
Casos, que vão desde crimes contra a honra a fraudes, perfis falsos e pedofilia, referem-se aos seis primeiros meses deste ano
Se crimes como roubos e assassinatos já preocupam moradores do Estado, no ambiente virtual o cenário não é diferente. Segundo a Polícia Civil, a internet se torna cada vez mais um território para criminosos, que chegam a fazer nove vítimas por dia na Grande Vitória.
A estatística é da equipe da Delegacia de Repressão aos Crimes Eletrônicos (DRCE), que corre contra o tempo para dar conta de tantas ocorrências que não param de chegar. Os registros são dos primeiros seis meses deste ano e não incluem os casos que chegam aos plantões, ocorrências fora da Grande Vitória, notícias crimes apresentadas por advogados e requisições ministeriais.
São pessoas vítimas de delitos que vão desde os crimes contra a honra — calúnia, injúria e difamação — até fraudes, perfis falsos e pedofilia.

Dentre essas pessoas está uma professora da rede pública de ensino, de 37 anos, que pediu para não ser identificada. Ela foi ameaçada de morte, por um aluno, após ele ficar de recuperação final.
“Ele não atingiu a média e começou a fazer ameaças de morte a mim e a minha família, pelo grupo de alunos e professores no WhatsApp. Daqui a alguns dias tinha tenho que aplicar prova na turma, e não sei o que pode acontecer. Estou com o coração na mão. Fui pega de surpresa”, desabafou a professora.
Uma estudante de Direito, de 36 anos, que pediu para não ser identificada contou que passou por um desespero, quando viu fotos suas íntimas divulgadas na internet. O caso aconteceu em março deste ano e até hoje assombra a rotina dela.
“Tudo ocorreu depois que deixei o celular para consertar, em uma lojinha. Viram as fotos e depois de várias ameaças, colocaram-nas na internet. Perturbação no trânsito, dentro de ônibus, represálias. Não foi fácil. Não se deve confiar em ninguém. Ainda não consegui descobrir quem foi que fez isso”.
Mas não são apenas casos de exposição: ainda há situações que terminam em extorsão e até abuso infantil, segundo a polícia.
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Prejuízo com compras eletrônicas
Entre os crimes que mais estão em “alta” entre os bandidos, no ambiente virtual, estão aqueles relacionados às compras no comércio eletrônico. Para muitos na Grande Vitória, a busca por preço baixo termina em prejuízo, quando o internauta não toma cuidado.
A delegada Cláudia Dematté, titular da Delegacia de Repressão aos Crimes Eletrônicos (DRCE), explica:
“Cresce muito o número de pessoas que realizam compras por meio eletrônico. Tem uma facilidade de busca, variedades de produtos, preço, só que da mesma forma que cresceu o uso, cresceu o número de estelionatários, que usam a internet para aplicar golpes. Geralmente, as vítimas são atraídas por um preço muito bom, oferta vantajosa e acabam não tomando precauções mínimas para verificar a veracidade daquele site, aquele link, uma pesquisa básica”, destacou a delegada.
O investigador Hércules De Nadai Aranda também apontou que é uma situação comum ainda nos sites de compras de produtos usados. “As pessoas buscam por veículos, celulares, televisão, negociam, pagam, mas não recebem. Por isso é importante não pagar nada adiantado e ter cuidado”, salientou.
A delegada lembra que existem sites especializados em falar sobre a reputação de lojas e vendedores e que valem a pena os consumidores se informarem antes de concretizar uma compra.
Para a delegada, quanto mais exposição de dados e informações, mais chances os criminosos têm de fazer mais uma vítima no ambiente digital.
“As pessoas estão se expondo muito na internet e acabam expondo dados da rotina, informações que possibilitam essas pessoas mal-intencionadas a praticarem crimes e angariar esses dados para usar contra a própria vítima”, ressaltou a delegada.
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Golpe do boleto falso do plano de saúde

Um empresário, de 49 anos, perdeu R$ 592,52 ao pagar um boleto falso do plano de saúde. Ele, que tem o hábito de trocar cartões de crédito com frequência por segurança, conta que só descobriu que havia caído em um golpe quando foi cobrado pela prestadora. “Um hacker invadiu o meu e-mail e encaminhou um boleto idêntico ao do plano de saúde e acabei pagando”, contou a vítima, que pediu para não ser identificada.
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Perfil falso torna técnica em prostituta

