O Dia Mundial da Conscientização da Violência Contra a Pessoa Idosa foi celebrado nesta terça-feira (15), mas nem todos têm motivos para comemorar a data, pois no lugar de amor e atenção muitos têm sido obrigados a conviver com decepção e medo.
Dispostos a dar um basta, idosos quebram o silêncio e denunciam saques bancários, venda de imóveis, maus-tratos, agressões, ameaças, entre outros crimes cometidos por filhos, netos, outros familiares e cuidadores.

A delegada revelou que o abuso financeiro, com saques com cartões dos idosos ou venda de bens por familiares são frequentes.
Uma situação que chegou à polícia é a de um neto, que cuida da “avó milionária”. “A família não consegue interditá-la, pois é lúcida, mas não tem controle financeiro. Seu patrimônio, que era muito alto, o neto já acabou com mais da metade, vendendo ou comprando coisas para ele”.
Outro caso denunciado é de um idoso de 66 anos que há cerca de três anos constituiu um dos filhos como seu procurador para administrar bens e resolver eventuais problemas com bancos e Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Passado um tempo, ele começou a ser vítima de maus-tratos pelo filho, que até 2020 ficava com o dinheiro da aposentadoria do pai (R$ 6 mil). “O filho privou o pai de alimentos e utensílios básicos, cortou o plano de saúde e o manteve isolado de seus familiares”, contou a advogada Rayane Vaz Rangel.
Diante das violências sofridas, o aposentado pediu socorro aos vizinhos, que entraram em contato com outro filho, que resgatou o pai.
“O meu cliente descobriu que o filho transferiu sem o seu consentimento um Fiat Siena e simulou uma compra e venda fraudulenta, assinando como comprador e vendedor. Foi registrado boletim de ocorrência. O caso está tramitando”.
Vergonha e medo fazem com que muitos se calem
Assim como nos casos de violência doméstica praticada contra a mulher, denunciar e até perceber os abusos sofridos não é fácil para os idosos. Muitas vezes, eles deixam de denunciar por vergonha, medo de ameaças ou até mesmo pela relação com o agressor.
A titular da Delegacia Especializada de Proteção ao Idoso (Depi), delegada Milena Gireli, disse que é comum o sentimento de vergonha.
Ela relatou que há denúncias que chegam e, na hora de verificar se são precedentes, a vítima é chamada para conversar. “Muitas vezes a gente ouve que a pessoa tem 75 anos e nunca tinha colocado os pés em uma delegacia. Para muitos isso é humilhante. A gente explica que a pessoa é uma vítima e que foi chamada lá para a gente conversar, para ver o que está acontecendo. Mas eles acham que delegacia não é lugar de gente do bem”.
A delegada contou que outro problema é o sentimento que muitas das vítimas têm. “Elas não querem denunciar quem amam, que muitas vezes é o filho, um neto. Assim como as situações de violência doméstica, você ama, e suporta o intolerável, até chegar a um ponto em que é preciso pedir ajuda”.
Milena Gireli enfatizou que no caso da pandemia, apesar das denúncias presenciais por parte dos idosos terem diminuído, a violência contra eles não foi reduzida.
“Os idosos preferem fazer as denúncias presencialmente. Como não estão podendo circular por medo da Covid-19, estão saindo menos. Outro fato observado na pandemia é que há relatos de idosos sendo abandonados em hospitais da rede pública e privada. Isso configura abandono de incapaz”.
A advogada especialista em Direito de Família e Sucessões Isabela Aigner afirmou que nesses casos de violência contra o idoso as vítimas têm o seu psicológico muito afetados. “Eles toleram muito, pois não querem prejudicar um filho ou familiar. Sofrem ameaças e até violência psicológica. Acham que ele vai mudar ou que está fazendo aquilo por estar sem emprego”.
Ela ressaltou que, em muitas situações, cabem pedidos de medida protetiva para que o agressor se mantenha afastado.
Números da violência
Principais queixas
Abuso financeiro
- Muitas vezes, as vítimas ficam sem o dinheiro da aposentadoria, sem remédios, assistência à saúde, alimentação adequada.
- Há situações em que os idosos são coagidos para assinar procurações, pegar empréstimos consignados, com desconto em folha, para quitar débitos ou comprar bens para filhos e netos. Além dos empréstimos, eles também acabam contraindo dívidas com financiamentos e cartões de crédito.
Maus-tratos e violência física
- Com o abuso financeiro, vêm também os maus-tratos. Falta de apetite ou perda de peso podem ser sinais de sofrimento físico ou emocional, bem como mudanças de humor e comportamento, hematomas frequentes, entre outros.
Injúria
- Às vezes o idoso é considerado um fardo para a família e passa a ser vítima de xingamentos. Entre os exemplos citados nas denúncias estão: “Você não presta para nada”. “É um peso, não faz mais nada, só gasta e não merece nem estar aqui”. “Podia morrer”.
Ameaças
- Vêm de várias formas, até mesmo para que o idoso não denuncie qualquer tipo de maus-tratos ou outros crimes, sob risco de ser abandonado ou agredido.
Canais para denunciar
- Ligação gratuita: 180 e 100
- Whatsapp: (61) 99656-5008
- Telegram: “DireitosHumanosBrasilBot”
- Aplicativo: Direitos Humanos Brasil
- Site: ouvidoria.mdh.gov.br
- Disque denúncia 181