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POLÍCIA

Traficantes dão até gás de cozinha a moradores em troca de silêncio

Quem mora no Complexo da Penha, em Vitória, recebe até gás de cozinha e TV a cabo para esconder criminosos da polícia

Região do Bairro da Penha: cesta básica e até caixa de bombom são algumas das moedas de trocas que traficantes e assassinos usam para comprar o silêncio de moradores da comunidade

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Gás de cozinha, internet, TV a cabo, cesta básica e até caixa de bombom são algumas moedas de trocas que traficantes e homicidas do Complexo da Penha, em Vitória, usam para comprar o silêncio de moradores da região. 

O Bairro da Penha é um dos locais que é sede do Primeiro Comando de Vitória (PVC), a maior facção criminosa do Estado, e tem uma região íngreme de morro que dificulta o trabalho da polícia.

O chefe do Departamento Especializado de Homicídios e Proteção à Pessoa (DEHPP), delegado Romualdo Gianordoli, explicou que o traficante  Fernando Moraes Pimenta, o Marujo, chegou a ordenar para que fossem distribuídas caixas de bombons para crianças da comunidade. A ideia, segundo a autoridade policial, seria garantir a parceria dos moradores. 

Mascarados como “bonzinhos”, por de trás da máscara, há assassinos que fazem as próprias regras na comunidade. Há, inclusive, um tribunal próprio, no qual a regra é definida pelas lideranças e varia para cada comunidade, como, por exemplo, a regra de não poder roubar no bairro. Caso seja desobedecida, o indivíduo pode pagar com a própria vida.

Somado à sensação de segurança com os itens dados pelos traficantes, fica mais fácil ter o apoio da comunidade.

De forma anônima, um dos representantes da comunidade do Bairro da Penha contou em entrevista que já viu casos de moradores aceitarem gás de cozinha, por exemplo. No entanto, destacou que a  maioria não compactua com o crime e vive uma situação  vulnerável, com necessidades básicas.

Depois de aceitar as ofertas do tráfico, os moradores ainda são obrigados a abrirem as portas de suas casas quando a polícia está no bairro.

“Estamos falando de uma organização criminosa no alto do morro, com visões privilegiadas e equipados com funções como olheiros e fogueteiros que avisam sobre qualquer movimentação da polícia aqui em baixo. Podemos assegurar à população que as denúncias anônimas são criptografadas e seguras e graças a essas denúncias conseguimos efetuar prisões importantes”, disse o delegado Romualdo.

 Até microcâmeras na caça por assassinos em Vitória

Para a polícia, quando o silêncio da comunidade é comprado por criminosos, a missão de encontrá-los fica ainda mais complicada, uma vez que não pode entrar nas casas dos moradores sem autorização judicial ou do proprietário.

 













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Em abril deste ano, policiais conseguiram um mandado de busca e encontraram um esconderijo no quarto do pai do traficante  Fernando Moraes Pereira, o Marujo. 

Segundo o titular da Delegacia de Homicídios de Vitória, Marcelo Cavalcanti, depois que encontraram o esconderijo, eles chegaram a furar a parede e a usar uma sonda com uma microcâmera para avaliar o que tinha dentro.

Ainda segundo o delegado, há casos de lideranças que decidem viver uma realidade paralela a das comunidades, morando em prédios de luxo e frequentando ambientes como shoppings e churrascarias.

Em setembro, um policial estava em uma churrascaria na capital e reconheceu um dos gerentes do tráfico do Bairro da Penha, Rodrigo Matheus Pereira Costa, em Jardim Camburi. Uma equipe foi chamada e o traficante preso. 

No final de 2020, o delegado Romualdo  Gianordoli estava de folga, passeando no shopping em Vitória, quando reconheceu um foragido, que foi preso em seguida. 

No ano passado, o delegado Marcelo Cavalcanti prendeu Lucas Madashy Goes Vieira, gerente do tráfico da região do Morro do Romão, em Vitória. Ele estava em um consultório dentário, fazendo um tratamento quando foi surpreendido, em Vila Velha.

ENTENDA


Punições para quem não colabora

Maior Facção do Estado 

> O Primeiro Comando de Vitória (PCV) foi fundado no Bairro da Penha por Carlos Alberto Furtado da Silva, o Beto, que está preso.

> Mesmo em um presídio de segurança máxima, em Porto Velho, Rondônia, no Norte do Brasil, Beto é o principal cabeça da facção.

> Fernando Moraes Pereira Pimenta, o Marujo, é chefe do tráfico no Bairro da Penha e responsável por autorizar moedas de troca para comprar o silêncio de moradores.

> No Natal, Marujo ordenou que  caixas de bombons fossem entregues para as crianças. Ele também autorizou a entrega de outros  itens, como gás de cozinha. 

Tribunal do crime

> Apesar dos criminosos parecerem “bons”, com entrega de “presentes”, existe obrigação de ajudar traficantes e assassinos a se esconderem.

> Quem desobedece  a ordem pode ser punido e até expulso da comunidade. Mesmo assim, a polícia conta com denúncias anônimas.

> Delegados alertam que a população não deve aceitar ordens de criminosos e, sim, contribuir com denúncias anônimas que são seguras e criptografadas.

Fonte:  Polícia Civil

“Comunidade não se reconhece na figura policial”, Rusley H. Medeiros Miorim, especialista em Direito Penal e mestre em Segurança Pública

O grande problema que se vê, hoje, na compreensão do trabalho policial é a ausência de reconhecimento. O policial não se vê na comunidade em que trabalha, e aquela comunidade não se reconhece na figura policial. Porém, além disso, temos visto o grupo criminoso incitando e dificultando o trabalho policial e buscando parcerias com os moradores.

O que é preciso, em curto prazo, é, principalmente, solidificar a atuação das agências policiais, possibilitando que suas ações sejam ratificadas (quando respeitado os direitos fundamentais) pelo Poder Judiciário. A maior dificuldade da polícia e, claro, do policial, é ele ter a sensação de que vive em um mundo diferente dos julgadores e de  especialistas de redes sociais. 

A verdade é que  precisamos reconhecer e tornar a presença policial não apenas necessária, mas desejada. E, claro, isso precisa de mudanças nas próprias forças policiais, na sociedade, no Poder Judiciário e no Ministério Público. No fundo, é uma mudança de paradigma.

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