Apesar de estarem no mundo do crime e saberem os caminhos a que essa vida pode levar, traficantes da Grande Vitória estão procurando igrejas e pedindo oração para que seus filhos não entrem para o tráfico.
É o que afirmam pastores, obreiros, missionários e padres que possuem contato direto com familiares e até mesmo com os próprios criminosos. Segundo os religiosos, além de pedirem ajuda, muitos traficantes chegam a levar os jovens aos templos.
Leia Mais: “Tive muito medo de ver minha filha no tráfico”, diz ex-traficante
O pastor Romerito Oliveira da Encarnação, que atua na Igreja Assembleia de Deus Ministério Atos, no Bairro da Penha, em Vitória, contou que lida com várias famílias em que o pai é envolvido com o crime. Ele disse que os criminosos o abordam no interior da igreja e nas ruas.
“Geralmente, eles falam: ‘Pastor, orienta meu filho nos trabalhos da igreja. Eu não quero que ele leve a vida que eu estou levando’. Eles sabem que o que estão fazendo é algo errado e não querem os filhos no crime. Essas pessoas não desejam para os seus filhos o sofrimento que elas sabem que o mundo do crime pode trazer e solicitam que a gente, de alguma forma, tente envolver esses jovens na igreja. Isso acontece com frequência.”
Já o pastor Lucas dos Santos, da Assembleia de Deus Ministério Vinde a Mim, no bairro Primeiro de Maio, em Vila Velha, contou que traficantes pedem ajuda para eles próprios e chegam a levar a família inteira à igreja.
Ele afirmou que, em regiões de conflito, é comum traficantes pedirem ajuda para os filhos. “Houve casos de traficantes que levaram a família inteira à igreja, dizendo: ‘Pastor, socorre minha família. Sei que estou errado, mas não quero eles no crime’. Isso acontece em boa parte de igrejas que ministro, não só em Vila Velha, mas na Serra e em Cariacica.
O padre Kelder José Brandão Figueira, da Paróquia Santa Teresa de Calcutá, que atende as regiões de Itararé, Bairro da Penha, Santo Benedito, Alto de Itararé, Gurigica, Jabour, e Engenharia, em Vitória, disse que também é comum traficantes procurarem a paróquia para batizarem seus filhos.
Ele acrescentou que nunca teve problemas com traficantes e que, todas as pessoas merecem uma segunda chance. “Eles não são monstros e têm o direito de querer algo melhor para seus filhos.”
“Eles gostam de ser visitados por padres e pastores”
O padre Kelder José Brandão Figueira, da Paróquia Santa Teresa de Calcutá, na capital, trabalha há 30 anos nas periferias da Grande Vitória. Ele contou que, durante peregrinações em bairros, já foi abordado por vários traficantes pedindo ajuda espiritual para que seus filhos não entrem para o crime.
“Eles gostam de ser visitados por padres e pastores. Enxergam em nós um socorro para suas famílias e, muitas das vezes, para eles próprios.”
Entre as experiências já vividas, o padre destaca o dia em que esteve com o chefe do tráfico de um bairro de Vitória, que ele não quis revelar qual é, e o criminoso lhe fez um pedido.
“Ele me pediu interseção para que suas filhas não entrem para o crime. Ele veio até mim e disse: ‘Padre, eu tenho duas filhas, uma de cinco anos e outra de quatro. O senhor acha que eu quero essa vida para elas? Não quero’. Eles (traficantes) sabem do risco que a pessoa corre estando no crime e, por isso, pedem ajuda para não verem os filhos nesse mundo.”
Kelder relatou também que criminosos participam de missas. Para ele, o fato de o pai estar no crime não impede que ele peça orações para a vida de seus filhos. “As experiências que vivi mostram que as pessoas são não monstros”.
Religiosos evitam guerras

Essa experiência foi vivenciada pelo padre Kelder José Brandão Figueira, da Paróquia Santa Teresa de Calcutá, Vitória.
“Eu fazia uma peregrinação, quando vi dois grupos que estavam indo em direção um ao outro. Todos os criminosos estavam armados e quando nos viram, eles pararam e mudaram de rumo. Naquela noite, não teve nenhum tiroteio, graças a Deus”, contou.
Quem também conseguiu evitar um confronto armado entre bandidos foi o pastor Lucas Dos Santos, da igreja Assembleia de Deus Ministério Vinde a Mim, no bairro Primeiro de Maio, em Vila Velha.
Ele contou que, há alguns meses, recebeu a ligação de um morador suplicando por uma visita a duas comunidades de Vila Velha. A voz desesperada do outro lado da linha informava que uma guerra entre duas facções aconteceria naquele dia.
“Fui até o chefe do tráfico de cada uma das comunidades e conversei. Orei junto com eles, e graças a Deus, ambos aceitaram meu pedido e a paz foi instalada ali”, relatou o pastor.

