Após a pandemia do novo coronavírus, que ninguém sabe ainda quando termina, teremos de nos reinventar em nossa vida em sociedade. E a vida nas cidades vai mudar.
É no que acredita o prefeito de Vitória, Luciano Rezende (Cidadania). Em entrevista à reportagem de A Tribuna, o chefe do Executivo da capital fala na “refundação das cidades” como uma das consequências do período pós-coronavírus.
E não apenas as relações sociais e o modo de viver passarão por transformações. A política também não será a mesma.

ENTREVISTA | Luciano Rezende, prefeito de Vitória
A Tribuna – Quais são os desafios de administrar uma cidade em meio a uma pandemia?
Luciano Rezende – Estamos vivendo um cenário de filme de ficção científica. Ninguém poderia imaginar no Natal do ano passado que em abril teríamos uma pandemia, transmitida pelo ar.
E com uma característica que sobrecarrega os sistemas de saúde, porque 5% das pessoas levam uma demanda intensa para o sistema hospitalar, ficam de 10 a 15 dias em UTI completa, com respirador, para sobreviver. É a maior urgência sanitária dos últimos 100 anos, desde a gripe espanhola, que depois teve ondas de infecção que duraram até 10 anos.
Essa demanda requer dos governos uma ação rápida e importante para que não haja um número muito grande de infectados.
Embora 80% de quem é contaminado não tenham nada, quanto mais infectados nós tivermos, os 5% que terão a doença grave vão ser suficientes para esgotar os leitos de UTI que são usados para todas as doenças graves, então a mortalidade aumenta muito.
Por isso, a imagem pelo mundo de muitos mortos é uma imagem assustadora.
Eu, como médico e ex-secretário de Saúde, digo que o combate à pandemia é uma corrida contra o relógio. Por nenhum dado que a gente vê, é possível suspeitar que se chegou ao platô (estabilização) da doença.
O protocolo recomendado como forma de combater a transmissão do vírus é o isolamento social, o que acaba também com as atividades econômicas. Como vê esse cenário?
Nós temos, como uma segunda tragédia, a destruição da economia. Temos a destruição do comércio, dos empregos, dos serviços, de trabalhadores informais. Nós vamos ter que refundar a sociedade, nosso modo de viver mesmo. Nada será como antes.
Essa semana, eu ouvi um termo que o governo da Espanha está usando, que vamos voltar a um “novo normal”, aquele normal que vivíamos não volta mais. Teremos mudanças profundas no comportamento, muitos empregos vão desaparecer e outros, em outros setores, serão criados.
Na nossa capital, vamos ter que refundar, pela segunda vez, no meu mandato, a cidade de Vitória. Tivemos uma Vitória pós-fim do Fundap (Fundo para Desenvolvimento das Atividades Portuárias) e teremos outra Vitória pós-coronavírus.
Além da epidemia sanitária e da crise econômica, parece que temos outra também, que é a do descrédito na ciência. O senhor concorda?
É outra epidemia dentro da epidemia. Nós temos a primeira, que é a doença em si. A segunda, que é a devastação da economia. E a terceira, que é a epidemia de ignorância e total descrédito em fatos e dados científicos.
Algumas pessoas e até alguns líderes, ao alimentar teorias conspiratórias e teses não fundamentadas em fatos e dados científicos, levam o cidadão comum a não ter a disciplina necessária para superar essa epidemia.
O isolamento vertical, por exemplo, não foi feito com segurança em lugar nenhum do mundo, a não ser na Coreia do Sul, que testa todo mundo e já tem um sistema quase que militar de rastreio e testagem de doença.
Não é uma questão de opção, ou a gente isola as pessoas, ou teremos um número de doentes muito maior.
Epidemia é uma corrida contra o relógio, qualquer vacilo, a gente perde o que foi feito.
É extremamente triste ver líderes fazendo discursos irresponsáveis. Eles serão julgados pela História muito rápido.
Em tese, 2020 é ano eleitoral. O senhor acredita que as eleições serão mantidas?
Provavelmente, teremos eleição este ano, não sei se em outubro. A epidemia tem uma movimentação própria e a primeira onda perde forças depois de alguns meses. Posso estar enganado, mas acredito que as eleições devem ocorrer.

A agenda de saúde passou a ser prioritária nos debates nacionais, o Sistema Único de Saúde (SUS) está se fortalecendo, os equipamentos, reforços, ficarão como legado pós-Covid.
Os serviços públicos nos municípios serão cada vez mais digitais. Vitória é conhecida como uma cidade inteligente, modelo no País.
Esse processo de informatização foi acelerado, a prefeitura está toda trabalhando em casa, dificilmente vamos voltar para o modelo antigo, o mundo inteiro vai ter muito trabalho e atendimento online.
E a política?
Os políticos e os debates políticos também terão de se adaptar ao novo normal. Não teremos mais campanhas com grandes aglomerações, contato físico com os eleitores. Isso é muito bom, mas não tem como ser feito agora.
Após os atritos na relação do Cidadania com o PSB em Vitória, como está a relação entre os partidos?
A minha relação com o governador (Renato) Casagrande é uma relação pessoal, acho o Renato um homem de bom coração, gosto do Renato, ele seria meu amigo em qualquer situação fora da política, é uma pessoa carinhosa, é verdadeiro, fala o que está pensando, não engana ninguém.
Raro é o dia que eu não converso longamente com o Renato.
