“Pensam que somos super-heróis, mas por trás de nossas fardas existem seres humanos normais e que se preocupam com suas famílias”.
Desabafos como este, do titular da Divisão de Homicídio e Proteção à Pessoa de Vitória, delegado Marcelo Cavalcanti, se tornam cada vez mais comuns no Estado, à medida em que policiais vão se tornando alvo de ameaças de criminosos.
Seja por prisões realizadas, apreensões ou simplesmente por orientar menores a sair da vida do crime, policiais militares, civis, entre eles, delegados, são ameaçados por traficantes e assassinos em redes sociais e ligações telefônicas. Até suas famílias precisam, muitas vezes, mudar suas rotinas.
“Prendi um que falou que me mataria e mataria minha família. Para cada prisão e apreensão que faço, recebo umas quatro ameaças. Por isso, mudei a rotina”, revelou um soldado da PM, de 37 anos, que não quis se identificar.
Foi também na capital que um escrivão de 33 anos passou por uma situação que o deixou preocupado. Ele contou que estava na fila de um supermercado, junto de familiares, quando percebeu a presença de um criminoso que ele já havia prendido há um tempo atrás.
“Ele falou meu nome completo em voz alta. Como ele estava com outros comparsas e eu com minha família, logo acionei uma viatura”, disse o policial, que preferiu manter o anonimato.
As ameaças feitas aos policiais ocorrem independente da patente de cada um. Em Vila Velha, por exemplo, um sargento relatou que elas acontecem em resultado do estado emocional do detido.
“Uma grande parte é resultado do estado emocional deles. Porém, nunca deixei de relatar os casos, por desconhecer a índole da pessoa”, disse.
Para o delegado Marcelo Cavalcanti, que já formalizou uma ameaça que sofreu junto à Corregedoria da Polícia Civil, muitos bandidos agem dessa forma por confundir o trabalho da polícia.
“Sabemos que incomodamos o crime, só que nós temos o dever funcional de fazer isso. E como nós entramos dentro da casa deles, prendemos, eles se acham no direito de nos ameaçar”, disse.
“Comunicamos à Corregedoria”, diz delegado
Engana-se quem pensa que um policial tem a mesma vida que um cidadão comum. Isso porque, devido às ameaças que sofrem, militares, investigadores, escrivães e até delegados precisam mudar não só sua rotina, mas a de suas famílias, como revela o titular da Divisão de Homicídio e Proteção à Pessoa de Vitória, delegado Marcelo Cavalcanti.
|
Texto Auxiliar:
Alinhamento Texto Auxiliar:
Link Externo:
Alinhar à esquerda:
Alinhar à direita:
Alinhar ao centro:
Fullscreen:
Fullscreen Exit:
Estilo:
A Tribuna – Já foi ameaçado?
Marcelo Cavalcanti – Eu, como delegado que muitas das vezes estou na mídia falando sobre algum caso, acabo recebendo (ameaças) sim. A criminalidade se sente perseguida, acha que o delegado prende os indivíduos porque ele quis.
Lembra de alguma ameaça recente e que possa falar?
No final do ano passado, recebi a informação de que estavam querendo me matar, justamente pelo trabalho que eu e minha equipe desenvolvemos na delegacia.
E o que fez?
Sempre que um policial é ameaçado, nós comunicamos ao nosso chefe imediato e à Corregedoria da Polícia Civil, que instaura um inquérito para apurar o acontecimento. Foi o que houve.
Sentiu medo?
Quando isso acontece, incomoda. As pessoas pensam que somos super-heróis, que somos imbatíveis, mas somos seres humanos comuns, que também são frágeis. Eu costumo falar que quando estamos com nossa roupa operacional, estamos, sim, vestidos de super-heróis, mas quando chegamos em casa, a nossa realidade é outra.
O que muda na vida de um delegado ameaçado?
Não frequento todos os locais. Locais que sei que podem causar transtorno em relação a algum tipo de pessoa que prendi.
Consequentemente, isso muda a rotina de toda família?
Acaba que a rotina dos pais com os filhos, por exemplo, muda. Eles ainda não entendem, mas alguns lugares que outras crianças poderiam ir, eles não vão.
E em algum momento você pensou em desistir da carreira?
Nunca pensei, porque ser delegado de polícia é minha paixão. Foi o que escolhi para minha vida. Tenho irmão, tio que é delegado. É algo que veio de família.
Até chamadas de vídeo para tentar coagir militares
Para tentar impor medo e assim desviar a atenção da polícia para seus “negócios”, traficantes têm aproveitado os aplicativos de conversas para fazer chamadas de vídeo para policiais militares, a fim de realizar diversas ameaças.
Foi o que aconteceu com um soldado da Polícia Militar, de 35 anos, que atua na região de Vitória e que pediu para não ser identificado. Ele estava de folga, em casa, quando recebeu uma chamada de vídeo há cerca de um mês.
|
Texto Auxiliar:
Alinhamento Texto Auxiliar:
Link Externo:
Alinhar à esquerda: true
Alinhar à direita: false
Alinhar ao centro: false
Fullscreen:
Fullscreen Exit:
Estilo:
“Era um chefe do tráfico de uma região onde fizemos muitas apreensões de drogas. O indivíduo me ofereceu uma propina para que eu parasse de sufocar a região e, como não aceitei, as ameaças começaram”, contou o soldado.
Na capital, na região de São Benedito, um cabo da PM, de 37 anos, foi surpreendido com uma mensagem em sua rede social. Era a ameaça de um traficante que o acusou de “entrar na mente dos menores da comunidade”. Segundo o policial, essa não teria sido a primeira ameaça. “Já sofri por mensagem de áudio”, revelou.
Mudança após intimidações
Foi após uma ameaça que sofreu ao deixar um preso na 3ª Delegacia Regional de Vila Velha, que um sargento da Polícia Militar, de 43 anos, decidiu tomar uma atitude que mexeu com toda a sua família. Ele, que morava na Grande Vitória, se mudou para o interior do Estado.
A ameaça, que aconteceu há alguns anos por meio de um dos chefes do tráfico da região de Santa Rita (Vila Velha) e que tinha grande influência não só na região como também em outros bairros, tirou não só o sono do sargento, mas de integrantes de sua família.
“Ele queria que eu colocasse as drogas que apreendemos como sendo de um adolescente detido. Como não fiz isso, ele começou a ameaçar algumas pessoas da minha família que residem no bairro vizinho, Alvorada. Ele tinha plenas condições de cumprir suas ameaças, e isso era preocupante”, contou o sargento.
Como a penalização por ameaça é branda, o sargento contou que decidiu se mudar com toda família da Grande Vitória.
“Foi a minha solução. Agora gasto mais de 15% do meu salário em combustível. Apesar do meu trabalho ser uma ação do Estado, sou eu como pessoa física e membro da comunidade que tenho que arcar com os efeitos colaterais. Os paliativos oferecidos pelas instituições não são efetivos”.