A incongruência entre o que sentimos por dentro e o que demonstramos por fora gera um desgaste profundo, conhecido como dissonância cognitiva e esgotamento emocional. Quando alguém vive um personagem, seja para agradar aos outros, buscar aprovação social, esconder sua verdadeira essência ou manter uma vida de aparência, o cérebro opera em um estado de alerta e estresse constante.
Estamos vivendo o tempo que não tem tempo para dizer ao tempo que o tempo do tempo é o tempo que o tempo tem.
Respiramos uma cultura que confunde sucesso com importância e perfeição com felicidade.
Fomos ensinados a buscar uma performance ininterrupta, como se a vida fosse uma linha de montagem e não uma experiência para ser sentida. Criamos uma sociedade que faz tudo, mas sente que não tem nada.
As redes sociais viraram vitrines de personalidades narcisistas, caracterizadas por pessoas que possuem extrema necessidade de admiração. Trata-se de indivíduos com ardente falta de empatia e senso inflado de autoimportância, sempre necessitando recorrer à desinformação ou ao exagero para garantir que os outros o vejam sob uma ótica de superioridade.
Vivendo uma existência artificial, o narcisista mantém um padrão de busca constante por atenção e reatividades emocionais excessivas.
Muitas vezes, não se trata de um transtorno mental, mas sim de uma dificuldade em lidar com a própria realidade.
A pessoa falseia fatos porque não tolera o ambiente em que vive ou a imagem que tem de si mesmo, usando o meio para construir um personagem fictício idealizado.
Com o ego fragilizado, esse tipo de indivíduo tenta evitar frustrações, sem perceber que pequenas decepções funcionam como vacinas contra fracassos futuros.
A vida performática torna a pessoa como alguém que vê pelos olhos dos outros, não experimentando o que sente, mas o que pode ser aceito.
Aos poucos, o critério deixa de ser a verdade, mas a aprovação alheia. Entretanto, ao desligar o computador, o indivíduo sente aquele silêncio estranho de quem sabe que estava encenando.
Muitos não organizam o dia para viver melhor, organizam a vida para parecer melhor, não percebendo a aparência virar prioridade, tornando a experiência figurante.
Convém lembrar que a pessoa performática não perde sua essência, perde o acesso a ela.
Honestidade consigo mesmo não é controle absoluto, mas saber o que fazer quando o controle falha.
Ansiedade, inquietude, vontade de preencher o silêncio com qualquer coisa, talvez não seja tédio, mas o sinal de que o indivíduo passou tempo demais vivendo para fora e pouco tempo existindo para dentro.
Quem vive apenas procurando ser aceito, acaba se surpreendendo quando, em algum momento, sem aviso, sem plateia, sem filtro, a vida bater à porta e ele não souber como atendê-la.
A verdade não garante admiração. Garante apenas a possibilidade de não sentir vergonha de si mesma.
Maquiada diante do espelho, a felicidade se depara com o reflexo da tristeza.