Com o cansaço estampado no rosto e demonstrado pelos passos lentos, a idosa de 72 anos feita refém por mais de cinco horas ontem, em Cariacica, contou como foi o período em que ficou em poder dos dois bandidos.
Calma ao relatar a situação, após receber alta do hospital, onde passou por exames, ela revelou que conversou com os criminosos em muitos momentos, deu conselhos para que se entregassem e passou todo o tempo rezando.
A Tribuna – Onde estava quando eles invadiram a casa?
Idosa – Eu não tinha levantado ainda. Eu escutei pessoas conversando do lado de fora do quarto e pensei que era um dos meus filhos, pois eles sempre tomam café da manhã lá em casa. Quando eu vi, eram dois caras estranhos. Eles chegaram e falaram que eu era refém.
E onde a senhora ficou durante todo o tempo?
Eu fiquei dentro do meu quarto o tempo todo, sentada na cama. Um deles, o mais novo, ficou dentro do quarto comigo. Ele sentou do meu lado e ficou lá. O outro, o mais velho, ficava rodando a casa, a varanda, olhava o movimento na rua das janelas.
E a senhora sabia que havia muitas pessoas e policiais do lado de fora?
Eles falaram para mim que a rua estava toda cercada.
E estavam nervosos?
Não. Um deles falou comigo que tem um filho pequeno, que a mulher está grávida e que não tinha mais nada para comer. E por isso ele resolveu sair para roubar.
E a senhora chegou a aconselhar ele?
Falei para ele: “Menino, por que você faz isso? Um menino tão novo”. Ele respondeu que não tinha serviço então ele tinha que fazer isso.
Disseram que eles deixaram dinheiro para a senhora comprar o pão. É verdade?
Ele deixou R$ 2 para eu comprar pão. Eu disse que não precisava deixar, pois eu tinha dinheiro para comprar pão. Mas ele deixou o dinheiro lá.
Eu fiquei até 11 horas sem comer nada. Fiquei na cama sentada e ele sentado perto de mim. Mas nas negociações, meu marido falou para o que estava do lado de fora do quarto que eu não podia ficar sem comer e sem tomar a insulina e os medicamentos. Aí o rapaz veio me perguntar onde estava a insulina e pegou tudo.
E a senhora fez o que durante todo o tempo?
Fiquei lá rezando o tempo todo.
Eles estavam armados?
Sim. Na hora que eles chegaram, fiquei assustada, achando que eles poderiam fazer alguma coisa. Um deles apontou a arma para a minha cabeça e por trás do meu pescoço. Toda hora eu pedia a Deus.
Depois ele pediu álcool e pegou um lenço do meu marido e ficou passando o álcool na arma. Disse que era para tirar as impressões digitais.
Eles chegaram a conversar com a senhora antes de se entregar?
O que estava do lado de fora queria se entregar, dizia que sabia que iria morrer mesmo. Mas o que estava dentro do quarto não se entregava de jeito nenhum. Estava com muito medo de morrer e dizia que tinha certeza que se saísse iriam matar eles.
Eu falei para ele: “Menino, é melhor você se entregar, porque ir preso é melhor que morrer. Ele falou que não queria ir preso, pois sabia que ia “mofar” na cadeia. Um deles disse que já tinha ficado um ano e 10 meses preso.
E como foi o momento em que eles decidiram se entregar?
O que estava do lado de fora disse que iria se entregar, mesmo o outro não querendo, pois estava com fome. Ele ligou para a mãe dele, que chorou muito no telefone. Quando ele desligou disse que ficou com dó da mãe dele. Eu falei pra ele: “pois é, qual mãe que não chora?”
Aí eles avisaram que estavam saindo?
Sim. Na hora que ele falou comigo que iriam sair eu estava de camisola e pedi para trocar de roupa. Ele esperou e desceram.
O que a senhora espera para eles agora?
Que eles paguem pelo que fizeram. Nunca passei por nada assim na vida. Moro no bairro há 40 anos e a padaria nunca havia sido assaltada. Foram muitas horas em poder deles, mas agradeço por estar bem.
