
Ele e outro colega davam expediente quando foram orientados a mudar um armário de sala. O corpo de Filipe foi encontrado às 15h40 dentro de um elevador, encurralado pelo armário, que, ao se movimentar com o elevador, lhe quebrou o pescoço.
Ainda segundo o portal, Filipe havia começado seu trabalho de monitor neste ano. Em troca de uma bolsa de R$ 530, ele e o colega dedicavam dez horas por semana ao help desk (serviço de apoio a usuários com problemas técnicos) do laboratório de informática da Poli, que fica no prédio administrativo.
Em depoimento à polícia, a supervisora da dupla admitiu que partiu dela a ordem para que eles transportassem o armário, embora a Poli conte com serviço interno de manutenção.
Como foi o acidente
Também segundo o Uol, um dos professores da faculdade estava mudando seus objetos de sala e precisava de ajuda para transportar um armário de madeira, com divisórias ocupadas por livros e CDs. Foi quando a supervisora dos monitores pediu que eles deixassem suas funções originais e ajudassem no trabalho.
De acordo com os testemunhos à polícia, foi ideia do professor que os garotos carregassem o armário em um carrinho para transporte de carga. Os rapazes esvaziaram parte do armário e transportaram seu conteúdo em caixas. Para evitar a escadaria, preferiram utilizar o elevador de deficientes.
Depois de algumas idas e vindas, havia chegado o momento de carregar o armário, com a última prateleira ainda com livros. Os dois empurraram o carrinho até o pequeno elevador, mas apenas um deles conseguiria entrar com o móvel. Filipe, então, apoiou o carrinho contra o corpo e entrou no elevador de costas.
Sem espaço, ele precisou apoiar a parte de cima do armário, que estava inclinado, com o próprio pescoço. Como Filipe não conseguiu alcançar o botão para fazer descer o elevador, seu colega foi até o térreo, que dá acesso à recepção do prédio, e apertou o botão. Foi quando o acidente aconteceu.
O carrinho entrou completamente no elevador –que não tinha porta própria e, por isso, era fechado por uma porta de vidro que fica no andar–, mas dois parafusos na parte inferior do armário ficaram do lado de fora. Quando o elevador iniciou a descida, os parafusos enroscaram no piso e o armário subiu, quebrando o pescoço de Filipe, o que resultou em sua morte, segundo o laudo.
Com o imprevisto, o elevador parou entre os andares. O colega, ainda do térreo, estranhou o ocorrido e enviou mensagens de WhatsApp para Filipe, que não respondeu. O rapaz, então, decidiu pedir ajuda.
Em pouco tempo já havia uma aglomeração em torno do elevador. Nesse momento, segundo os depoimentos, uma mulher da diretoria da Poli apareceu gritando que “aquele elevador não era para transporte de carga”.
De fato, uma placa ao lado do elevador e outra na parede contígua informam que ele é de “uso exclusivo de pessoas com necessidades especiais”. “Proibida a utilização de carga e descarga.” O Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) chegou aproximadamente 50 minutos depois. Encontraram o corpo de Filipe ainda em pé, pressionado pelo armário de madeira. O socorro não chegou a levar o estudante para o hospital, mas caberá ao laudo do IML (Instituto Médico Legal) informar se Filipe de fato morreu na hora.
O laudo do IC atribui a morte à quebra do pescoço do rapaz, análise que vai ao encontro do que informa a certidão de óbito, que menciona “contrição cervical” e “asfixia”. De acordo com o relato de um engenheiro contratado pela família, o elevador operava fora dos padrões. Além da porta de vidro instalada no andar, ele deveria contar com uma porta própria, que não existia e que poderia ter prevenido o acidente. Como o elevador era vazado na parte da frente, os passageiros também poderiam bater a cabeça na laje.
Procurada pela reportagem, a Poli informa que as condições da “plataforma acessível” e suas licenças de funcionamento estavam em dia e foram encaminhadas à perícia no dia do acidente. “O Instituto de Criminalística possui todas as cópias desses documentos, bem como realizou todos os testes, atestando seu funcionamento adequado conforme a norma vigente para plataforma acessível.” Desde então, o elevador está interditado, conforme verificou a reportagem do UOL. Um tapume cobre o único elevador acessível do prédio com uma placa que diz: “Favor não mexer!!!”.
Punições
Procurada pelo UOL, a defesa da família de Filipe afirma que o caso deve ser enquadrado como homicídio não intencional. “Diante das provas até aqui levantadas, tudo leva a crer que a morte de Filipe não foi uma mera fatalidade. Houve, ao que parece, negligência e imprudência por parte daqueles que deram a ordem aos meninos. A expectativa é a de que todos os possíveis envolvidos sejam responsabilizados pelo crime de homicídio culposo, sem intenção de matar”, afirmou o advogado Euro Maciel Filho.
A pena para o crime é de um a três anos e pode ser cumprida em regime aberto, com imposição de sanções restritivas de direitos, como limitação de fim de semana, prestação pecuniária à família da vítima ou prestação de serviços comunitários. O advogado diz ter havido “desvio de função, já que Filipe não estava ali para realizar serviço braçal”. “Além disso, tudo foi feito sem qualquer orientação ou fiscalização, o que também contribuiu para a tragédia.”
O advogado diz ter havido “desvio de função, já que Filipe não estava ali para realizar serviço braçal”. “Além disso, tudo foi feito sem qualquer orientação ou fiscalização, o que também contribuiu para a tragédia.” O inquérito está praticamente no fim. O delegado ainda ouvirá o pai de Filipe antes de concluir a investigação e encaminhar o relatório final ao Ministério Público, que vai analisar as provas e decidir se alguém será denunciado à Justiça. A família também deve entrar com uma ação cível, ocasião em que a USP poderá ser responsabilizada.