicado para ajudar o Tajiquistão no Mundial Sub-17.
Como é o seu trabalho na equipe tajique?
Não sei falar o idioma, mas a gente tinha um intérprete à disposição. Só que ele acabou não vindo para o Brasil e me deixou aqui tendo que tentar falar com o pessoal em inglês (risos). Faço a parte de direção tática, ajudo nos treinos.
O que você pretende fazer após o fim do Mundial?
O contrato termina no fim do ano. Quero seguir como técnico. Pode ser no Japão, ou até aqui no Brasil. Adorei o Espírito Santo, não conhecia Vitória. Cidade boa, praias bonitas. Se surgisse um convite de um time daqui eu adoraria. Se eu tiver uma folga, gostaria de ir ver um jogo do futebol capixaba.
Como é o futebol tajique?
Os tajiques são fanáticos. Os jogos da seleção principal são sempre em estádios lotados. Existe uma euforia com os resultados das categorias de base. O país tem apoiado a gente aqui no Mundial.
Alguns são-paulinos capixabas foram ao hotel encontrá-lo. Como é esse reconhecimento?
Fico feliz por me reconhecerem após tantos anos. Tenho grande paixão pelo São Paulo, por tudo que eu passei aqui no Brasil. Fiz muito amigos e fiz contato com muitas pessoas aqui. Está sendo um prazer voltar ao Brasil.

