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Batendo um bolão, aos 73

Por: Luiz Trevisan (*) Houve um tempo em que o País quase parava aguardando um disco novo do Roberto Carlos. Agora, quase ninguém para por causa do ...

Batendo um bolão, aos 73
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Por: Luiz Trevisan (*)

Houve um tempo em que o País quase parava aguardando um disco novo do Roberto Carlos. Agora, quase ninguém para por causa do disco de quem quer que seja, porém no caso de ”Caravanas”, novo trabalho de Chico Buarque, pode-se dizer que enquanto os cães ladram o nosso maior cronista musical passa jogando pérolas, mesmo que não sejam percebidas ou resultem em polêmicas.

É o caso de “Tua Cantiga”, primeira faixa logo na mira da patrulha do politicamente correto, juntamente com o bloco que mistura questões paralelas relacionadas às posições políticas do autor. O machismo atribuído à letra surge quando escancara: trocaria mulher, filho e família para ficar com a amante. O próprio autor pôs um acorde final ao considerar que é melhor assumir do que fazer como muitos, que preferem manter mulher, filhos, família e amante ao mesmo tempo.

O falatório desviou a atenção para outras preciosidades da letra, tipo “basta soprar meu nome com teu perfume pra me atrair”, “pisando em plumas, toda manhã eu te despertarei” ou “terei ciúme até de mim, no espelho a te abraçar”.  Na sequência, “Blues pra Bia” mostra o compositor mexendo com a troca de gêneros tão em voga: “Eu fiz este blues pra Bia, mas Bia não vem me ouvir”, concluindo, após perceber que Bia talvez queira lhe avisar que meninos não têm lugar em seu coração: “Até posso virar menina, pra ela me namorar”.

E Chico outra vez revisita o futebol, paixão antiga, com “Jogo de Bola”, quando num samba enviesado lembra de Marias-chuteira e exalta que “em priscas eras um Puskás eras, a fera das feras da esfera”, lançando para arquibaldos e geraldinos versos de efeito sobre o grande astro da seleção húngara de 1954.  O disco enfileira harmônicas parcerias familiares, “Massarandupió” (Chico Brown, neto), adornada de cordas e sopros, engata um belo “Dueto” com a neta Clara Buarque, e chega até Havana, na viagem abolerada de “Casualmente”, parceria com Jorge Helder.

Ali, derrama-se em recuerdos capazes de agradar até coxinhas, que vivem acusando o compositor de mortadela: “Não voltará nunca mais/a canção sentimental/que casualmente em Havana escutei a cantar/uma mulher”. Alimenta a esperança de regressar, percorrer as ruas em busca da mulher, do bolero, do crepúsculo na catedral. E conclui “que o mar de Havana é o mesmo, porém não é igual”.

Coincidência ou não, nas diferentes matérias publicadas por grandes jornais sobre o disco, pouco ou nada sobre o passeio sonoro do compositor por Cuba, de onde nunca escondeu a admiração pelo regime dos irmãos Castro apontando os avanços sociais da ilha. A omissão à faixa parece premeditada, sinal de que o bloqueio contra Cuba não é apenas no campo econômico.

E após o envolvente samba-canção “Desaforos”, Chico Buarque chega aos finalmente exibindo a faixa-título “Caravanas”, recheada de personagens do nosso cotidiano insano. Vai dos refugiados abarrotados em caravelas, passa por crioulos empilhados na prisão e chega aos suburbanos muçulmanos do Jacarezinho, com suas sungas estufadas, “e seus sacos são granadas”. Arremata que “a culpa deve ser do sol, que bate na moleira, o sol”, como que a apontar que, mesmo com tantas caravanas, não há nada de muito valioso atravessando por esses desertos sombrios.

Pode não ser este o melhor disco do compositor, que virou cantor evoluindo bem nesse ofício, e que no início da carreira chegou a ser uma rara unanimidade nacional nos tempos de “A Banda”, que todos queriam ouvir, até os militares do poder. Mas, a esta altura do campeonato, aos 73 anos, Chico Buarque continua batendo um bolão na música.

(*) Luiz Trevisan é jornalista e compositor.

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