por: Luiz Trevisan
“O que eu posso garantir é que atravessar todas as páginas de ‘Grandes Sertões: Veredas’ é assim como escalar uma montanha”
Das duas ou três coisas que sei bem a respeito do romance “Grandes Sertões: Veredas”, as mais reveladoras são de que se trata de uma obra muito mais comentada do que lida. E àquele que conseguir ultrapassar o tijolo de mais de 600 páginas repletas de neologismos e semântica sinuosa, está reservado um manjar literário inesquecível.
E sei que há muita história ao redor do autor, João Guimarães Rosa, que morreu há exatos 50 anos, três dias após ser empossado como imortal da Academia Brasileira de Letras.
Fumante, sedentário e cardiopata, Rosa temia emoções fortes e por isso protelou o quando pode vestir aquele fardão de imortal que, para ele, tinha sentido inverso.
Uma das mais curiosas histórias envolvendo o escritor se dá em Hamburgo, Alemanha, durante a 2ª Guerra Mundial, onde estava na condição de diplomata. Numa noite deixou o sobrado onde morava e foi a uma tabacaria. Na volta, encontrou sua moradia reduzida a cinzas após bombardeio. Daí, ele fazia graça dizendo que o cigarro salvara a sua vida.
Se bem que em matéria de salvar-vida, quem muito contribuiu foi sua segunda esposa, Aracy de Carvalho, também diplomata. Durante a 2ª Guerra, facilitou o acesso de muitos judeus ao Brasil à revelia de uma lei que impunha restrições.
E já houve quem defendesse um Nobel literário póstumo para o escritor, médico e diplomata de carreira, que trocava tranquilamente os salões das recepções para se enfurnar nos sertões das Minas Gerais, onde colhia histórias e personagens que davam vida aos seus livros.
Dias atrás, a TV exibiu documentário de pessoas refazendo trajetos, percorrendo caminhos que ele fazia entre boiadeiros, todos rememorando causos. Muitos pareciam estudantes da PUC em êxtase tocando um solo rachado que se tornou sagrado graças à prosa do Rosa.
Em companhia de amigos, fiz uma incursão ao real no mundo roseano, em 2002, visitando Cordisburgo, a terra natal, perto de Sete Lagoas.
Por lá, existe toda um grife explorando a fama do autor, que vai do nome de pensão “Nonada” à venda de lembranças, artesanato, contadores de histórias a repetir passagens de Sagarana, Terceira Margem do Rio e, claro, a epopeia do amor impossível entre Riobaldo e Diadorim em Grandes Sertões, livro lançado em 1956. Há quem veja hoje em Diadorim o primeiro grande personagem transgênero da nossa literatura.
Mas além de um museu em sua memória e o imaginário ao redor, pouco há para ver em Cordisburgo, lugar também motivo de exaltações associadas ao ilustre escritor. Maestro Tom Jobim, por exemplo, escreveu o inquietante instrumental “Último Trem para Cordisburgo”. Milton Nascimento e Fernando Brant, de raízes mineiras, extraíram da última palavra de “Grandes Sertões: Veredas” o título de seu primeiro grande sucesso na MPB, “Travessia”.
Também já implicaram muito com Rosa pelo fato de sua escrita, repleta de oralidade e regionalismo arcaico, não ser condizente com o falar simplório das pessoas do sertão em seu cotidiano. “Seja em Minas ou qualquer lugar do interior brasileiro, ninguém fala do jeito que o Rosa reproduz diálogos em sua escrita”.
Este foi, talvez, o principal senão que encontrei entre os críticos. Será que procede? “Nonada”, “Viver é muito perigoso” ou “Viver é um descuido prosseguido”, “Rir antes da hora, engasga”, “A vida é assim,esquenta, esfria, aperta,daí afrouxa,sossega e depois desinquieta. O que a vida quer da gente é coragem”. Fica a controvérsia.
No final dessa prosa, o que eu posso garantir é que atravessar todas as páginas de “Grandes Sertões: Veredas” é assim como escalar uma montanha: cansativo, penoso, tem hora que a gente para, dá vontade de desistir. Porém os que persistirem bravamente serão plenamente recompensados ao alcançar o cume e descortinar aquele cenário deslumbrante, envolvente, inesquecível.
Ah, sim, da viagem a Cordisburgo na companhia de amigos ficou a intenção de criarmos uma ONG, OCIP ou coisa do gênero que se chamaria “Grandes Ficções: Veredas”, para produzir documentários, reportagens, livros, etc. Como nada disso foi adiante, pelos menos fomos e continuamos fiéis ao nome do projeto.
Luiz Trevisan é jornalista
