Fundado por um grupo de pescadores da Praia do Canto, em 6 de janeiro de 1929, o Centenário Futebol Clube disputou campeonatos amadores de Vitória e até mesmo a primeira divisão do Capixabão, entre as décadas de 30 e 50. Mesmo após deixar o futebol de lado, o clube continuou uma referência de diversão por conta das festas realizadas na sede, na rua Major Clarindo Fundão.
Essa rica história serviu de inspiração para a arquivista Leila Valle catalogar no livro “Inventário do acervo do Centenário Futebol Clube” documentos, como atas de reuniões, convites, ofícios, recortes de jornais, além de fotos. O lançamento será na quinta-feira (21), às 19 horas, na Biblioteca Municipal de Vitória.
A autora explicou que o livro é uma publicação técnica para pesquisas e a ideia de escrevê-lo começou, há alguns anos, depois que ela viu uma matéria com o ex-presidente do clube, Fernando Barbosa, na qual ele falava da paixão pelo Centenário, presidido por ele por duas décadas.
“Além da área esportiva, o clube participou de competições de corrida de rua e remo. Tinha uma questão de história e de cultura. Foram dois anos de trabalho”, revelou Leila.
O clube foi fundado com esse nome em homenagem ao centenário da Independência do Brasil, que ocorreu sete anos antes da criação do clube.
Com a proposta de resgatar e preservar a história do clube e da capital capixaba, o livro terá distribuição gratuita para o público que comparecer ao lançamento.
Mais de 70 anos dedicados ao Centenário
Fernando Barbosa tem hoje 84 anos e, destes, mais de 70 foram destinados ao Centenário. O aposentado contou que sua relação com o clube começou ainda aos 8 anos, quando ele começou a jogar futebol no time.
Dentro de campo a dedicação foi tamanha que custou a ele o joelho direito.
“Eu jogava com a camisa 8. Em um jogo no Dia das Mães, escapei pela beira do campo, entrei na área e o goleiro veio na minha direção. Chutei a bola com toda a minha força. Bati o joelho na bacia do goleiro. Quebrei meu joelho e o goleiro rachou a bacia. Minha mãe estava no campo nesse dia. Foi meu último gol pelo Centenário”, relembrou Fernando.
Na época, ele tinha 21 anos e, após a lesão que o tirou dos gramados, ele foi convidado para fazer parte da secretária do clube. Assim, teve início a segunda fase da relação entre Fernando e o Centenário. Depois de ser secretário, o aposentado foi presidente em algumas oportunidades e, atualmente, é conselheiro.
Craques revelados no Centenário
Além de atuar na primeira divisão do Capixabão, o Centenário disputou ligas amadoras, como a Liga Suburbana de Vitória, que era o campeonato de acesso à elite, na época – disputado por times amadores, o campeão ganhava uma vaga na série A do ano seguinte.
Fernando, saudosista, se derrete ao lembrar da época em que o clube disputava competições de futebol com seu uniforme verde e amarelo.
“O melhor gramado do Estado do Centenário. A seleção capixaba treinava lá”, afirmou.
O time teve três campos. O primeiro, recordou Fernando, ficava onde hoje é a Emescam. O segundo na avenida Rio Branco, na Praia do Canto. Já o último, onde ele quebrou o joelho, ficava em um terreno entre, atualmente, estão a Rádio Espírito Santo e um hipermercado. Por esses gramados, craques foram revelados.
“Uma das maiores revelações, que começou como garoto no Centenário, foi o Gabiru, Adjalma e Celso. Todos eles jogaram no Centenário e, depois, foram para Rio Branco, Desportiva e Vitória. Tínhamos um dos melhores goleiros de Vitória, que era o Mazinho. O reserva dele era nada mais nada menos que Adjalma, que jogou na Desportiva e foi goleiro da seleção capixaba. Nosso goleiro defendia melhor que Adjalma. Não tinha lugar para o Adjalma e ele jogava como volante”, revelou Fernando.
Rivais barrados no baile
O ex-editor de Esportes do Jornal A Tribuna, Oscar Junior, o Boquinha, enfrentou várias vezes o Centenário quando atuava no Itaúna, rival de bairro. Outra rivalidade na Praia do Canto era contra o Santa Cruz.
Boquinha contou que, embora adversários dentro de campo, os garotos se conheciam e curtiam festas e praia juntos. Mas isso era proibido em semana de clássico.
“A amizade era total fora de campo, mas dentro era rivalidade. Semana de clássico, não podíamos ir aos bailes nos clubes. Se ganhássemos o jogo, era um mês sem poder entrar no baile nos clubes dos rivais. Éramos barrados. E tinha umas meninas que queríamos pegar, mas, se nós ganhássemos não podíamos, porque os pais não nos deixavam entrar na festa. Tínhamos que perder para pegar as garotinhas”, brincou.
Serviço
Lançamento do livro “Inventário do Acervo do Centenário Futebol Clube”
Quando: quinta-feira (21), às 19 horas
Onde: Biblioteca Pública Municipal Adelpho Poli Monjardim – Casarão Cerqueira Lima, localizado na rua Muniz Freire, 23, Cidade Alta, Centro de Vitória
Aberto ao público