“Mais uma música de amor, será que precisa?” O pensamento tão autocrítico quanto pertinente foi o que barrou Tim Bernardes de compor abertamente sobre os próprios sentimentos durante anos. Enquanto líder d’O Terno, ele inventa histórias amalucadas ou reflete sobre o mundo a seu redor, só que, no último mês de setembro, pegou de surpresa fãs e gente que nem conhecia seu trabalho com Recomeçar, um disco que é solo não apenas na assinatura – é uma obra sobre a solidão, feita quase inteira por uma única pessoa. É também um álbum tão íntimo e (des) apaixonado que revelou uma faceta emocionalmente vulnerável pouquíssimo conhecida de Bernardes.
Mas, para seu autor, e para os fãs mais atentos, Recomeçar não é exatamente novidade. Ele começou a trabalhar na leva de canções que acabaria no disco solo por volta de 2013, antes do segundo e autointitulado LP d’O Terno. Desde então, ele foi deixando “dicas”, espalhadas pela discografia da banda, do que estava indiretamente preparando. Faixas como “Eu Vou Ter Saudades” (O Terno, 2014), “Vamos Assumir” e “Minas Gerais” (ambas de Melhor do Que Parece, 2016) chegaram a figurar nas tracklists de Recomeçar rascunhadas por Bernardes nos últimos anos. “Foi só no terceiro disco que eu fiz uma lista das músicas que eu tinha, separei-as e me liguei que o álbum solo já estava meio pronto”, revela. “Ficou mais uma questão de quando eu ia ter um tempo para gravar – e calhou de ser no começo deste ano.”
Melhor do Que Parece, o mais recente trabalho d’O Terno, abriu algumas portas para a chegada de Recomeçar. “Eu ainda não bancava o nível de exposição”, confessa, falando de quando começou a trabalhar nas canções solo. “É mais fácil você fazer uma música ‘freak’, como as d’O Terno, que são esquisitas e geram estranhamento, mas você tem uma persona para se esconder atrás. Sempre quis tratar de coisas improváveis, mas aí comecei a me ligar que não tem problema falar da ‘história mais velha do mundo’: amor, desilusão. O Melhor do Que Parece foi importante para perder o medo e o fato de as pessoas terem curtido as [músicas] ‘mais coração’ deu um pouco de coragem também.”
“Volta”, uma das “mais coração” e mais queridas do álbum d’O Terno, tem toda a atmosfera do LP solo, com uma diferença crucial. “Cara, o Melhor do Que Parece é certamente um disco ‘in love’. Claramente, eu estava namorando, sabe?”, ri, evidenciando o fato de que Recomeçar é uma obra sobre separação. “Até dá para interpretar assim, mas, em ‘Volta’, na real, ela estava viajando, sabe? Para mim, é uma faixa sobre amor correspondido. Na hora de mixar [oRecomeçar], eu já estava sozinho de novo”, recorda. “Foi meio foda, porque eu ficava ouvindo essas músicas tristes pra caralho o dia inteiro [risos]. Às vezes eu estava focando em um violino, concentrado, e de repente: ‘Nossa, olha o que eu estou cantando! Que bosta, que bad’.”
“Não gosto de ouvir com as pessoas, prefiro que elas ouçam sozinhas, fico meio constrangido até”, Bernardes admite sobre Recomeçar. Até pelo caráter pessoal, ele preferiu realizar o álbum por conta própria, com a ajuda de amigos apenas para a inclusão de harpas e cordas e do produtor Gui Jesus Toledo, amigo de longa data e espécie de “parceiro de crime” – pois as sessões foram quase “secretas” – nos três meses que o cantor passou em estúdio registrando quase tudo que é ouvido no disco. O processo solitário não só casou com a emoção das canções, como é sentido até nos silêncio das gravações. “Gravamos com ganho alto, dá para ouvir até a baba, sabe?”, ele explica. “Queria que fosse assim.”
