A jovem que morreu em um acidente de moto, que aconteceu na tarde de quarta-feira, na Praia de Itaparica, em Vila Velha, tentava retornar para a família no Rio de Janeiro e fugia do companheiro, segundo familiares.
Eles afirmam que o namorado estava mantendo Ingrid de Souza Neres, de 26 anos, em cárcere privado. Após o acidente, ela foi internada no Hospital de Urgência e Emergência, em Vitória, mas morreu às 21 horas de quarta-feira.
Ingrid estava na garupa da moto pilotada por Rubem de Souza Faria Júnior, 49, quando o veículo colidiu com um caminhão. Rubem, que era amigo dela, morreu no local. De acordo com a família, no momento da batida, Ingrid ia para a rodoviária embarcar em um ônibus para o Rio de Janeiro.
Os familiares da jovem contaram que só ficaram sabendo do acidente na manhã de ontem. Inicialmente, a família recebeu a notícia, de uma pessoa do Estado, que apenas informou que Ingrid teria sofrido um grave acidente.
“Minha outra filha ligou para uma conhecida de Ingrid, que a ajudava, e essa pessoa descobriu tudo e contou que ela estava morta. Foi um choque. Depois tivemos de vir para cá de carro, uma longa viagem, para tentar liberar o corpo e descobrir o que tinha acontecido com Ingrid”, disse a mãe da jovem, Zilma Assis de Souza, de 55 anos.
A mãe ainda diz que a filha tentava voltar para casa da família, em Itaperuna, interior do Rio de Janeiro, para reconstruir a vida longe do companheiro dela.
De acordo com Zilma, os dois se conheceram há cerca de seis anos e há dois meses a filha havia saído do Rio para morar com ele no Espírito Santo. Ainda segundo a mãe, há três anos ele havia sido preso por roubo, na Paraíba, enquanto se relacionava com Ingrid.
Depois, a jovem entrou em outro relacionamento, em que teve um filho, hoje com 2 anos. “Ele sempre foi abusivo com ela. Quando ele foi preso, Ingrid aproveitou e fugiu dele, reconstruindo sua vida no Rio de Janeiro. Mas, ele saiu da cadeia e conseguiu encontrar minha filha, prometeu mudanças e ela acreditou”, acrescentou a mãe.
Foi quando o pesadelo de Ingrid recomeçou. A mãe conta que o homem monitorava tudo que a filha fazia e que a impedia de trabalhar.
ENTREVISTA | Zilma Assis de Souza, mãe da vítima
“Minha filha vivia um terror aqui”

Zilma Assis de Souza – Ela tinha esse relacionamento com esse homem. Eles se conheciam há um tempo. Eu dava conselhos, mas ela não me ouvia. Ele ficou preso por três anos e minha filha conseguiu fugir dele e reconstruir sua vida com outro homem, teve mais um filho, que tem 2 anos.
Então, ele saiu da cadeia, encontrou minha filha e prometeu que ia mudar. Ela acreditou e largou marido e os filhos e foi atrás dele.
Como você conseguia falar com sua filha?
Antes, ela me ligava pelo telefone dela, com ele por perto, porque ele gostava de monitorar tudo que ela fazia. Depois, ele escondeu o telefone. Para conseguir falar comigo, ela tinha que pegar um celular com uma pessoa, que sempre ajudava ela, e ligava para mim quando ele não estava por perto.
O companheiro não a deixava ir embora?
Não. A última vez que falei com ela foi na segunda-feira, quando ela me informou que conseguiu a passagem e disse que estava voltando para casa. Eu aguardei minha filha chegar em casa, mas ela não apareceu. O marido dela, que ela abandonou para morar com esse homem, já tinha a perdoado e estava esperando também. Ele tirou ela de perto da família. Minha filha vivia um terror aqui.
Vocês conhecem o rapaz que estava dirigindo a moto?
Não, mas acreditamos ser alguém que estava ajudando ela a fugir dele. A gente sente muito a morte e lamentamos.
Acreditam que o companheiro dela tentou liberar o corpo e não queria avisar a família?
Sim, porque ele foi ao DML com os documentos dela e tentou liberar. Acreditamos que ele queria enterrar Ingrid sem a família. E na nossa cabeça ela estaria viva e não íamos saber da morte dela.
Como era a Ingrid?
Ingrid deixou três filhos, de 2, 6 e 8 anos. Ela tinha seus problemas, mas era minha filha mais velha. Era sorridente. A gente aconselhava, mas a gente sente a dor. A dor de perder uma filha é muito grande. É uma dor que ninguém explica e ainda mais tão distante da família. Ainda estamos tendo dificuldades para liberar o corpo. Nem sei se conseguirei dar um enterro digno para ela.
Dificuldade em liberação de corpo
A família de Ingrid de Souza Neris tentou, até o final da noite de ontem, liberar o corpo. A dificuldade se deu, segundo familiares, pelo fato de o companheiro da vítima ter ficado com os documentos dela.
“Estou o dia inteiro correndo atrás disso, sem comer e até beber água e até agora nada. Meu coração de mãe está apertado”, contou a mãe da jovem, a funcionária municipal Zilma Assis de Souza, de 54 anos.
O cunhado da jovem, que veio com a irmã dela, mãe e pai para acompanhar o processo de liberação do corpo, contou que a família também tentou registrar um boletim de ocorrência na Polícia Civil informando que Ingrid havia sido mantida em cárcere privado pelo companheiro, mas foram impedidos de registrar.
“Procuramos a delegacia e eles disseram que não podem fazer nada porque nós não temos documentos”, disse Diogo Amorim Ferreira, de 22 anos.
A Polícia Civil disse que o procedimento padrão para a liberação de corpos exige a apresentação de documento oficial de identificação. Em caso de impossibilidade de apresentar este documento, a família recebe orientação no próprio Departamento Médico Legal (DML) sobre as providências a serem adotadas, o que inclui autorização judicial para a liberação sem documentos.
Quanto às suspeitas de violência doméstica, a assessoria não teve como verificar se havia algum registro, quando foi solicitada pela reportagem à noite, quando o expediente administrativo das delegacias já havia sido encerrado.