Duzentos pedidos para programa em 12 horas de exposição custaram uma noite sem dormir, tristeza e um dia de estudo perdido para uma técnica em enfermagem, de 22 anos, após a divulgação de um perfil falso.
Ela procurou a Delegacia de Repressão aos Crimes Eletrônicos (DRCE), desesperada por não aguentar mais ter o número de telefone associado a um anúncio de uma suposta prostituta.
A divulgação foi pela rede social. Na condição de não mostrar o rosto e não se identificar, a técnica explicou para a reportagem que uma pessoa, até então desconhecida, criou um perfil no Tinder, um dos principais aplicativos quando o assunto é paquera.
“Eles abriram um perfil com a foto de uma mulher loira, em nome de outra pessoa, porém, com o meu número de telefone, chamando para uma conversa no WhatsApp. O perfil anunciava programa”, contou a técnica.
Ela relatou que a primeira mensagem chegou às 23 horas de quinta-feira e, até o fechamento desta reportagem, o celular não parou de receber notificações e ligações. “Foi desesperador. Meu número foi espalhado e mais de 200 homens e mulheres me procuraram. Minha família ficou desesperada. Meu namorado quase pirou”, desabafou a vítima.
A técnica disse que tem a linha telefônica há mais de cinco anos, e a única saída que vê é mudar o telefone e denunciar. Ainda não se sabe quem foi, mas ela desconfia que possa ser um ex, por vingança.
A delegada Cláudia Dematté lembra que os crimes contra a honra estão cada vez mais comuns.
“É diário. A nossa Constituição garante a liberdade de expressão, mas as pessoas acabam esquecendo que essa liberdade não é absoluta. A partir do momento que atinge a honra de outra pessoa você pratica um crime. Acham que podem se valer de um falso anonimato”, esclareceu.
A delegada destacou que a legislação, Lei Carolina Dieckmann, contra invasão de dispositivos eletrônicos, precisa evoluir e que os crimes deixam vestígios.
“São ofensas por xingamentos, montagens e divulgação de conteúdo. Mas é bom lembrar que, assim como no mundo real, no mundo virtual tem punição e até mais grave, podendo ter a pena aumentada em um terço, por ser no ambiente virtual. Porque num clique você difunde aquela informação para inúmeras pessoas”.
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Agressores ameaçam ex

As mulheres são maioria entre as vítimas de crimes eletrônicos e, segundo especialistas, inclusive, são objetos de estudo. De acordo com a delegada Michelle Meira Costa, titular da Delegacia da Mulher (Deam) de Cariacica, agressores ainda têm usado a internet para ameaçar as ex.
“Infelizmente é bem comum. Geralmente, as vítimas ficam constrangidas até de contarem. Estavam num relacionamento e se permitiram fazer uma fotografia ou filmagem mais íntima. Por não aceitarem o fim, os ex as ameaçam com essas imagens”, explicou.
A titular ainda pontuou que esse tipo de ameaça não deixa de ser uma agressão psicológica. “Através dessa agressão, o autor faz com que a vítima fique com ele, gerando um constrangimento ilegal, obriga o que a lei não obriga. A pena pode chegar a um ano”, explicou.
Para evitar essas situações, a delegada deu uma dica.
“Orientamos que, por mais que tenha um relacionamento confiável, primeiro se preserve. Há situações que as mulheres nem sabem que foram gravadas. Mas caso a gravação já tenha ocorrido, digo para elas não se intimidarem e denunciarem”.
O especialista em tecnologia Eduardo Pinheiro lembrou que o cerco está se fechando para os criminosos.
“Cada crime tem uma forma de repressão e prevenção diferente, mas o cerco vai se fechando para os cibercriminosos. Com o advento do Marco Civil da Internet, em 2012, tornou-se possível a rastreabilidade das ações. Tudo que é feito deixa registros, que são rastreados e identificam o dispositivo informático usado”.
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Vítimas vão aos cartórios para registrar crimes

Para não serem encontrados, criminosos da internet acabam apagando mensagens que possam incriminá-los. No entanto, as vítimas têm encontrado nos cartórios uma ferramenta para registro de informações, que se tornam provas, por meio das atas notariais. No Estado, são registradas cerca de duas mil por mês.
De acordo com Rodrigo Reis Cyrino, diretor do Tabelionato de Notas do Sindicato dos Notários e Registradores do Espírito Santo (Sinoreg-ES) houve um aumento de mais de 100% na confecção das atas, principalmente, em relação aos crimes eletrônicos.
“A Ata Notarial é um documento que é registrado em cartório. Ela serve de prova. Tem fé pública. Ela é feita com base na descrição de todo o arquivo, que pode ser texto, foto ou vídeo. O funcionário descreve cada detalhe e o documento fica arquivado. Dali, a vítima tem uma prova antes que o autor apague a mensagem. Uma prova contra a impunidade”, explicou Cyrino.

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Análise de Lyrio Régis de Souza Lyrio, juiz da 1ª Vara Cível de Vila Velha

“Criminoso acredita no anonimato”
“A Lei Carolina Dieckmann prevê uma proteção contra a invasão de dispositivos informáticos. Há críticas em relação ao texto da lei, visto como muito aberto, levando ao subjetivismo. Uma matéria aprovada muito rápida, acelerada pela repercussão.
Mas os juristas criticam o texto da lei, dizendo que é um conteúdo aberto e dá margem a interpretações. Um exemplo foi a aplicação da lei, em uma situação da primeira dama, mulher do presidente em exercício, onde foi determinado que não se publicasse em um jornal, um texto que a envolvia em uma questão de material digital invadido. Houve críticas e alguns entenderam como censura. Foi visível o problema de interpretação.
Vale destacar que os criminosos agem acreditando no anonimato, mas não é assim. O protocolo de internet é identificado e quebra o anonimato. No mundo digital, a gente não compreende que tudo que você coloca em meio digital, se torna público. É preciso informação e cuidado”.
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