A avó paterna de Kauã Salles Butkovsky, de 6 anos, Marlúcia Butkovsky, de 56 anos, disse na manhã de sábado (29) que recebeu a notícia sobre a prisão do pastor Georgeval Alves Gonçalves do filho, pai de Kauã, o comerciante Rainy Butkovsky, 31 anos. Ela estava em casa e disse que ficou muito assustada, quando soube. A família mora no muncípio da Serra.
Ela contou para a reportagem de A Tribuna que, no dia da tragédia — 21 de abril —, recebeu a notícia da morte do neto horas depois do ocorrido, por telefone.
A Tribuna – Como ficou sabendo da tragédia?
Avó – A notícia chegou para mim por meio dos meus familiares que residem lá (Linhares), horas depois do incêndio acontecer. Eles me ligaram e me perguntaram se eu já estava sabendo do ocorrido. Eu disse que não e eles me contaram do incêndio e falaram que meu neto não tinha conseguido escapar das chamas.
O que a senhora fez em seguida?
Como eu não acreditei, eu liguei para a mãe dele (a pastora Juliana Salles) e um pastor atendeu a minha ligação. Eu perguntei como estava meu neto. Eu só queria ouvir a informação de que ele estava bem.
E ele falou o que tinha acontecido?
Quando eu perguntei se meu neto estava bem, a ligação ficou muda e eu me desesperei, pois já sentia que algo ruim tinha acontecido com ele.

Não. Ele estava dormindo. Eu o acordei e contei o que tinha acontecido.
Qual foi a reação dele?
Ele entrou em estado de choque. Paralisou totalmente. Depois se emocionou muito. Além dele, eu tenho uma filha que também mora comigo. Eu pedi a ela para arrumar as malas, porque nós tínhamos que ir para Linhares com urgência e foi o que fizemos.
E quando chegaram ao local, qual foi a sua reação?
Eu desabei. Me desesperei. Gritei muito. Olhava para a varanda da casa e me lembrava da última vez que vi meu netinho e seu irmão Joaquim (que também morreu no incêndio).
Chegou a falar com o padrasto (pastor Georgeval Alves) no local?
Quando cheguei ao local, não tive coragem de conversar com ele e não perguntei nada. Tentei entender aquele momento de dor, pois se estava doendo muito em mim, imagina nele?
Como a senhora recebeu a notícia de que o pastor foi preso na manhã de ontem?
Eu estava na minha casa, com meus filhos, quando eu li na internet a notícia de que ele havia sido preso. Fiquei e estou assustada com isso. Não sabemos realmente se ele está envolvido nisso. Mas se estiver, nós queremos justiça!
Alguma vez Kauã reclamou com a senhora sobre alguma coisa?
Nunca. Se tivesse, nós teríamos tomado providências.
Como era o seu neto?
Meu anjinho era uma criança incrível. Muito especial. Adorava cantar louvores, era uma bênção de Deus. Transformou meu filho. Transformou a própria mãe. Ele os levou para os caminhos de Deus. Veio aqui e trouxe muito amor. Ele é e sempre será minha bênção.
Vocês tinham muito contato?
Depois de abrir meu comércio, não dava para pegá-lo sempre, devido aos dias que trabalhamos. Mas quando ele não estava conosco, eu mesma ligava sempre para falar com ele.
Qual foi a última vez que a senhora esteve com ele? Se lembra?
Foi no feriado da Sexta-feira da Paixão. Nós passamos quatro dias com ele: eu, o pai dele e minha outra filha. Nós fomos para um hotel lá de Linhares e ficamos com ele.
Passamos esses quatro dias só de bênçãos. Inclusive, no último dia que ele estava conosco, a mãe dele me ligou dizendo “o Joaquim está aqui chorando porque ele está com saudade de Kauã. Ele está chorando desde a hora que Kauã saiu daqui”.
Eles eram muito unidos?
Muito. Um protegia muito o outro e eram carinhosos ao extremo. Tanto que nós voltamos lá na casa do Kauã e pegamos o Joaquim e saímos com os dois.
Depois o levamos para casa. Nesse momento, em que deixamos eles lá, foi a última vez que estive com eles, que os vi.
A senhora considera que aquele momento foi uma despedida?
Sim, porque na hora que eu e meu filho deixamos eles lá, naquela casa, eles subiram para a varanda e ficaram olhando para nós com um sorriso enorme no rosto.
Nesse momento, eu, meu filho (Rainy, pai de Kauã) e minha filha olhamos todos juntos para os dois e nossos olhos encheram de lágrimas. Foi nossa despedida a eles, com certeza.
O que fica agora, além da saudade?
Os momentos em que eu tive oportunidade de passar ao lado dos dois.
Falo muito do meu neto, mas o Joaquim era outra criança incrível. Sei que não será fácil. Na verdade, não está sendo, mas com ajuda de Deus e de minha família, vamos todos superar isso.
A saudade será eterna e ele sempre será minha pequena “estrelinha”, porque era assim que ele se intitulava com todos.
