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TERROR EM ARACRUZ

Notebook salvou professor de tiro no peito durante ataque

Aparelho absorveu impacto de um dos disparos feitos por adolescente de 16 anos contra o professor Luiz Carlos Gomes

Luiz Carlos Gomes mostra notebook atingido por disparos: “Não sei como, mas foi Deus que me salvou”.

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Com notebook nas mãos. Foi esse aparelho que absorveu o impacto de um dos disparos contra o professor de Filosofia da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Primo Bitti, Luiz Carlos Simora Gomes, de 51 anos. O tiro atingiu perto da tela, a  milímetros de acertar o professor.

Casado, pai de seis filhos e avô de três netos, Luiz relembra, com detalhes,  os momentos de terror vividos na última sexta-feira, em Coqueiral de Aracruz, Aracruz.

Após ouvir os disparos, o professor, que pensou ser barulho de bombinhas,  saiu com o notebook nas mãos e acabou dando de cara com o atirador.

Perguntado  se acreditava que se o notebook não estivesse na  frente  pudesse ter  atingido seu peito, Luiz afirmou: “Eu teria sido atingido, poderia acertar meu peito”.

Além do tiro que atingiu o notebook, mais dois tiros foram dados  em direção ao professor: um acertou a parede e, o outro, o professor conseguiu desviar. “Não sei como, mas foi Deus que me salvou”.

A Tribuna – Cinco dias depois da tragédia, o que você lembra da  última sexta-feira? 

Luiz Carlos Simora Gomes – Era um dia atípico. Na quinta-feira tínhamos feito um passeio com os alunos e muitos acabaram não indo à escola.  Eu havia levado um rocambole e a Cybelle (professora morta no ataque) me pediu um pedaço. Fui lavar as mãos,  adentrei novamente na sala, estava sentado mexendo no notebook e ouvi os tiros, mas pensei que fosse bombinha, saí para ver e dei de cara com o atirador.

Percebeu logo que era um ataque?

Pensei que fosse brincadeira. Achei que eram  balas de festim, mas quando   vi ele trocando o pente da pistola foi a hora que eu  peguei uma vassoura que estava no canto  e falei: ‘eu vou dar uma paulada nele que vai dar tempo’. Mas ele trocou o pente muito rápido. 

E o que aconteceu na sequência?

Ele deu três tiros para o meu lado. Depois que a secretária  foi ver  que tinha pego no meu notebook.  Eu lembro que eu estava com ele na frente do peito. Um acertou a parede e o outro eu desviei. Não sei como, mas eu  consegui sair da sala e  fiquei no corredor. O corredor dava acesso para as salas de aula.

O que pensou na hora?

Meu pensamento era que se ele chegasse lá mataria os alunos, por isso fiquei no corredor, pensei ‘vou morrer, mas aqui ele não passa’. Vi ele saindo pelo portão.

Quando voltou, o que viu?

Nessa hora parece que meus olhos se abriram e vi todo mundo caído no chão, um monte de sangue e os meus colegas professores pedindo socorro. Foi tudo muito rápido. Não sei como, mas foi Deus que me salvou.

Você estava com a professora Maria da Penha Banhos nos minutos finais?

Ela estava com o rosto em uma poça de sangue, tirei o rosto dela dali, segurei na mão dela e disse que se ela tivesse bem, que ela apertasse a minha mão (choro). 

Ela apertou forte e  depois eu senti que a tinha perdido. Já a Cybelle me pediu ajuda. A última coisa que falou era que amava a família e os filhos. 

O atirador estudou na Primo Bitti. Você lembra de ter dado aula para ele?

Lembro. Quando ele não sentava na minha frente, sentava na segunda cadeira. Era um menino que entrava mudo em sala de aula e saía calado. Não era de se comunicar com as pessoas. O último dia que ele esteve na minha aula foi no dia 30 de maio deste ano.

Diante de um trauma tão grande, você pretende abandonar a sala de aula?

Tenho outras profissões, mas o que eu amo fazer é dar aula. Eu não posso parar.  Eu amo estar com meus alunos, eu tenho eles como filhos, como irmãos, como amigos. Se Deus me deu esta oportunidade é porque ainda tenho muita coisa para fazer na escola.  

Qual a mensagem gostaria de deixar?

Que nós não deixemos que o ódio tome conta de nossos corações. O amor sempre vai vencer o ódio. O mundo sem amor, sem Deus e sem educação não vai para frente, precisamos implantar o amor, mas precisamos também trabalhar com segurança nas escolas. 

Aluno de 11 anos  sai da UTI

Na lista dos sobreviventes aos ataques em duas escolas de Coqueiral de Aracruz, em Aracruz, há um estudante  de 11 anos. Ele recebeu alta da UTI e foi liberado para fazer leves caminhadas no setor de semi-intensiva.

Vizinha da família, a agente de saúde Rosimere Paula da Costa Monfardini, 56 anos, contou que o menino está bem. “Ele está caminhando e dizendo que quer vir embora para casa.  Já está querendo fazer arte”. Ele está internado no  Hospital  Infantil de Vitória.

Rosimere contou que recebeu um vídeo em que a professora de História Sandra Regina Guimarães –  uma  das baleadas pelo atirador que encontra-se internada  –   toca  violão e canta a canção dos  Titãs  “É Preciso Saber Viver”.

“A Sandrinha aparece sentada na cama do hospital e canta essa linda música. Simplesmente emocionante”, contou a agente de saúde.  Ao todo, cinco vítimas seguem internadas em hospitais do Estado.  

A Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), por meio do Hemoes Vitória e em parceria com o Hospital São Camilo de Aracruz, realizará ação solidária de doação de sangue que acontecerá no próprio hospital, nesta quinta (01) e nos dias 15 e 16 de dezembro, das 7h às 12h30.

Clima de tristeza e revolta em Coqueiral de Aracruz

Cinco dias após a tragédia que deixou quatro mortos e mais de 10  feridos, o clima no balneário de Coqueiral de Aracruz, em Aracruz, é de  revolta e tristeza.

Na  Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Primo Bitti, o pátio ainda está decorado com bandeiras de diversos países, em referência à Copa do Mundo. Na tarde de ontem, foi possível ver equipes dando manutenção no local.

Já no Centro Educacional Praia de Coqueiral, que fica a três minutos de carro da primeira escola, ainda há flores e homenagens na porta. Para o aposentado Márcio Costa, de 48 anos, ainda vai demorar para os moradores processarem toda a tragédia que ocorreu nas escolas.

“O clima na cidade é de revolta e tristeza. Pelo que tenho conhecimento, em 50 anos de existência do bairro, houve apenas um assassinato e agora tivemos essa tragédia. Meus dois filhos estudaram na escola Primo Bitti, um até o ano passado, sendo que a professora Cybelle deu aula de Matemática para eles. A escola sempre foi muito tranquila”.

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