Para os moradores do Bairro da Penha, em Vitória, conseguir uma corrida em um aplicativo de transporte para sair de casa não é fácil. São muitas solicitações recusadas pelos motoristas, por um só motivo: medo da violência. Esse não é um caso isolado.
Levantamento feito pela reportagem de A Tribuna revelou que quem vive em pelo menos 60 bairros da Grande Vitória passa pelo mesmo drama, que não se restringe ao transporte: serviços como entrega de encomendas, cartas, remédios e lanches também são limitados em diversos endereços, embargados pelo crime.
A lista dos bairros que ficam na zona de exclusão foi elaborada com a ajuda de associações, sindicatos, motoristas e motoboys.
“O primeiro aviso que temos é do próprio aplicativo, que informa que alguns bairros são de risco”, explicou Luiz Fernando Müller, presidente da Associação dos Motoristas de Aplicativos do Espírito Santo (Amapes).
Quando recebe uma solicitação de corrida partindo de determinados bairros, o aplicativo 99 exibe a mensagem “origem ou destino perigoso” ao condutor.
A rota do medo é traçada também pelos motoristas. “Quando alguém vê que o local é perigoso, já avisa aos outros pelos grupos. Isso não é preconceito contra o bairro, é precaução”, disse Müller.
O presidente do Centro Comunitário do Bairro da Penha, Orlandino Rodrigues, conhecido como Baiano, 42, comentou sobre as dificuldades que os moradores enfrentam. “A fama do bairro faz com que os motoristas cancelem corridas e que restaurantes e farmácias de fora não façam entregas aqui”.
Encomendas e cartas também não chegam até as casa. “Nenhuma correspondência sobe (o morro). Os entregadores deixam lá na parte de baixo, o morador é quem desce e pega. Os Correios dizem que o problema está na numeração e endereços incorretos, mas eles têm medo”, afirmou Baiano.
Os comerciantes da parte baixa do bairro providenciaram caixas nas portas das lojas para abrigarem correspondências de quem mora no alto. “Ninguém é impedido de subir por criminosos. O problema é que o bairro ficou com uma fama ruim, por causa de eventos isolados”, desabafou Orlandino.
O outro lado: Correios não informam onde não há entregas
Os Correios afirmaram, por nota, que a entrega de encomendas pode ser prejudicada por condições naturais, geográficas e de segurança. Para esses casos, são adotadas alternativas, como o envio dos objetos à unidade dos Correios mais próxima.
“Por se tratar de assunto relacionado à segurança empresarial, não fornecemos detalhes sobre áreas que estão com suspensão temporária do serviço de entrega de encomendas”.
Delegado faz operações para combater quadrilhas
Ciente da situação em que alguns bairros se encontram, Márcio Braga, titular da 1ª Delegacia Regional de Vitória, vem realizando operações para acabar com quadrilhas que têm como alvos motoristas de aplicativo e taxistas.
“De junho deste ano para cá, já prendemos mais de 10 suspeitos de integrarem essas quadrilhas. As comunidades de bairros como Piedade e Fonte Grande até nos agradeceram”, disse Braga.
Ele conformou que serviços como entrega de lanches e transporte por aplicativo já não entravam nessas comunidades, por causa do histórico de assaltos.
“Continuaremos a fazer ações junto à Polícia Militar para reconhecer esses criminosos e devolver a paz à população”, afirmou.
