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Travessia longa

por: Luiz Trevisan "Nascimento aproveitou para lembrar os 50 anos de 'Travessia', a canção que impulsionou sua carreira, e os 45 anos do Clube da ...

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por: Luiz Trevisan

 

“Nascimento aproveitou para lembrar os 50 anos de ‘Travessia’, a canção que impulsionou sua carreira, e os 45 anos do Clube da Esquina marcado pelo antológico álbum lançado em 1972”

 

Juiz de Fora, a “capital cultural de Minas”, segundo seus moradores, agora tem outro personagem ilustre pra chamar de seu. É o lugar que Milton Nascimento, 75 anos, escolheu para morar. “Ele deu uma dosagem de doçura e alegria à cidade”, resume o repórter Carime Elmor.

No Rio de Janeiro, ele andava descontente até com a música. Indiferente à implicância daqueles que denominam moradores de Juiz de Fora como “cariocas do brejo”, optou pela cidade e foi ali que realizou o encerramento da temporada do show “Semente da Terra”.

Por sua vez, a cidade fez cerimônia e pompa para vê-lo sábado passado, no imponente Cine-Teatro Central, cópia arquitetônica do Scala de Milão. Ânimo renovado, vozeirão e afinação preservados, Milton Nascimento soltou a voz que Elis Regina um dia assim definiu: “Se Deus tem voz, deve ser igual à dele”. Encantou e comoveu.

Com notória limitação motora, sentado interpretou alguns dos seus sucessos, a plateia fazendo coro. E falou mais do que de costume, exibindo fluidez pouco comum, demonstrando assim estar literalmente em casa.

Contou que em 2010, em Campo Grande (MS), foi batizado pelos índios Guarani-Kaiowá como Ava Nhey Pyru Ivy Renhoi, que quer dizer “Semente da Terra”, daí o nome do show e oportunidade de chamar a atenção para a situação crítica dos índios brasileiros. A propósito, “Guaranis alcoolizados em seu nenhum futuro” é o trecho de uma canção nova de João Bosco perfeitamente adaptável ao roteiro telúrico.

Nascimento aproveitou para lembrar os 50 anos de “Travessia”, a canção que impulsionou sua carreira, e os 45 anos do Clube da Esquina marcado pelo antológico álbum lançado em 1972.

Manteve o tom das mensagens que celebram a amizade, solidariedade e união, mas o que também pairou foi o esforço do cantor-compositor em frisar sua esperança de melhores dias, apesar de tudo, de toda a onda conservadora e raias de intolerância desses tempos.

Conforme ele mesmo já cantou em um dos seus sucessos, “Nada será como antes”. E reprisou que é preciso coragem, é preciso ter raça e gana sempre, replicando que “os sonhos não envelhecem”.

Bituca, o bardo das Diretas-Já, prossegue em sua travessia ainda acreditando na voz que vem do coração, e recoloca fichas na juventude e na fé.

Durante o show, um dos músicos da banda revelou que o saxofonista Wayne Shorter, norte-americano, disse em um documentário a ser exibido pela HBO que Trump e Milton Nascimento são antípodas, pois enquanto o presidente americano exalta e constrói muros, nosso bardo ergue pontes.

Outro construtor de pontes, Frans Krajcberg encerrou sua longa travessia em defesa da liberdade e do meio ambiente. Começou nos campos de guerra da Polônia e chegou às nossas matas pilhadas por madeireiros, mineradores, invasores, proxenetas e aventureiros de toda espécie. Fez seu atelier em Nova Viçosa, Sul da Bahia, e andou pelo Espírito Santo onde seu trabalho nem sempre recebeu a atenção merecida.

Nas redes sociais, os registros de sua morte coincidem com manifestações neste sentido. Uma delas: “O Espírito Santo nunca valorizou Krajcberg verdadeiramente”. Talvez por isso e outras, o fiel escudeiro de Krajcberg em terras capixabas, o artista plástico Nenna Ferreira, tenha resolvido buscar novos ares. Trocou a Barra do Jucu por Paris de onde eventualmente manda notícias.

A esta altura, Nenna é mais um a engrossar a lista de brasileiros que empreendem travessias distantes, seja por questões pessoais, alternativa de vida ou pura decepção com os rumos da nossa República, que agora parece inverter a trajetória democrática e curvar perigosamente para uma direita extremada, em meio a apologias a censores, torturadores e milicianos.

FHC, aquele ex-presidente, expôs outro dia o receio de que o debate das eleições 2018 seja contaminado pela violência cotidiana que enfrentamos minimizando o viés ideológico.

Já o ator Pedro Cardoso, que há dois anos e meio mora em Portugal e veio lançar aqui um romance que escreveu, comenta o auto-exílio da classe média brasileira. Aponta que aquilo que tornou Portugal melhor para viver advém de contribuições de um pensamento socialista, que aqui agora é negado.

“No Brasil, muita gente acredita num capitalismo absoluto, sem contrapeso, e são justamente essas pessoas que querem ir embora”, frisa. E como ele também foi embora, a impressão que fica é que a nossa travessia rumo à cidadania ainda está longe de um belo horizonte.

 

Luiz Trevisan é jornalista

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