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DEPENDÊNCIA QUÍMICA

Pais “penhoram” até crianças para sustentar vício em drogas

Filhos são deixados em bocas de fumo para garantir pagamento de dívida com traficantes

Última atualização

O vício em drogas expõe famílias a situações até então inimagináveis, como os casos de usuárias que penhoram os próprios filhos em bocas de fumo para sustentar a dependência pelo uso de entorpecentes.

A denúncia, feita à reportagem de A Tribuna por meio de moradores da Grande Vitória, foi confirmada por conselheiros tutelares, especialistas e pastores que lidam com este tipo de público.

Na Serra, segundo relato de uma diarista de 41 anos, moradora de Jardim Carapina, uma jovem deixou o próprio filho, de 5 anos, em uma boca de fumo como forma de pagamento de drogas. 

A diarista conta que por lá os casos de negligência contra crianças não ficam restritos às mulheres. 

“Sei de casos de mães que já deixaram seus filhos em bocas de fumo para pagar dívida. Mas também há muitos homens viciados em crack que levam o filho junto na hora de comprar drogas”, contou a moradora, que pediu para não ter a identidade revelada.

Procurador de Justiça, Sócrates de Souza relata que já recebeu algumas denúncias similares. 

“Os usuários fazem de tudo por conta das drogas, deixam os filhos em bocas de fumo, os deixam largados em casa, colocando em risco a integridade física deles. Isso acontece, principalmente, em bairros mais carentes. Em alguns casos, as próprias mães, usuárias de crack, entregam seus filhos”. 

Embora não tenha recebido muitas denúncias semelhantes, o promotor de Justiça Clóvis Figueira contou que há alguns anos atuou em um caso no qual a mãe entregou a criança para criminosos, a fim de pagar dívidas de drogas. 

O promotor disse que, assim que tomou conhecimento do caso, ajuizou um pedido de busca e apreensão da criança, que na época era recém-nascida. 

“Esgotadas todas as medidas previstas na lei, não havendo familiares aptos, ajuizei processo de destituição do poder familiar e a criança foi colocada sob adoção”, disse Clóvis Figueira. 

Já o pastor Romerito Oliveira, que atua na região do Bairro da Penha, em Vitória, fazendo o resgate de viciados, disse que viu casos de usuários que chegam a deixar grandes patrimônios nas bocas de fumo, como forma de pagamento de drogas.

“Deixam até seus carros como forma de pagamento. Bens que, às vezes, lutaram muito tempo para ter. Se fizerem isso, sabemos do que uma pessoa viciada é capaz”.

Meninas usadas para prostituição

Para manter o vício em drogas, muitos pais e mães usam as próprias filhas, adolescentes, para comprar crack, cocaína ou maconha. Segundo denúncias de moradores de bairros da Serra e Vila Velha, essas menores são usadas por traficantes no mercado do sexo.

Em um bairro de Vila Velha, que não será informado para não colocar em risco a vida de uma conselheira tutelar de 41 anos, traficantes estão abusando sexualmente de adolescentes sob o consentimento dos pais, que possuem dívidas com eles.

“Todas são menores de idade e ficam com esses criminosos a mando do próprio pai ou da mãe, que chegam a levá-las até eles (criminosos). Um absurdo!”, contou a conselheira tutelar.

Em Jardim Carapina, na Serra, a prostituição de meninas acontece em festas promovidas por traficantes da região. 

“Pagam moradores para deixarem fazer as festas em terraços das casas, para ninguém suspeitar de nada. Lá, acontece de tudo, inclusive sexo com essas garotas, que fazem isso para pagar dívidas dos pais”, disse uma dona de casa de 35 anos, que não quis ser identificada.

O promotor de Justiça Sócrates de Souza explica que, como são garantidores dos direitos de seus filhos, os pais respondem criminalmente pelas negligências cometidas contra eles. 

“Se ficar provado ainda que o pai ou mãe sabia dos riscos e mesmo assim assumiu o resultado,  o crime é considerado doloso”, disse.

De acordo com o  artigo 244 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), submeter criança ou adolescente à prostituição ou à exploração sexual é crime, cuja pena pode chegar a 10 anos e multa.


OUTROS CASOS


Mãe de usuário paga dívida dele com sexo 

Uma dona de casa de 39 anos foi obrigada a se prostituir para traficantes de um bairro de Cariacica após o filho dela, um adolescente de 17 anos, adquirir entorpecentes com os criminosos e não fazer o pagamento. Como o rapaz e a mãe tinham dinheiro, os bandidos obrigaram a mulher a passar um período em uma casa alugada pelo crime para se prostituir.

Parente impede venda de criança 

Usuária de drogas, uma mulher de aproximadamente 35 anos que mora em Vila Velha iria vender a filha recém-nascida para comprar entorpecentes, mas foi impedida por uma tia da menina.

Foi essa mesma tia quem levou a usuária até uma clínica de reabilitação, onde ela passou por um tratamento para largar o vício.

Casa e filho nas mãos de traficantes

Uma viciada em crack entregou a casa e o filho pequeno, de 5 anos, a um traficante, como pagamento de uma dívida em boca de fumo, há dois anos, na Serra. O marido, que não era viciado, conseguiu recuperar o menino, mas a casa ficou para o tráfico.

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