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Mãe de aluna morta em Realengo desabafa: “Achei que não aconteceria mais”

Autora do livro “Meu Anjo Chamado Luiza”, que conta a história da vida de sua filha Luiza Paula da Silveira, 14 anos, – morta no massacre de ...

Autora do livro “Meu Anjo Chamado Luiza” que fala sobre sua filha assassinada em Realengo, Adriana Silveira diz que sente que voltou no tempo

Última atualização

Autora do livro “Meu Anjo Chamado Luiza” que fala sobre sua filha  assassinada em  Realengo, Adriana Silveira diz que sente que voltou no tempo (Foto: Agência Brasil)

Autora do livro “Meu Anjo Chamado Luiza”, que conta a história da vida de sua filha Luiza Paula da Silveira, 14 anos, – morta no massacre de Realengo, Zona Oeste do Rio de Janeiro, em 7 de abril de 2011, com outros 11 alunos durante um ataque bárbaro – e presidente da ONG Anjos de Realengo, Adriana Silveira, 47 anos, diz que voltou no tempo e sentiu a mesma dor ao saber do massacre da escola Raul Brasil, em Suzano, São Paulo.

A Tribuna – Como a senhora recebeu a notícia sobre o massacre na escola Raul Brasil, em Suzano?
Adriana Silveira – Eu fiquei em choque ao receber a notícia. Recebi um telefonema de uma mãe daqui de Realengo que me mandou ligar a televisão. Não pude acreditar no que eu estava vendo!
É muito triste saber que vivemos novamente aquele cenário de terror do dia 7 de abril de 2011. Para mim, o que aconteceu em Realengo não iria acontecer nunca mais na história do nosso País.

A senhora sentiu que o chão saiu dos pés?
Nossa! Eu voltei ao cenário em Realengo, voltei no tempo. É como se tivessem me jogado naquele dia, como se eu estivesse revivendo aquele dia. Senti a mesma dor, passei por aquele dia novamente.

Foi horrível! Entrei em choque e chorei muito. Eu pensei na dor dos pais daquelas crianças, eu vivi com eles a mesma dor. Eu não saberia explicar tamanha dor.

A senhora entrou em contato com algum pai ou mãe das vítimas em Suzano?
Eu entrei em contato com uma professora e mandei mensagens para os pais. Pretendo ir até lá. Se houver missa de sétimo dia, vou estar lá junto com eles. Mas, se não houver celebrações, irei lá fazer uma visita e chegar bem próximo de cada um e dar um abraço bem forte em cada pai, mãe e criança que sobreviveu.

O País ainda está em choque com tudo que aconteceu. Qual o futuro que a senhora imagina para as nossas crianças?
Eu venho, há oito anos, buscando junto às autoridades projetos de lei para que isso não acontecesse novamente. Mas, infelizmente, o nosso País não trabalha com prevenção. Quando aconteceu o fato em Realengo, acreditávamos que, depois, as escolas teriam segurança. Que aquela seria a última escola em que aconteceria uma tragédia. Conquistar isso seria uma homenagem honrosa para aquelas crianças.

Hoje, eu ouço a voz da minha filha, a voz daquelas crianças. Não vou dizer que é fácil, pois não é. É uma luta incansável, mas não vou parar.

O que a motiva a não parar?
Não vou parar por eles. Não vou parar porque não é só um problema do governo. O problema hoje é de toda a sociedade. Enquanto não houver uma conscientização de que é preciso um trabalho conjunto, vamos continuar perdendo nossos jovens e nossas crianças. Nossos jovens estão doentes.

Qual é o caminho?
Acho que os pais deviam prestar atenção em seus filhos. Porque, antes deles cometerem esses absurdos, eles vêm dando sinais. Vêm pedindo ajuda com alguma atitude. O Estado não faz a parte dele, os pais muitas vezes não têm feito sua parte e a escola fica lá, no meio. Um passa a responsabilidade para o outro. Fica um jogo de empurra. O problema existe, é fato. Infelizmente, minha filha pagou com a vida, essas crianças (de Suzano) pagaram com a vida.

Quantas crianças mais teremos que perder para que a sociedade acorde, para que nossos governantes olhem para nossas escolas? É preciso um trabalho sério com a educação e com nossas crianças. Porque escola é lugar de livros, cadernos e lugar aonde nossas crianças vão para adquirir conhecimento e não para perderem a vida.

Que cenário temos nas escolas hoje?
Antes, minha filha não ia a lugar nenhum sem a minha presença. Apenas na escola, eu a deixava sozinha. Era um local que tinha segurança e que eu confiava. Depois do dia 7 de abril de 2011, tudo mudou.

Hoje, as crianças já vão para as escolas com problemas, agridem professores e colegas. Não existe segurança. As portas das unidades estão abertas, qualquer um entra. Os funcionários estão desmotivados e não estão preparados para lidar com uma situação de perigo. É preciso preparar nossas crianças para ataques como esse (de Suzano).

Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, onde aconteceu a tragédia em 2011 (Foto: Divulgação /Governo do Rio de Janeiro)

E como se faz isso? Hoje, temos acesso facilitado à internet, onde crianças, jovens e adultos têm contato com todo tipo de conteúdo…
Nós precisamos colocar palestras dentro de nossas escolas. Temos que trabalhar a questão do bullying e o mal que ele fez, faz e vai fazer.

A internet é um perigo. Tem que saber lidar com ela. O caminho é uma educação mais ampla. Aqui, quando aconteceu o fato, o cidadão (Wellington Menezes de Oliveira, autor do massacre de Realengo) passava horas e horas na internet, com jogos também. Estudava também como fazer o crime.

Esses jovens que cometeram o crime em São Paulo (Suzano) também ficavam horas na internet, jogando e estudando o plano. Pelo amor de Deus, vamos controlar o horário dos nossos filhos nesses joguinhos, vamos prestar atenção no que eles veem e fazem na internet.

O pai fala: “Ah, mas o meu filho já é um rapaz”. Acho que hoje está tudo muito liberado. Está faltando valores humanos. Está precisando voltar a ter mais participação dos pais, mais amor aos filhos e amor ao próximo.

Mas os profissionais das escolas têm alertado os pais sobre esses sinais?
Tenho feito palestras em escolas e tenho ouvido diretores e professores falando que, ao perceberem sinais de alerta, chamam os pais. Porém, os pais chegam dizendo que o profissional está perseguindo seu filho. O trabalho tem que ser feito em conjunto: pais e educadores.

Por que decidiu fundar a ONG Anjos de Realengo?
Eu decidi criar a ONG para que a minha filha e os filhos de tantos pais que perdem suas crianças para violência desenfreada não virem estatística.

Eu não podia aceitar que minha filha tinha perdido a vida sobre cadernos e lápis. Não podia ficar quieta dentro de casa, aceitar que acabou e pronto. Ou eu descia à sepultura junto com minha filha, ou eu me levantava e seria a voz dela e de tantas outras vítimas, para lutar para que exista segurança nas escolas e pelo fim da violência. Todo dia 7 de abril estamos na praça que relembra as vítimas da violência de Realengo.
 

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