Hoje, às 8h46, familiares de 2.977 vítimas começarão a ler os nomes dos mortos no maior ataque terrorista em solo americano, nos 20 anos do 11 de Setembro. Será o primeiro de vários eventos pelo país.
Por 102 minutos, o tempo transcorrido entre o primeiro avião atingir a torre norte do World Trade Center e este prédio desabar, após o colapso da torre sul, Nova Iorque irradiará um momento de união volátil em um país dividido.
A polarização política, fruto de anos de distanciamento do centro dos partidos Democrata e Republicano e da radicalização do segundo, exacerbada pela passagem de Donald Trump pela Presidência americana (2017-2021), dá seus frutos também na pandemia.
Apesar de contar com vacinas contra a covid suficientes para inocular três vezes sua população inteira de 328 milhões de pessoas, os EUA estacionaram nos 54% dos vacinados com o esquema completo e nos 63% com uma dose.
São 658 mil mortos em decorrência do coronavírus. Só na cidade de Nova Iorque, a semana de 5 de abril de 2020, a mais letal até agora, matou 5.319 residentes, ou quase duas vezes os mortos no World Trade Center.
A estagnação na vacinação e o consequente aumento nos números de casos de infectados com a disseminação da variante delta fizeram o governo de Joe Biden apertar o torniquete em medidas de obrigatoriedade de vacinação – como as anunciadas na quinta-feira, que atingem 100 milhões de americanos. Os republicanos prometem processar o presidente democrata por elas.
A situação não é melhor no front externo. A homenagem de hoje acontece semanas depois de uma saída desastrosa dos americanos do Afeganistão, 20 anos depois de uma guerra que custou US$ 2,3 trilhões e devolveu o país ao mesmo grupo que o comandava antes, o Talibã, que dava guarida a Osama bin Laden, o casus belli original.
Pesquisa conduzida por ABC News e The Washington Post mostra que 49% dos americanos se sentem hoje mais seguros em relação a ataques terroristas que antes do 11 de Setembro. Há dez anos, a porcentagem era de 64%.
Força da união é a lição central, afirma Joe Biden
“Em nosso estado mais vulnerável, no balanço de tudo que nos faz humanos, na batalha pela alma dos EUA, união é nossa maior força”, afirmou o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, em uma mensagem a parentes e amigos das vítimas dos atentados de 11 de Setembro de 2001, divulgada ontem.
No vídeo, o presidente lembrou as 2.977 pessoas, de mais de 90 países, mortas naquele dia, além dos milhares de feridos, e ofereceu honras “a todos aqueles que arriscaram e deram suas vidas nos minutos, horas, meses e anos seguintes”.
Biden reconheceu que mesmo após duas décadas ainda é muito difícil para “crianças que cresceram sem pais, pais que sofreram sem seus filhos, maridos e esposas tiveram que encontrar caminhos em suas vidas sem seus parceiros”, além de outros parentes e amigos dos que perderam as vidas naquele dia.
Mas ressaltou que a coragem dessas pessoas é inspiradora e disse que, ao redor do mundo, ainda hoje pessoas que sofrem encontram nesses americanos exemplo e um incentivo para se reerguerem e seguirem adiante também.
O presidente contou a história do amigo Davis, que perdeu um filho de 15 anos no ano 2000, e tinha outro trabalhando no 104º do World Trade Center em 11 de Setembro. Segundo Biden, ao saber que ele faria uma palestra sobre os novos tempos pós-atentado para universitários, Davis deu a ele um recado: “diga para que tenham coragem”.
Biden, que era senador em 2001, lembrou do que aconteceu após os atentados e de que era possível ver “heroísmo em todos os lugares, união e resiliência”.
Outro efeito, lembrou, foi o de que a “geração de 9/11”, como chamou, se apresentou em peso para servir às forças armadas e “mostrar a todos que se você busca ferir os EUA iremos caçá-lo e fazê-lo pagar por isso. E isso nunca vai parar”.
O presidente destacou a união. “Vimos uma nação unida envergar. Aprendemos que a união é a única coisa que nunca deve se quebrar. A união é o que nos faz sermos o que somos: os EUA em seu melhor. Esta é a lição central de 11 de setembro: é que em nosso estado mais vulnerável, no balanço de tudo que nos faz humanos, na batalha pela alma dos EUA, união é nossa maior força”, concluiu.
Traumas e doenças afetam milhares após os atentados
Para milhares de pessoas nos Estados Unidos, as consequências dos ataques seguem presentes no dia a dia e, muitas vezes, na saúde. Além do trauma de testemunhar os atos e as mortes, quem estava em Nova Iorque ficou exposto à nuvem tóxica do desabamento.
A poeira e a fumaça carregavam substâncias nocivas, como combustível, cimento, gesso, amianto, fibras de vidro e metais pesados.
Desde então, 1.510 pessoas que tinham diagnóstico de câncer morreram, assim como 1.571 que tinham doenças como sinusite crônica, refluxo gastroesofágico e asma. Entre os vivos, atualmente há 47,3 mil diagnósticos de doenças aerodigestivas, 22,2 mil de câncer e 19 mil de doenças mentais.