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Saúde

Médica cubana: “Não quero ir embora do Brasil”

“Estou muito triste e não esperava ir embora. Meu objetivo era ficar três anos no País, que é o tempo do programa Mais Médicos. Não quero ir embora ...

"Fiz minha parte", diz médica cubana, Dayennys Madrial, que atuava em Vila Velha

Última atualização

“Estou muito triste e não esperava ir embora. Meu objetivo era ficar três anos no País, que é o tempo do programa Mais Médicos. Não quero ir embora do Brasil”, desabafou a médica cubana Dayennys Madrigal, de 29 anos, para a reportagem de A Tribuna.

A médica, que está morando no Estado desde 12 de setembro de 2017, trabalhou nas unidades de saúde de Barramares e Ponta da Fruta, em Vila Velha, até o dia 21 deste mês, quando seu contrato foi finalizado devido ao cancelamento do acordo entre Cuba e Brasil.

O governo cubano anunciou a saída do Mais Médicos, no último dia 14, após as declarações do presidente eleito, Jair Bolsonaro, de que alterações seriam realizadas nos termos de cooperação, como a revalidação de diplomas no Brasil e o pagamento integral do salário para os médicos.

De acordo com a médica, o anúncio da saída pegou os médicos de surpresa. “Não esperava sair do País dessa forma. Amava meu trabalho e amo esse Estado”, afirmou.

Com a passagem marcada para o dia 9 de dezembro, a médica diz não saber se vai embora.
“Ainda não sei se volto para Cuba. Vou decidir. Realmente, não sei o que fazer”, disse.
 

A TRIBUNA – Como foi descobrir que não trabalharia mais no Brasil?
Dayennys Madrigal – Não esperava essa decisão. Quando o presidente eleito, Jair Bolsonaro, deu as declarações falando das revalidações, Cuba não aceitou e com isso não pudemos mais trabalhar no Brasil.

E você teria problema em revalidar seu diploma?
O que me impede é que dependo de um carimbo e, nesse caso, somente Cuba poderia carimbar, me autorizando a revalidar. E devido ao rompimento do acordo não tenho essa autorização.
 

Parte do seu salário ficava com o governo cubano?
Sim. Quando assinamos o contrato fomos informados que parte do nosso salário seria destinado para o governo investir em programas de saúde. Ficávamos com cerca de R$ 3 mil, e o governo com o restante.
 

Seu plano é voltar para Cuba?
Ainda não sei. Terei que voltar no dia 9 de dezembro, mas não decidi se volto ou não. Se ficar serei considerada “traidora da pátria” pelo meu País. O presidente eleito, Jair Bolsonaro, disse que daria asilo e emprego para quem quiser ficar, porém, só saberemos quando ele assumir a Presidência. Enquanto isso, não sei o que pode acontecer.

Mas sua família te apoia caso decida ficar?
Sim. Sou filha única e meus pais me apoiam, seja qual for a minha decisão. Mas eles estão preocupados. Também tenho um namorado que me apoia. Por mim, eu continuaria trabalhando por aqui. Amo o meu trabalho e o Espírito Santo. Se eu ficar, quero continuar morando em Coqueiral de Itaparica. Não penso em ir para outro estado. Gosto muito do Brasil e não quero ir embora.
 

O que te levou a vir para o Brasil?
A oportunidade muito boa de trabalho. Estudei seis anos de Medicina em Cuba e me especializei em Clínica Geral. Fiz o processo seletivo lá, tive um curso intensivo de 21 dias, antes de chegar ao Brasil, com uma professora de Medicina brasileira, além de estudarmos também o idioma. Fizemos prova prática e de audição, foi difícil.

Em algum momento pensou em trazer sua família para o Brasil?
Nunca pensei em trazer minha família para o Brasil. E eles também nunca me visitaram, pois a passagem é muito cara, mais de R$ 4 mil. Meu namorado foi o único que me visitou e ficou três meses aqui. Como o visto só era permitido para este período, ele teve que retornar para Cuba.
 

E como foi o tempo que passou trabalhando aqui? Você gostou da experiência?
No começo foi bem difícil devido ao idioma, além das pessoas ficarem desconfiadas. Como em todos os países, sempre há aqueles que são mais receptivos, como existem aqueles que são mal educados. No primeiro momento houve um conflito para eles entenderem a língua, mas isso foi passando com o tempo.
 

Alguma vez pensou em desistir do programa e ir embora?
Uma vez tive um problema com um gestor da unidade de saúde onde trabalhei e ele me disse coisas muito desagradáveis. Nesse dia pensei em voltar para o meu País, mas foi só essa vez. A maioria das pessoas com que trabalhei sempre me tratou muito bem.
 

E sua rotina de trabalho? Como era?
Atendia de manhã e à tarde. Chegava a fazer até 20 atendimentos em cada período, além dos que chegavam passando mal. Trabalhava de segunda a sexta-feira, sendo que na terça-feira eu estudava. Fazia minha especialização on-line pela Universidade de Santa Catarina e tinha encontros presenciais aqui em Vitória.
 

E se voltar para Cuba, vai continuar trabalhando com medicina?
No meu País tem emprego para os médicos que voltarem. Lá não é igual ao Brasil onde há a falta de emprego. Antes de vir para cá trabalhei em uma unidade de saúde e se voltar terei um emprego novamente.
 

Se terá um emprego, o que te leva a querer ficar aqui?
A qualidade de vida e o salário, que é bem melhor. Também tem os amigos, os lugares. Gosto daqui e por mim não tenho problema em ficar aqui.

E seus colegas não quiseram ficar?
Os que conheço foram embora. Até uma colega que trabalhava aqui no município e tinha filha e marido estava com muita saudade e, por não conseguir trazer a família, para ela foi bom voltar para Cuba.

O Brasil é muito diferente do seu País?
É muito parecido, até as comidas. Arroz, feijão, estações do ano, as praias… Tudo é muito semelhante. A diferença maior é o tamanho do Brasil. E em relação às comidas, o que muda é a forma de fazer. De tudo que comi aqui, o que mais gostei foi da linguiça. Amei o sabor.
Você se sentiu acolhida pelos brasileiros?
Fiz amigos e me senti acolhida sim. Até alguns amigos já fizeram uma despedida para mim. A recepção aqui é bem parecida com a de Cuba, não tive problemas de relacionamento.
Se você decidir permanecer no Brasil, e não puder trabalhar como médica, o que você fará?
Não sei o que vai acontecer comigo, estou sem saber o que fazer.
 

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