
Após uma batalha dentro do governo para definir o futuro do acordo sobre o programa nuclear do Irã, o presidente Donald Trump anunciou nesta sexta-feira (13) que não reconhecerá o cumprimento dos compromissos por Teerã, jogando para o Congresso a responsabilidade de manter vivo o tratado.
Trump quer que os parlamentares aprovem mudanças no ato de revisão do acordo, estabelecendo novas exigências ao Irã, cujo descumprimento seria um “gatilho” para a retomada imediata das sanções. “No caso de não sermos capazes de alcançar solução com o Congresso e nossos aliados, então o acordo será extinto”, disse o presidente.
Segundo ele, o regime iraniano cometeu “múltiplas violações” ao acordo assinado em 2015 entre Teerã e o grupo de países conhecido como P5+1 (EUA, Reino Unido, França, Rússia, China e Alemanha). O país teria, por exemplo, “intimidado” inspetores internacionais a fazer vistoria menos abrangente do que o fixado no acordo.
No último mês, contudo, o comandante do Estado-Maior das Forças Armadas, general Joseph Dunford, havia dito que o Irã estava cumprindo sua parte no tratado. Os secretários de Estado, Rex Tillerson, e de Defesa, Jim Mattis, defendiam que os limites estabelecidos pelo acordo atendiam aos interesses da segurança nacional dos EUA.
Pressões internas e externas contribuíram para que Trump não tomasse uma decisão mais extrema contra o que chamou de “pior e mais desequilibrada transação da qual os EUA já fizeram parte”.
Agora, o Congresso tem três opções: não fazer nada -o que Trump anunciou que fará com que ele aja de forma unilateral-, retomar as sanções ou tentar aprovar as novas exigências, como sugerido pelo presidente.
Entre os “gatilhos” considerados pela Casa Branca estão o eventual prosseguimento dos lançamentos de mísseis balísticos pelo Irã e a possível conclusão, pela inteligência americana, de que o país pode produzir uma arma nuclear em menos de um ano.
Outro ponto que Trump quer ver contemplado é a revisão da cláusula que prevê que, a partir do oitavo ano do acordo (2024), as restrições ao programa nuclear do Irã comecem a ser retiradas, até o tratado completar 15 anos. “Não vamos continuar no caminho cuja conclusão previsível é mais violência, mais terror e a ameaça muito real do sucesso nuclear do Irã”, disse o presidente.
Aprovar uma nova legislação sobre o acordo iria exigir 60 votos no Senado, o que significa que os republicanos precisarão de pelo menos oito votos democratas.
Em teleconferência com jornalistas, Tillerson reconheceu que a tarefa não será fácil e que Trump “não está particularmente otimista”. “Podemos ter sucesso, mas podemos não conseguir consertá-lo e acabar fora do acordo. Mas acho que, melhor do que apenas sair, ele está dizendo ‘vou tentar mudar o que acho deficiente no acordo”, afirmou o secretário.
A decisão de Trump foi recebida com apreensão pelos parceiros europeus no acordo. Em nota conjunta, a primeira-ministra britânica,Theresa May, a chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente francês, Emmanuel Macron, reforçaram seu compromisso com o tratado e instaram o governo e o Congresso americanos a “considerar as implicações para a segurança dos EUA e de seus aliados antes de tomar qualquer decisão que possa minar” o texto.
O presidente iraniano, Hassan Rowhani, disse que o acordo nuclear é “muito mais forte” do que o que Trump sugere e que seu país “continuará respeitando-o”, mas que pode mudar de ideia.
Israel e Arábia Saudita, que veem no Irã um inimigo e uma ameaça celebraram o anúncio. O premiê israelense, Binyamin Netanyahu, disse que a decisão cria “uma oportunidade para consertar esse acordo ruim”.
O anúncio sobre o acordo fez parte de um pronunciamento sobre a nova política do governo Trump, que “tem como foco neutralizar a influência desestabilizadora do governo do Irã e frear sua agressão, particularmente seu apoio ao terrorismo”.
Trump também disse que vai impor sanções à Guarda Revolucionária Iraniana por apoiar o terrorismo. Segundo o Departamento do Tesouro, a unidade militar apoia a força expedicionária Quds, atividades do Hizbullah e do Hamas e o regime do ditador sírio Bashar al-Assad.
ISABEL FLECK (FOLHAPRESS)